Criei a expectativa em quatro pesquisadores europeus de que eles serão convidados para falar em Salvador durante as comemorações do bicentenário da imprensa na Bahia. A data maior – 14 de maio – cairá num sábado, quiçá ensolarado e fresco. Nesse dia, em 1811, o empresário de origem portuguesa Manuel Antonio da Silva Serva estreou o seu Idade d'Ouro do Brazil, o primeiro jornal impresso na então província da Bahia. É, sem dúvida, o fato maior daqueles dias em que ele inaugurou a indústria gráfica privada no Brasil.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Os convidados para a festa dos 200 anos da Imprensa na Bahia
Criei a expectativa em quatro pesquisadores europeus de que eles serão convidados para falar em Salvador durante as comemorações do bicentenário da imprensa na Bahia. A data maior – 14 de maio – cairá num sábado, quiçá ensolarado e fresco. Nesse dia, em 1811, o empresário de origem portuguesa Manuel Antonio da Silva Serva estreou o seu Idade d'Ouro do Brazil, o primeiro jornal impresso na então província da Bahia. É, sem dúvida, o fato maior daqueles dias em que ele inaugurou a indústria gráfica privada no Brasil.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Faltou Michael na Pop Life
Havia, no início de outubro, anúncios nos jornais londrinos convidando para a exposição Pop Life na Tate Gallery. Fomos conferir. O ingresso custa 12 libras e meia. Mostra trabalhos do artista norte-americano Andy Warhol e daqueles que, como ele, adotam o princípio de que “uma boa arte é um bom negócio”. Abriu no dia 1º de outubro e permanecerá até janeiro do próximo ano. Ocupa metade do 4º andar da Tate. Foi ali que vimos, ela na frente, ele a seguindo, o casal Bruna Lombardi e Carlos Alberto Ricelli. O casal e a Pop Life combinavam bem!
Há três salas em que menores de 18 anos não podem entrar. São até bem comportadas apesar dos closes das partes íntimas da artista pornô italiana Cicciolina. Os quadros de Warhol pintados com pó de diamante e expostos sob luz especial tocaram-me muito mais pelo inusitado que são.
Senti falta de uma sala especial dedicada a Michael Jackson porque ele, apesar de cantor, fez de sua pele e do resto do corpo um objeto de intervenção artística de repercussão surpreendente. Afinal, o que mudou para Michael quando he changes himself de negro para branco?
O British Museum abriu em outubro mais uma mostra temporária, em que exibe, além dos objetos e documentos, a sua extraordinária habilidade museológica, promovendo o equilibrado balanço da estética com o didático. A visita ao monumental museu é livre, porém as mostras temporárias, não. Para ver Moctezuma: astec roler, o museu cobra 12 libras (adulto).
Moctezuma é patrocinada pela ArcelorMittal, empresa petrolífera inglesa que negocia com os mexicanos. Sendo assim, o México enviou para Londres o que possui de mais precioso no seu acervo histórico sobre o imperador asteca, bem como sobre o colonizador espanhol Hernán Cortez, com quem Montezuma (aqui com n, como grafamos em português) tentou negociar, porém saiu derrotado e morto.
A extraordinária exposição ocupa o espaço que outrora era o grande salão de leitura da British Library, instituição que ganhou sede nova há alguns anos. Moctezuma, além de mostrar grandes esculturas pré-colombianas que adornavam a cidade de Tenochititlan, exibe também a iconografia espanhola sobre o período (séculos XV e XVI).
O British Museum trata o tema com elegância e bom gosto, porém é quase certo que a Espanha, por causa da esperteza rude e da violência de Cortez, volte a figurar na história como um dos colonizadores mais cruéis. Quiçá, na falta de outra justificativa, tudo seja culpa do ar salitroso do Mediterrâneo.
Londres, meus amigos, é cultura, entretenimento, muito verde e boa comida.
Venham para cá vocês também!
