sábado, 21 de janeiro de 2012

A Polícia no Projac


TELEANÁLISE

Sentinela - Malu Fontes*



Nem bem estreou e o Big Brother Brasil 12 já chegou dizendo a que veio: convocou todo o país para falar de um suposto estupro na tal casa e todo mundo atendeu à convocação, a imprensa junto, é claro. Há uma semana que não se fala em outra coisa no País. Daniel estuprou ou não estuprou Monique? Pouco importa saber quem é um ou outro. Basta saber que são BBBs para que aquilo que um fez com o outro, ou contra o outro, passe a ter relevância nacional. Quiçá, internacional, visto que o formato BBB é globalizado, vale lembrar.

Para se chegar a essa convocação atendida majoritariamente por uma sociedade inteira, não se pode perder de vista, mais do que o assunto em si, a força desprogramada e incontrolável do fenômeno que já atende pelo nome de informação compulsória ou jornalismo compulsório. O fenômeno consiste no seguinte: mesmo que um determinado leitor não tenha absolutamente nenhum interesse num tipo específico de notícia, geralmente relacionada ao mundo das celebridades, ele saberá dessa notícia.

MORTO- Exemplos claros de notícias compulsórias: seja você quem for, se nas últimas semanas não tiver lido ou ouvido nada sobre o estupro do BBB, Luiza no Canadá e sobre Michel Teló, muito cuidado. Beslique-se, pois você deve estar morto. A consequência imediata da noticia compulsória é transformar o país num Fla-Flu, num Ba-Vi: uns são mortalmente contra o personagem objeto da notícia, outros doentiamente a favor e uma dúzia de silenciosos querem se mostrar intelectualmete superiores por se acreditarem fora do estádio apenas por ficarem rondando-o de soslaio na porta taxando os outros de imbecis.

Se houve estupro ou não na casa do BBB, exibido pela Globo apenas para os telespectadores que têm TV por assinatura e compraram o Big Brother 12 pay per view, a emissora, a Polícia, a Justiça e os envolvidos que deem ao episódio o tratamento que a lei determina. Estupro é crime e até onde de sabe o Código Penal não é flexível para contextualizações como o fato de ambos estarem trêbados com a anuência e estímulo de uma atração televisiva e do ato ter acontecido diante de trocentas câmeras. Embora Boninho, o eterno diretor do programa tenha insinuado queixas à lei que enquadra o estupro, considerando-a como "muito ampla", o fato é que estupro é estupro e não há meio termo.

Para além do que quer que seja que tenha ocorrido nas barbas da Globo e de sua tipificação ou não como crime, impressionou a flora e a fauna que vieram a público 'enriquecer' o debate. De 'blogueiros progressistas' que aproveitaram o coito global para puxar o saco do patrão atual e lavar mágoas com os Marinho, pedindo que o Governo Dilma cassasse imediatamente a concessão da Rede Globo como emissora de TV até empresários e agentes dos dois personagens envolvidos trocando acusações moralistas, racistas e sexistas, nenhum nicho de protestantes deixou de dar seu depoimento nas redes sociais desde o imbróglio do edredon.

POVO NEGRO - Sim, a repercussão se tornou maior que o fato e por mais que no dia do ocorrido Pedro Bial tenha resumido o que pode ter sido um crime sexual com um "o amor é lindo” e tenha explicado ao público a expulsão do acusado de estupro com um vago "comportamento inadequado", durma-se a Globo e os patrocinadores do BBB com um barulho desses feito pela fauna e flora na web. Quem quiser que acredite que os principais patrocinadores do programa fiquem extamente tranquilos com sua imagem junto ao público tendo investido mais de 100 milhões de reais e vendo suas marcas associadas a estupro. A emissora, por sua vez, teve um consolo e tanto. Se antes do 'estupro' a audiência do BBB 12 patinava na faixa dos 20 pontos, a pior de todas as edições, após o sexo supostamente não consentido o Ibope registrou um crescimento de 80% na audiência, que passou dos 36 pontos. Na fauna e flora já há o nicho que garante que o estupro foi forçado para inflar a audiência e que Daniel não passa de um vendido traidor do povo negro.