* Luís Guilherme Pontes Tavares é Jornalista, produtor editorial e professor universitário. Este texto foi escrito em 11 de outubro, no trajeto Londres-Paris feito no Eurostar que partiu da capital inglesa às 9h45. Teria sido publicado aqui desde 23 de outubro, quando o autor o remeteu da cidade do Porto, porém não foi possível abrir o arquivo. Enfim, eis, redigitado, o segundo texto que Luis Guilherme escreveu durante a recente viagem à Europa.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Mais um jornal gratuito
Sentinela - Luís Guilherme Pontes Tavares*
Desde domingo, 11 de outubro, que o London Evening Standart, vespertino londrino, passou a ser distribuído de graça. É “o primeiro dos jornais históricos ingleses a transformar-se num gratuito”, registrou o jornal português Público na sua edição de 03 de outubro. E acrescentou que a tiragem mais que duplicaria, de 250 mil para 600 mil exemplares diários.
O fenômeno explosivo da multiplicação de jornais de graça no mundo já nos acomete há algum tempo, toda sexta-feira, com a publicação regular do Metrópole, do empresário Mário Kertész. Nesse caso, a tiragem confessada é de 80 mil exemplares, superior, portanto, à tiragem dos demais jornais de Salvador.
O que importa nos dois casos – do London Evening e do Metrópole – é a tiragem que seduz a publicidade. O passo dado pelo jornal inglês, todavia, é audacioso demais, pois entra num campo de disputa em que outro veículo da mesma empresa – o Lite – já tem leitores cativos.
O próprio Evening explicou que a decisão acontece num instante em que o magnata naturalizado norte-americano Rupert Murdoch, dono da multinacional News Corporation, não mais concorre no espaço dos jornais gratuitos de Londres e tem experimentado prejuízos com o Wall Street Journal, de Nova Iorque, e com a expansão da presença da sua empresa na internet.
O fenômeno mundial do crescimento da oferta de jornais de graça – free newspapers – é surpreendente porque acontece quando as circunstâncias não autorizariam tal situação. De um lado, a consciência ecológica torna-se cada vez mais aguda no mundo inteiro; de outro, multiplicam-se os sites que oferecem, em tempo real, notícias de todos os lugares.
Fica a impressão de que o fim do caminho dos jornais gratuitos é um precipício por onde cairão o jornalismo e a liberdade de imprensa. É o que vejo quando embarco no metrô de Londres pela manhã. Há jornais desarrumados e espalhados nos vagões... É uma apocalíptica visão de que o que foi importante, agora é tão-somente lixo!
Paris, 12.10.2009.
*Luís Guilherme Pontes Tavares é jornalista, produtor editorial e colunista do Sentinelas da Liberdade – artigo é exclusivo do Sentinelas.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Imprensa negra na Bahia
O autor, agora professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB – em Cachoeira, encerra o livro com estas recomendações: “Necessitamos entender melhor as relações nacionais e internacionais entre grupos de negros; desenvolver pesquisas comparativas entre os países da diáspora negra nas Américas; procurar de descobrir as relações entre os movimentos negros brasileiros e os norte-americanos na primeira metade do século XX para entender as possíveis influências das experiências das associações de homens de cor nas lutas pelos direitos civis dos negros norte-americanos na segunda metade do século XX”.
O professor Liberac conclui, após as considerações acima, com a seguinte reflexão: “Talvez possamos responder também o porquê de não conseguirmos unificar os movimentos negros na diáspora, em defesa dos negros cubanos que vivem os efeitos sociais das lutas políticas. Enfim, acredito que o entendimento de como se deram os processos históricos envolvendo indivíduos pertencentes a um conjunto de comunidades negras da diáspora africana vai nos ajudar a organizar uma agenda comum contra a descriminação racial nas Américas”.
O livro do professor Liberac foi sugerido pela historiadora Wlamyra Alburquerque, autora de O jogo da dissimulação (São Paulo: Cia. Das Letras, 2009) devido o interesse que demonstramos a respeito da imprensa negra, em especial da imprensa negra na Bahia. Esse interesse tem relação com o nosso compromisso com o estudo da história da imprensa baiana, que vejo aumentar desde 1988. O livro do professor Liberac examina alguns títulos de periódicos da imprensa negra paulista da primeira metade do século XX.