E já convocando o diabo para refestelar-se nos detalhes, vale lembrar que, tendo sido estupro de vulnerável, abuso sexual ou relação sexual consentida, é fato que, dado o estado de perturbação alcoólica do casal, jamais cogitou-se convidar a camisinha para meter-se sob o fatídico edredon. Aliado a isso sabe-se que fazer sexo sem proteção com um parceiro que nunca se viu na vida e cuja responsabilidade com o par é zero, sempre pode acabar, no mínimo, em duas roubadas: na contaminação por uma DST (Doença Sexualmente Transmissível) dessas que se tem que carregar para sempre, Aids incluída, ou numa gravidez indesejada.

ABORTO - Como perguntar não ofende, vale uma interrogação: se foi mesmo estupro e a moça tivesse ficado grávida, o público, em se tratando do BBB, seria convocado a participar da decisão a ser tomada sobre o destino do feto? Sim, pois em caso de estupro o direito de abortar é assegurado por lei no Brasil. E as igrejas, evangélicas e católicas, já que agora são todas amigas do tipo unha&cutícula com a Globo, iriam todas se manifestar contra a opção do aborto, como fizeram durante a campanha eleitoral? Ou quem sabe Boninho, o eterno diretor do programa, poderia encampar o nascimento do rebento para, uma vez nascido, mantê-lo para sempre aprisionado na 'Casa' e inaugurar outro reality na linha Truman Show?

Outra pergunta cabível em tempos de estupro transmitido ao vivo por pay per view: que tal nas próximas edições do BBB chamar o consultor e comentarista da Globo, Rodrigo Pimentel, para ensinar aos brothers e sisters como fazer para tomar todas e não correr o risco de estuprar nem ser estuprado na 'Casa' do Projac? Se ele vai até para a Rodoviária do Tietê no Natal ensinar aos nordestinos como não descuidarem-se das mochilas de costas para não atrair ladrão e às ruas para ensinar como as mulheres devem proteger a bolsa ao carregá-las... Convoca o Rodrigo Pimentel, Bial.



*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.

Nas cinzas do Recife: cantor Silvério Pessoa realiza show neste sábado

Sentinela – Antonio Nelson

Em tempo real na rede social

Antonio Nelson
- Clima cinza no Recife!

Silvério Pessoa -
Está chovendo, garoando, clima cinza, bem gostoso pra fazer um show intimista... (risos).

No Grau é o título do mais novo CD do cantor e compositor pernambucano Silvério Pessoa. Neste sábado (21), Silvério Pessoa realizará show
às 17h, por apenas R$ 2,50 (meia) e R$ 5,00 (inteira), no Santander Cultural, no Recife. Já para os clientes e funcionários do Santander a entrada é franca.

Sua arte se propaga com facilidade rompendo algumas barreiras da indústria do mercado cultural em declínio. Através do seu site, Silvério possibilita os internautas fazerem downloads das músicas e videoclipes (baixe aqui), vencendo o monopólio das empresas privadas, concessonárias do serviço público de transmissão de sinais de rádio e televisão, e da indústria fonográfica estrageira no Brasil.

Silvério Pessoa é internacionalmente conhecido. Seus CDs são vendidos em Tóquio e em outras cidades do Japão. Em 2005 lançou o seu quinto CD solo, Cabeça Elétrica e Coração Acústico, e no ano seguinte o mundo conheceu a versão européia. Ele realizou shows na Espanha, França, Dinamarca, Alemanha, Bélgica, Suíça e num dos maiores Festivais do planeta, o Rainforest Festival, localizado na Ásia, Malásia, na ilha de Borneo. Confira No Grau:


sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Entrevista exclusiva com Yuri Rabid, banda Academia da Berlinda




“Existe música pós-manguebeat, existe outro Brasil dentro do Brasil oficial, e sabemos disso”.

Yuri Rabid – contrabaixista - banda Academia da Berlinda

(Yuri é o segundo da direita pra esquerda. Foto: Rodrigo Zanotto)


Sentinela - Antonio Nelson*


Foi nas ladeiras de Olinda, em Pernambuco, que o Frevo, Maracatu, Coco, Ciranda, e múltiplos ritmos do Leão do Norte, contagiaram Yuri Rabid, contrabaixista da banda pernambucana Academia da Berlinda.

Em nosso diálogo, Yuri recorda dos famosos bailes da década de 1970, no Recife, e como se configurou seu encontro com os integrantes da Academia da Berlinda. A banda participou de uma coletânea lançada na Argentina, no segundo semestre de 2011, em tom latino, representando o Brasil, com a música Brega Frances, registrada na trilha do filme "O Palhaço", com direção de Selton Melo. Bandas do Chile, Peru, Colômbia, Estados Unidos também estão na coletânea.