Sobre a imprensa negra baiana, por sua vez, desconhece-se qualquer trabalho a respeito. Sequer há um trabalho famoso sobre a imprensa abolicionista baiana. De modo que enxergo a profunda pobreza bibliográfica sobre o tema, e, porque a diminui, louve-se o esforço do Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia – Nehib –, sobretudo pela Coleção Cipriano Barata, iniciada em 2005, de natureza interinstitucional e dedicada a estudos sobre a imprensa baiana, cuja logomarca já figura em seis volumes.1
A propósito da imprensa negra na Bahia há, em gestação, a montagem de evento que será realizado em 2010, como parte da programação dos 80 anos da Associação Bahiana de Imprensa – ABI –. Além do professor Liberac, serão convidados o professor Sílvio Roberto Oliveira, da Uneb, cujos estudos sobre o poeta e jornalista Luiz Gama (1830-1882) tornam mais claras as contribuições desse baiano às letras nacionais; o empresário André Nascimento e os jornalistas Ana Alakija e Luis Augusto Santos (L.A.), que estiveram juntos na condução e realização do jornal Afro-Brasil, que circulou na década de 1980 em Salvador; a professora Ana Célia Silva, da Uneb, que estudou e continua estudando o preconceito entranhado nos livros didáticos brasileiros; o professor Jayme Sodré, colaborador de A Tarde e dedicado às pesquisas sobre a cultura afro-brasileira, dentre outros. Será sentida a ausência de Jonathas Nascimento, morto recentemente, cujo depoimento sobre o Boletim do MNU (Movimento Negro Unificado) seria valioso e, portanto, indispensável.
No primeiro semestre deste ano, no Centro Universitário da Bahia-FIB/Estácio, a imprensa negra da Bahia foi o tema da disciplina Tópicos Especiais em Jornalismo e a oportunidade se constituiu em ensaio do que poderá ser o evento do próximo ano na ABI. A iniciativa teve o duplo propósito de introduzir na turma a discussão sobre a imprensa negra e animá-la – e aos demais alunos concluintes – a eleger o tema como objeto do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.
* Luís Guilherme é Jornalista, produtor editorial e professor universitário. lulapt@svn.com.br
1 Apontamentos para a história da imprensa na Bahia (Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2005); A primeira gazeta da Bahia: Idade d'Ouro do Brazil, de Maria Beatriz Nizza da Silva (2. ed. Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembléia Legislativa do Estado da Bahia; Editora da Universidade Federal da Bahia, 2005); ARTHUR AREZIO DA FONSECA, de LUIS GUILHERME PONTES (Salvador: Egba, 2005); Anais da imprensa da Bahia, de João Nepomuceno Torres e Alfredo de Carvalho (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2006); Apontamentos para a história da imprensa da Bahia (2. ed. Salvador: Egba, 2007) e Memória da imprensa contemporânea da Bahia, organizado por Sérgio Mattos (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2008).
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Adeus, Fonte Nova
Sentinela - Luis Guilherme Pontes Tavares*
Se a indignação moveu alguma personalidade ou instituição baiana a se manifestar contra a demolição do Estádio Octavio Mangabeira (Fonte Nova), ela não foi estampada na capa dos jornais da Cidade do Salvador. A ratificação da decisão do governador Jaques Wagner de demoli-lo foi anunciada há alguns dias, logo após a inclusão da capital baiana entre as sedes dos jogos da Copa do Mundo de 2014. Reafirmou assim a decisão tomada em novembro de 2007, quando o desmoronamento de um degrau da arquibancada superior do estádio causou a morte de sete pessoas. A decisão governamental causa-me muito menos indignação do que o silêncio quase absoluto dos baianos a esse respeito.
Há anos que observo, sentido, o quanto de silêncio amordaça a muito de nós diante das perdas que assistimos na Cidade do Salvador. Lamentei, por exemplo, que a Churrascaria Alex, que foi o espaço familiar de tantos desde a minha infância da década de 1950, tenha desaparecido sem que houvesse a mínima manifestação de saudade. Foi assim também com a Primavera e os seus sorvetes Beijo Frio e Esquimó. Por outro lado, atravessei anos olhando o Forte de São Marcelo e o Hotel Stella Maris arruinados e me alivia agora que os dois, sobretudo o hotel, foram recuperados e estão funcionando a contento. Isso é um alento!
A demolição da Fonte Nova significa que, além do estádio, serão postos abaixo também o conjunto de piscinas do parque aquático e o Ginásio Antonio Balbino (Balbininho); significa, ademais, que deixará de existir a obra concebida pelo arquiteto baiano Diógenes Rebouças, cujo traço reflete as influências do movimento modernista brasileiro. Sobre isso, o decano dos arquitetos, o centenário Oscar Niemeyer, não escondeu a opinião de que a obra de Rebouças deveria ser preservada pelo que contém de inteligência e história.
Do outro lado do Atlântico, ali na Espanha mediterrânea, em Barcelona, há uns tantos imóveis de Gaudi que são venerados pelos nacionais e pelos estrangeiros. Quem há de propor e depois aplaudir, por exemplo, a demolição do Guggenheim de Nova Iorque desenhado por Frank Lloyd Wright? Duvido que os cariocas admitam de bom grado que as casas criadas pelo arquiteto (baiano) José Zanini Caldas deixem de embelezar mais ainda as encostas de São Conrado e da Barra da Tijuca. O respeito, a admiração, o reconhecimento serão fundamentais para que as obras que Santiago Calatrava edifica hoje na Espanha e no mundo possam ser mantidas e admiradas nos próximos séculos. Por que que nós baianos não nos indignamos com aquilo que estamos perdendo???
Temeria – se não enxergasse as posturas democratas do governador Jaques Wagner – que a demolição da Fonte Nova contivesse tão-somente o propósito de simbolizar um ato de afirmação de autoridade. Cometido esse, outros viriam e, passivos, assistiríamos uma sequência de obras esdrúxulas e milionárias tais como a demolição do Elevador Lacerda e a construção, no local, de novíssimo elevador panorâmico de cristal fumê bordô e assim por diante.
Por que demolir a Fonte Nova se o mais apropriada poderia ser a construção de um novo estádio num ponto de interseção da capital como os municípios vizinhos? Há mais de 30 anos que a capital integra a rede de cidades da Região Metropolitana de Salvador. Jamais desenvolvemos a consciência coletiva com relação a essa situação que requereria progressos no sentido da solidariedade e do compartilhamento coletivos.
Na minha metropolitana opinião, a hora é de parar para pensar. Pensar por exemplo em quanto continuamos pobres e quanto as antigas gerações pagaram para edificar o belo projeto de Diógenes Rebouças. Derrubar a Fonte Nova é empobrecer mais ainda.
* Luís Guilherme Pontes Tavares é Jornalista, produtor editorial, professor universitário e colunista do Sentinelas da Liberdade.
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Imprensa negra na Bahia
Um dos méritos do livro As associações dos homens de cor e a imprensa negra paulista. Movimentos negros, cultura e política no Brasil republicano (1915 a 1945), do professor doutor Antônio Liberac Cardoso Simões Pires, é a fidelidade aos fatos. Trata-se de uma publicação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros do Tocantins – Neab – da Fundação Universidade Federal do Tocantis lançada em 2006. O professor Liberac, como ele é mais conhecido, informa, por exemplo, que os movimentos negros no Brasil continuam sem a relevância pretendida porque falta união entre os militantes.
O autor, agora professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB – em Cachoeira, encerra o livro com estas recomendações: “Necessitamos entender melhor as relações nacionais e internacionais entre grupos de negros; desenvolver pesquisas comparativas entre os países da diáspora negra nas Américas; procurar de descobrir as relações entre os movimentos negros brasileiros e os norte-americanos na primeira metade do século XX para entender as possíveis influências das experiências das associações de homens de cor nas lutas pelos direitos civis dos negros norte-americanos na segunda metade do século XX”.
O professor Liberac conclui, após as considerações acima, com a seguinte reflexão: “Talvez possamos responder também o porquê de não conseguirmos unificar os movimentos negros na diáspora, em defesa dos negros cubanos que vivem os efeitos sociais das lutas políticas. Enfim, acredito que o entendimento de como se deram os processos históricos envolvendo indivíduos pertencentes a um conjunto de comunidades negras da diáspora africana vai nos ajudar a organizar uma agenda comum contra a descriminação racial nas Américas”.