Com mais de 10.000 downloads apenas nas primeiras semanas do lançamento do segundo CD “Olindance”, Academia da Berlinda é mais uma “grupo artístico” da capital pernambucana que rompe as barreiras da indústria fonográfica. Além disso, Yuri fala de literatura, e as expectativas para o Carnaval Multicultural de 2012, do Recife. Confira a entrevista exclusiva!

Antonio Nelson – Como surgiu a Academia da Berlinda? Por que o nome? Vocês se conheceram através da música?

Yuri Rabid – Surgiu de uma festa que fizemos em um quintal de uma casa – Olindance -, aqui de Olinda, em 2004, com o intuito de um baile dançante. Sempre ouvíamos falar de bailes famosos da capital na década de 1970. Foi uma idéia nostálgica de um tempo em que não vivemos e que nossos pais sempre falavam. Clubes tradicionais do Recife e Olinda ainda preservam a dança como carro chefe da casa. É o caso do Bela Vista e o Clube das Pás, que viemos a conhecer pessoalmente depois do início da banda.

Nos conhecemos desde moleque, nas ladeiras de Olinda, fomos criados no meio dos frevos e maracatus. A cidade sempre foi muito musical, e por conseqüência disso, todos vieram a ser músicos. Tocávamos na época, e tocamos em outras bandas até hoje, mas tínhamos vontade de fazer algo juntos.

Foto: Marcelo Lyra.

A.N – São notáveis os ritmos latinos nas composições de vocês. Como foi essa descoberta?

Y.R - O primeiro CD se chama “Academia da Berlinda”, e foi lançado em junho 2007, contou com participações de Fred 04 (Mundo Livre S/A), Jorge Du Peixe (Nação Zumbi, que também assina a arte da capa junto com Valentina Trajano), China, Juliano Holanda, Júnior Areia - produtor musical, DJ Edinho Jacaré, da Cubana do Bela Vista, Maria Laurentino e remix do DJ Bruno Pedrosa. Foi gravado e mixado no Muzak/PE, de fevereiro a abril de 2007. Foi masterizado no Estúdio YB!, em São Paulo, por Gustavo Lenza.

Já o segundo CD se chama “Olindance”, lançado em janeiro de 2011, de forma virtual, em uma ação simultânea da banda com vários blogs, redes sociais e parceiros conseguimos alcançar, logo nas primeiras semanas, mais de 10.000,00 downloads só no blog oficial academiadaberlindablogspot.com. Buguinha Dub assina parceria na produção musical e também é o responsável pela mixagem e masterização dos discos junto com Gustavo Lenza, do YB São Paulo.

Olinda é simplesmente toda nossa fonte de inspiração. Todo artista precisa criar, reciclar suas idéias, oxigenizar sua arte, e é indispensável um ambiente que propicie suas criações. A cidade a todo o momento nos alimenta com ideias e tem um ar diferente para nós. Digo isso com propriedade e sem bairrismo (risos).

A.N – O cotidiano tem presença marcante nas composições de vocês. Quais são as fontes de inspiração?

Y.R - Como dizia Ary Lobo: O que nos inspira é "o movimento da cidade". O comum no cotidiano, a vida noturna dos boêmios, a mulher, amores correspondidos, amores não correspondidos... Olinda, carnaval, tudo isso tem espaço nas nossas composições de forma sutil sem ser pejorativo, como uma atividade lúdica sem muita responsabilidade de mandar mensagens ou tomar partido de algo. Em vários momentos muitos se identificam porque é como se fosse um grande inconsciente coletivo de ideias jogadas com o único objetivo de provocar momentos de alegria e diversão.

A.N – Quais são as principais influências locais, nacionais e estrangeiras?

Y.R - Estamos procurando sempre estar ouvindo coisa nova e velha em comum com as coisas que gostamos. Sempre alguém vem com uma coisa “nova” para nossos ouvidos. De uma forma geral gostamos muito de cultura popular: Frevo, Coco, Maracatu, Cavalo Marinho e Forró. Ouvimos também muita coisa da África, Angola e da Nigéria das décadas de 1960 pra cá, e de toda América Latina.

A.N – São notáveis os ritmos latinos nas composições de vocês. Como foi essa descoberta?