O livro do professor Liberac foi sugerido pela historiadora Wlamyra Alburquerque, autora de O jogo da dissimulação (São Paulo: Cia. Das Letras, 2009) devido o interesse que demonstramos a respeito da imprensa negra, em especial da imprensa negra na Bahia. Esse interesse tem relação com o nosso compromisso com o estudo da história da imprensa baiana, que vejo aumentar desde 1988. O livro do professor Liberac examina alguns títulos de periódicos da imprensa negra paulista da primeira metade do século XX.
Sobre a imprensa negra baiana, por sua vez, desconhece-se qualquer trabalho a respeito. Sequer há um trabalho famoso sobre a imprensa abolicionista baiana. De modo que enxergo a profunda pobreza bibliográfica sobre o tema, e, porque a diminui, louve-se o esforço do Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia – Nehib –, sobretudo pela Coleção Cipriano Barata, iniciada em 2005, de natureza interinstitucional e dedicada a estudos sobre a imprensa baiana, cuja logomarca já figura em seis volumes.1
A propósito da imprensa negra na Bahia há, em gestação, a montagem de evento que será realizado em 2010, como parte da programação dos 80 anos da Associação Bahiana de Imprensa – ABI –. Além do professor Liberac, serão convidados o professor Sílvio Roberto Oliveira, da Uneb, cujos estudos sobre o poeta e jornalista Luiz Gama (1830-1882) tornam mais claras as contribuições desse baiano às letras nacionais; o empresário André Nascimento e os jornalistas Ana Alakija e Luis Augusto Santos (L.A.), que estiveram juntos na condução e realização do jornal Afro-Brasil, que circulou na década de 1980 em Salvador; a professora Ana Célia Silva, da Uneb, que estudou e continua estudando o preconceito entranhado nos livros didáticos brasileiros; o professor Jayme Sodré, colaborador de A Tarde e dedicado às pesquisas sobre a cultura afro-brasileira, dentre outros. Será sentida a ausência de Jonathas Nascimento, morto recentemente, cujo depoimento sobre o Boletim do MNU (Movimento Negro Unificado) seria valioso e, portanto, indispensável.
No primeiro semestre deste ano, no Centro Universitário da Bahia-FIB/Estácio, a imprensa negra da Bahia foi o tema da disciplina Tópicos Especiais em Jornalismo e a oportunidade se constituiu em ensaio do que poderá ser o evento do próximo ano na ABI. A iniciativa teve o duplo propósito de introduzir na turma a discussão sobre a imprensa negra e animá-la – e aos demais alunos concluintes – a eleger o tema como objeto do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.
O desafio está lançado.
1 Apontamentos para a história da imprensa na Bahia (Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2005); A primeira gazeta da Bahia: Idade d'Ouro do Brazil, de Maria Beatriz Nizza da Silva (2. ed. Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembléia Legislativa do Estado da Bahia; Editora da Universidade Federal da Bahia, 2005); ARTHUR AREZIO DA FONSECA, de LUIS GUILHERME PONTES (Salvador: Egba, 2005); Anais da imprensa da Bahia, de João Nepomuceno Torres e Alfredo de Carvalho (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2006); Apontamentos para a história da imprensa da Bahia (2. ed. Salvador: Egba, 2007) e Memória da imprensa contemporânea da Bahia, organizado por Sérgio Mattos (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2008).
sábado, 29 de agosto de 2009
Berluconi e Hunter Thompson em Fortaleza
Afastem-se de mim a xenofobia e a postura severa contra a prostituição para que não pareça rude preconceito o mal-estar que me causou o desfile ruidoso e descarado de homens (?) italianos com jovens putas brasileiras, tão ruidosas e descaradas quanto eles, pela Rua Monsenhor Tabosa, em Fortaleza. Imaginei como seria tratado, por exemplo, em Roma, o transito diário de homens brasileiros e putinhas italianas. A cena cearense, pela regularidade com que ocorre, parece não constranger mais. Apesar dos pesares berlusconianos recentes, suponho que os italianos não tolerariam por muito tempo que os brasileiros andassem por Roma, Veneza ou Florença como se estivessem nos corredores de um prostíbulo qualquer.