Y.R - Não houve bem uma descoberta, porque os ritmos latinos sempre foram muito presentes aqui em Recife e Olinda. Tenho lembranças de infância de ouvir falar de uma gafieira daqui chamada “Mané Mansinho”, que tocava música latina. O Clube Bela Vista tem a tradicional noite cubana, dos amigos “Edinho Jacaré e Valdir Português”. Sempre faço questão de levar os amigos de fora para conhecer o pedaço de Cuba em Olinda. Essa empatia pela latinidade já é bem antiga. Certo dia, estávamos conversando numa roda de amigos tentando descobrir o motivo sociológico deste fato e obviamente renderam muitas teorias absurdas. Eu mesmo atribuo isso ao clima!

A.N – Foi difícil chegar onde estão?

Y.R - Onde!? (risos). Estamos completando oito anos de banda, e temos que reconhecer que nunca pensamos em fazer uma festa num quintal que rendesse tanta satisfação. Toda banda independente tem suas dificuldades, acho que há 15 anos essas dificuldades eram incalculavelmente maiores que as de hoje, e ainda sim, se fazia música independente. Somos muito gratos de poder desfrutar de ferramentas e recursos que antes eram coisas de grandes produtoras e gravadoras.

Não podemos deixar de falar dos maiores responsáveis e patrocinadores do nosso trabalho, que é nosso público que vai ao show, que gosta e se sente bem com a nossa música. Nós fazemos a Academia da Berlinda porque é uma banda que nos satisfaz musicalmente e pessoalmente.

A.N – Pernambuco, e especialmente o Recife, fomentam muitas produções de impacto, alguns pensam que o Manguebeat acabou. Após a década de 1990, o que vocês têm para apresentar para o Brasil e o mundo?

Y.R -
Acredito que todo o contexto do Manguebeat não teve de início uma fomentação com objetivo de impacto. Foi um movimento que foi tomando forma e crescendo assim como a Tropicália, MPB e outros que equiparo. Na minha humilde opinião, vejo como de mesma importância para música brasileira como também vejo que se voltaram os olhos para Pernambuco no começo dos anos 1990, e de toda movimentação reverberada pelo movimento na época. Para as bandas foi um marco na forma de pensar e trabalhar a singularidade musical de Pernambuco. Para muitos, o fim de mais um movimento musical do Brasil. No ano de 2011 foram lançados em Pernambuco cerca de 170 discos, muitos deles produzidos de forma independente. O importante é que muitas bandas continuam trabalhando sem pensar muito se o movimento acabou ou não, mas com a consciência de que abriu os olhos e ouvidos de muita gente. Acho que temos que apresentar para o Brasil e para o mundo nossa facilidade de assimilar e englobar novos ritmos e sons de características originais que compõem nossa riqueza cultural.

A.N – Grande mídia... redes sociais, blogs e sites. A veiculação nas rádios, no impresso e na TV é difícil?

Y.R - Bastante! Sempre foi muito difícil a veiculação de bandas independentes nas rádios e canais de televisão até hoje, mas atualmente, o grande veículo de comunicação é a internet. Antes, ou você tinha grana pra pagar sua veiculação, ou você tinha gravadora, ou você era o sucesso do próximo verão e no inverno ninguém mais recorda de você. Na rádio e na TV ainda é assim! O que aconteceu é que o mercado mudou e isso no meio independente deu uma melhorada considerável porque facilitou acessibilidade e encurtou o elo entre a banda e o cara que curte a banda.

A.N – O Brasil oficial e o Brasil real?

Y.R - O Brasil oficial é subjetivo por quem o oficializa no meio artístico e em vários aspectos do país. Os imediatismos midiáticos das redes nos bombardeiam o tempo inteiro com informações importantes e ao mesmo tempo também criam uma densa cortina de fumaça que dificultam o nosso entendimento do que é oficial e do que é real. Poucas pessoas tinham este poder de observação na era do monopólio das informações. Hoje isso está mais claro pra todos nós. "Existe música pós-manguebeat, existe outro Brasil dentro do Brasil oficial, e sabemos disso".

A.N – Qual a previsão para o novo CD?

Y.R - Provavelmente este ano ainda iremos trabalhar o "Olindance", que rodou pouco por outros estados. Queremos dar uma circulada ainda com este trabalho e, paralelamente, compor, e já começar a pensar em outro disco, sim. Mas com a ideia de fazer na mesma calma que foi este. Não podemos estipular prazo porque pra fazer um disco 100% independente leva tempo, dinheiro e inspiração. Temos uma cobrança interna de sempre que todo disco saia, seja no mínimo melhor que o anterior, então temos uma grande responsabilidade pela frente.

A.N – Quais as expectativas para o Carnaval Multicultural do Recife em 2012?

Y.R - As melhores possíveis! Passamos o ano inteiro esperando o carnaval. A cidade fica entupida de gente de todos os lugares do mundo, além de ser uma ótima oportunidade para mostrar nossa música ao vivo para muita gente num clima diferente. Sempre são shows especiais e as pessoas podem conferir toda essa multiculturalidade que a cidade respira.


domingo, 15 de janeiro de 2012

Dispensa, cracolândia, que as eleições vêm aí

TELEANÁLISE


Sentinela - Malu Fontes*


Depois de cerca de duas décadas tolerando ou fingindo não ver a multiplicação de usuários de crack e de outras drogas em seu centro, a cidade de São Paulo resolveu enfrentar o exército de morimbundos da cracolândia de uma hora para a outra e de uma maneira pouco eficente. E pelo andar da carrugem e do tamanho do barulho que se viu nos telejornais nas últimas semanas sobre o assunto, o enfrentamento continua não dando muito certo. Ao invés de prender os traficantes que abastecem a região e de oferecer tratamento para os zumbis humanos que circulam por lá, o que se fez foi tão somente deflagrar uma operação de dispersão dos chapados.

Ninguém em sã consciência e sem hipocrisia pode discordar de que o Centro de São Paulo há muito tempo vem requerendo alguma ação política, sanitária, de segurança pública e preferencialmente várias ações dessa natureza coordenadas para impedir que um pedaço urbano do país continuasse a viver sob um sistema de exceção quanto ao tráfico e ao uso de drogas. Ou seja, embora o trafico de drogas seja crime e seja, inclusive, responsável por um percentual gigantesco da população carcerária brasileira, na Cracolândia o tráfico é, há anos, praticado 24 horas por dia, sob a vista omissa de todas as autoridades, de todas as esferas.

FESTA DO CACHIMBO – No entanto, um dado importante e que parece não caber na cobertura dos telejornais acerca da ação da polícia na Cracolândia é a grande coincidência que há entre o fato de se ter adotado agora a tal dispersão dos usuários de drogas do local e a proximidade das eleições. Sim, as eleições para prefeito se aproximam e três personagens protagonistas da sucessão paulistana dariam um rim para poderem anunciar primeiro para os eleitores algo do tipo: quem acabou com a festa do cachimbo fui eu. Para Geraldo Alckmin, o atual governador do Estado de S. Paulo, do PSDB e Gilberto Kassab, o atual prefeito da cidade, do PSD, chegar às vésperas das eleições sem uma solução, maquidada e superficial que seja, para a Cracolândia, equivale a colocar azeitona na candidatura de Fernado Haddad, a carta do PT, de Lula, Dilma e de quem mais reza pela cartilha do grupo para o cargo de prefeito de São Paulo.

Diante da iminência de que o Governo Federal planejava, através do Ministério da Saúde, uma ação para implantar na Cracolândia, com o objetivo de turbinar o nome de Haddad como candidato à Prefeitura, o governador e o prefeito atuais precisavam correr, não necessariamente juntos, já que têm interesses diferentes no processo eleitoral, para não correrem o risco de deixar no eleitorado a impressão de omissão, caso o ministro Alexandre Padilha anunciasse antes algum plano para os usuários.

A pressa de Alkmin e Kassab foi tanta que a coisa se transformou numa tradução do dito popular segundo o qual o apressado come cru. Movidos pela astúcia de sair na frente do Governo Federal, fosse como fosse, as autoridades paulistanas colocaram de uma maneira desordenada a polícia na rua, sem nenhuma estratégia sobre o que fazer com os dispersos no momento seguinte, já que não tinha para onde encaminhá-los nem como tratá-los, dado o volume do grupo e o nível de complexidade do vício em crack. Sequer esperaram a inauguração do abrigo que estava sendo preparado pela Prefeitura para acolher os usuários, oferecendo-lhes tratamento, assistência social, psicológica e psiquiátrica durante o processo de abstinência e de ressocialização. A previsão de inauguração era a primeira semana de fevereiro. Agora, o carro já foi para a frente dos bois.