A Fortaleza que revi neste agosto de 2009 é distinta daquela que visitei pela primeira vez há mais de 20 anos. O progresso tratou de substituir, no Monsenhor Tabosa, as lojas de artesanato de extraordinária qualidade pelas lojas de artigos semi-industriais, cuja arte e acabamento são, no mínimo, descuidados. A economia, sem dúvida, foi adiante, porém a cultura retroagiu. E isso é lamentável, tanto quanto o desfile de italianos e putas brasileiras naquela rua que, no meu modo de ver, deu para trás.
Fortaleza foi sede, entre 19 e 21 de agosto, do VII Encontro Nacional de História da Mídia, evento promovido pela Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia – Alcar – e que atraiu participantes de todo o Brasil que ouviram palestras e apresentaram trabalhos nos vários grupos de trabalhos temáticos que foram formados a partir de 2003. A programação foi cumprida nas instalações – e que instalações! - da Universidade de Fortaleza – Unifor (www.unifor.br) –, empreendimento do Grupo Edson Queiroz localizado em ampla área à margem da Avenida Washington Soares, que é uma das saídas (CE-040) da cidade.
Lamentei que a Fortaleza que visitei não seja exatamente a cidade que nos chega pelas emissoras de televisão. Na telinha tudo parece mais bonito e melhor arrumado. Penei um bocado com o sistema de transporte coletivo, apesar da garantia de que com uma única passagem o usuário possa prosseguir o percurso quando ele faz baldeação no Terminal de Papicu. Utilizei, no primeiro dia, o Grande Circular 2 e a viagem, desde a Praia de Iracema até a Unifor (via Terminal de Papicu), levou mais de duas horas. A decisão de retornar de táxi foi infeliz: paguei R$ 30,00 pela corrida, a mesma que outros colegas pagaram a metade desse valor.
A participação baiana no VII Encontro foi, sobretudo, dos professores da Faculdade Social da Bahia – FSBa – em cujo curso de jornalismo estão concentrados alguns dos principais estudiosos da história da mídia baiana. Estive em dois grupos de Trabalho – História da Mídia Impressa e História da Mídia Alternativa. Apresentei trabalho sobre a passagem de Hamilton Almeida Filho – Haf – pela Tribuna da Bahia em 1972-3. Porém, o que me encantou foi escutar a apresentação da jornalista Luciene Mendes Lacerda, formada pela Unifor, sobre o tema “O jornalismo gonzo: um possível diálogo entre Hunter Thompson e Arthur Veríssimo”.
Para concluir: se me constrangera encontrar Silvio Berlusconi em Fortaleza, por outro lado me encantou ter encontrado Hunter Thompson por lá.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Imprensa alternativa com grife
Pode surpreender que a revista Poder, de Joyce Pascowitch, possa ser, na atualidade, classificada como um produto da imprensa alternativa. Atesta isso um ensaio que a dona da Glamurana Editora publicou sobre o político Luiz Ignácio Lula das Silva na edição de maio. A grande imprensa brasileira jamais publicou nada igual. Afora a Fórum, a Piauí, a Brasileiros e a Caros Amigos, de identidades mais evidente, surpreende também classificar a Rolling Stone, da Editora Abril, como veículo de jornalismo alternativo. É só ler e constatar.
O conceito “imprensa alternativa” identifica, sobretudo, os veículos que se opuseram ao regime militar brasileiro que regeu os destinos do país entre 1964 e 1985. O conceito, no entanto, pode ser aplicado aos produtos jornalísticos de qualquer tempo, antes e depois da ditadura militar. A imprensa alternativa dos dias atuais distingue-se daquela outra porque não está sob censura e não é patrocinada por grupos políticos e oponentes explícitos ao governo atual. Simplesmente ela é assim classificada porque utiliza abordagens distintas das que predominam na grande imprensa, oferecendo assim um ponto de vista alternativo ao coro geral.
O ressurgimento da imprensa alternativa no Brasil tem sua explicação e resulta da ampliação da sombra do Estado sobre os grandes veículos. A análise desse problema não é o objetivo deste breve comentário, mas não se deve desconhecer dois recentes episódios tomados como remoção de lixo discricionário: a revogação da Lei de Imprensa e o fim da reserva de mercado para o jornalista diplomado. São, também, circunstâncias que explicam a volta e a expansão de veículos de informação que podem ser classificados de imprensa alternativa.
É provável que o professor Bernardo Kuncinski esteja atento a tudo isto, ele que é autor do livro fundamental sobre a imprensa alternativa – Jornalistas e revolucionários (2ª edição revista e ampliada. São Paulo: Edusp, 2006). A bibliografia sobre a atuação da imprensa no período da ditadura militar não é pequena e muito há, ainda inédito, nos armários das universidades: trabalhos de conclusão de curso (documentários, monografias e afins), dissertações e teses.
A propósito da bibliografia especializada no tema em apreço, registre-se o livro Recortes da mídia alternartiva, organizado pela professora Karina Janz Woitowicz, publicado pela editora da Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná. O livro reúne 22 artigos apresentados entre 2005 e 2008 no Grupo de Trabalho de Mídia Alternativa reunidos nos encontros nacionais organizados pela Rede Alfredo de Carvalho. É improvável que a obra chegue às livrarias do Norte e Nordeste, de modo que é recomendável o contato direto com a editora: editora@uepg.br ou (42) 3220 3744-45.
A professora Karina Woitowicz, ora realizando estudos no Chile, foi a criadora do GT de Mídia Alternativa e o conduziu com o brilho que se reflete na edição de Recortes. Os 22 artigos de pesquisadores de vários estados brasileiros foram agrupados em quatro capítulos: “Comunicação alternativa em tempos de repressão política”, “Luta pela democratização da palavra”, “Minorias sociais na mídia alternativa” e “Mídia alternativa: trajetória, conceitos e experiências”. A organizadora é autora de um dos artigos do primeiro capítulo: “Lutas e vozes das mulheres na imprensa alternativa: a presença do feminismo nos jornais Opinião, Movimento e Repórter na década de 1970 no Brasil”.
Enfim, a imprensa alternativa é um fenômeno de todos os tempos e se avulta sempre que a liberdade está ameaçada.
* Jornalista, produtor editorial e professor universitário. e-mail: lulapt@svn.com.br
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Os sebos oficiais
Em decorrência de futura lei, a Bahia terá sebos patrocinados pelo Governo do Estado. A Assembleia Legislativa aprovou no dia 16 de junho, em segunda discussão, o Projeto de Lei 13.722, do deputado Zé Neto, do PT, que tramitava desde 2003. O projeto aprovado segue nos próximos dias para exame e deliberação do governador. Poderá ser sancionado ou não, mas os passos dados até aqui revelam a sensibilidade que o Poder Legislativo vem demonstrando com relação ao livro e à leitura na Bahia.
O projeto do deputado Zé Neto poderá criar o Programa de Incentivo à Criação de Sebos de Livros Literários e Didáticos em toda a Bahia. Isso significa que o Governo do Estado poderá instalar pontos de venda de livros usados em todo o território baiano, ação que demandará, certamente, o diálogo entre secretarias, sobretudo entre as pastas de Educação e Cultura. Pressente-se, por exemplo, a possibilidade de utilização da rede da Cesta do Povo para viabilizar a comercialização dos alfarrábios literários e didáticos.
Há outras duas propostas do deputado Zé Neto afins com a citada acima: o Projeto de Lei 13.822, de 30 de março de 2004, que “dispõe sobre a obrigatoriedade de manutenção de exemplares de livros de história da África e obras com temas alusivos às religiões afro-brasileiras nos acervos das bibliotecas públicas”, ainda em tramitação; e o Projeto de Lei 15.341, de 23 de março de 2006, que “institui a Feira do Livro, do Disco, Teatro e do Vídeo no âmbito do Estado da Bahia”, que está agora em fase de arquivamento.