FRACASSO - Embora a TV não consiga mostrar e contar ao telespectador todos os detalhes envolvendo a operação na Cracolândia, os jornais impressos vêm contando todos os dias detalhes do arco da velha sobre os bastidores da ação, o que explica o considerado fracasso da medida. A venda de drogas na região continua a ocorrer, quem quis se internar não achou vaga no serviço público e boa parte não deixou de consumir, traficar ou viver na rua. Simplesmente o contingente se dispersou pelos bairros da imediações, o que mais arranhou a imagem dos governantes junto à população. Uma solução mesmo que mediana para o problema continua longe. De concreta mesmo, uma evidência: a medida foi tomada agora e desse modo apenas por conta das eleições para a Prefeitura de São Paulo, porque três partidos estavam um com medo de o outro fazer algo antes para ficar bem na fita com o eleitorado.


*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Os espertalhões da fé


TEMPLOS ELETRÔNICOS

Por Luiz Cláudio Cunha em 10/01/2012 na edição 676
Reproduzido do Sul21, 9/1/2012, título original “Os vendilhões dos templos eletrônicos em tempos de espertalhões da fé”

Incapaz de vender a alma ao diabo, a Rede Bandeirantes acaba de revender seu santo horário da noite para o pastor R.R. Soares, o líder da Igreja Internacional da Graça de Deus. O seu Show da Fé de 20 minutos, que começava religiosamente às 21h, agora vai durar uma hora inteira, a partir das 20h30. Não se sabe ainda quanto custou esse novo e triplicado milagre, mas pelo contrato antigo o bom pastor já pagava R$ 5 milhões mensais à Band. O vil metal falou mais alto para a TV de Johnny Saad, que anunciava a devolução do horário nobre da noite a seriados consagrados, como o 24 Horas, para concorrer com as novelas da Globo e as séries do SBT, todas com melhor audiência.

A novidade escangalhou os planos do argentino Diego Guebel, que assumiu a direção artística da Band em outubro passado com a promessa de recuperar o espaço nobre e caro da noite para atrações mais mundanas do que a prosopopeia de Soares. A bíblica derrota de Guebel na Band é apenas outro indício da onda avassaladora do dinheiro que afoga a TV brasileira deste Brasil cínico que finge ser laico e imune à força econômica da religião e seus falsos profetas. Os canais de rádio e TV são concessões públicas, supostamente alheias aos credos e seitas religiosas que transformaram estúdios, igrejas, templos e estádios em púlpitos eletrônicos cada vez mais invasivos e escancarados. Na íntegra:

Os espertalhões da fé


domingo, 8 de janeiro de 2012

Flávio Gikovate

A separação entre Amor e Sexo (A fragilidade do tesão) from cpfl cultura on Vimeo.

Dossiê inédito revela abusos rumo à Copa do Mundo

A Pública teve acesso ao relatório feito por organizações populares das 12 cidades-sedes da Copa – e traz o documento para seus leitores. Ele diz que o povo e os seus direitos estão ficando de fora.

Saiu na PÚBLICA - AGÊNCIA DE REPORTAGEM E JORNALISMO INVESTIGATIVO

Por Andrea Dip

O clipe que propagandeia a Copa do Mundo de 2014, que será no Brasil, mostra uma mesa de reuniões de um escritório em Nova York. Um grito de gol ecoa de um lugar longinquo e um americano engravatado diz (em inglês): “Você ouviu isso?”.

O vídeo segue mostrando as nossas belezas naturais como as lindas praias do Rio de Janeiro e as cataratas de Foz de Iguaçu. O locutor termina: “O Brasil está te chamando. Celebre a vida aqui”.

Aqui no Brasil, porém, o clamor das ruas parece mais protesto do que comemoração. Apaixonados por futebol, os torcedores dizem ter sua cidadania ameaçada por acordos de gabinete e seus direitos roubados pelas exigências da FIFA e pelas obras faraônicas que rasgam as cidades.

É o que se lê no dossiê Mega-eventos e violações de Direitos Humanos no Brasil”, preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas, e lançado nesta segunda-feira (12) de forma simultânea pela Pública e em atos de Comitês Populares por todo o país.

No Rio de Janeiro, haverá uma concentração em frente à Prefeitura às 10h30; em Belo Horizonte haverá uma marcha que se concentrará na Praça 7 às 14h; em Curitiba, uma marcha sairá às 10h rumo à Prefeitura de São José dos Pinhais. Em Natal haverá uma audiência pública; em São Paulo e em Porto Alegre, o documento será entregue às devidas prefeituras, enquanto em Brasília o comitê regional irá buscar o governo federal.

Acompanhamento das obras. Na íntegra:

Dossiê inédito revela abusos rumo à Copa do Mundo

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