No mesmo dia 16 em que o Projeto 13.722 do deputado Zé Neto foi aprovado em plenário, o caderno do Diário Oficial dedicado ao Legislativo publicava na página 6 o Projeto de Lei 18.052, de 9 de junho do corrente, de autoria do deputado Pedro Alcântara, do PR, que “dispõe sobre a criação de espaços para leitura em aeroportos, terminais rodoviários e shoppings centers, contendo preferencialmente exemplares de autores baianos, nos municípios com mais de 150 mil habitantes no Estado da Bahia e dá outras providências”.
O legislador propõe que o acesso aos espaços de leitura seja gratuito e que os acervos tenham no mínimo “200 livros, jornais, revistas e livretos de cordel”; e que “o ambiente deverá ser climatizado, bem iluminado, contendo todo conforto necessário à boa leitura”. O deputado Pedro Alcântara propõe ademais que “a instalação, administração e conservação ficará a cargo de cada empresa”, ou seja, aeroportos, terminais rodoviários e shoppings centers terão que bancar as despesas.
São dignas de reconhecimento as iniciativas legislativas dos deputados Zé Neto e Pedro Alcântara, sobretudo para quem mantém o entendimento de que o processo educacional dos brasileiros não prescinde do livro, portanto que é equivocado pensar que seja possível pular etapas civilizatórias e auferir sem problemas os benefícios das novas tecnologias. O livro, enfim, está no foco dos parlamentares baianos.
* Jornalista, produtor editorial e professor universitário.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Adeus, Fonte Nova
Se a indignação moveu alguma personalidade ou instituição baiana a se manifestar contra a demolição do Estádio Octavio Mangabeira (Fonte Nova), ela não foi estampada na capa dos jornais da Cidade do Salvador. A ratificação da decisão do governador Jaques Wagner de demoli-lo foi anunciada há alguns dias, logo após a inclusão da capital baiana entre as sedes dos jogos da Copa do Mundo de 2014. Reafirmou assim a decisão tomada em novembro de 2007, quando o desmoronamento de um degrau da arquibancada superior do estádio causou a morte de sete pessoas. A decisão governamental causa-me muito menos indignação do que o silêncio quase absoluto dos baianos a esse respeito.
Há anos que observo, sentido, o quanto de silêncio amordaça a muito de nós diante das perdas que assistimos na Cidade do Salvador. Lamentei, por exemplo, que a Churrascaria Alex, que foi o espaço familiar de tantos desde a minha infância da década de 1950, tenha desaparecido sem que houvesse a mínima manifestação de saudade. Foi assim também com a Primavera e os seus sorvetes Beijo Frio e Esquimó. Por outro lado, atravessei anos olhando o Forte de São Marcelo e o Hotel Stella Maris arruinados e me alivia agora que os dois, sobretudo o hotel, foram recuperados e estão funcionando a contento. Isso é um alento!
A demolição da Fonte Nova significa que, além do estádio, serão postos abaixo também o conjunto de piscinas do parque aquático e o Ginásio Antonio Balbino (Balbininho); significa, ademais, que deixará de existir a obra concebida pelo arquiteto baiano Diógenes Rebouças, cujo traço reflete as influências do movimento modernista brasileiro. Sobre isso, o decano dos arquitetos, o centenário Oscar Niemeyer, não escondeu a opinião de que a obra de Rebouças deveria ser preservada pelo que contém de inteligência e história.
Do outro lado do Atlântico, ali na Espanha mediterrânea, em Barcelona, há uns tantos imóveis de Gaudi que são venerados pelos nacionais e pelos estrangeiros. Quem há de propor e depois aplaudir, por exemplo, a demolição do Guggenheim de Nova Iorque desenhado por Frank Lloyd Wright? Duvido que os cariocas admitam de bom grado que as casas criadas pelo arquiteto (baiano) José Zanini Caldas deixem de embelezar mais ainda as encostas de São Conrado e da Barra da Tijuca. O respeito, a admiração, o reconhecimento serão fundamentais para que as obras que Santiago Calatrava edifica hoje na Espanha e no mundo possam ser mantidas e admiradas nos próximos séculos. Por que que nós baianos não nos indignamos com aquilo que estamos perdendo???
Temeria – se não enxergasse as posturas democratas do governador Jaques Wagner – que a demolição da Fonte Nova contivesse tão-somente o propósito de simbolizar um ato de afirmação de autoridade. Cometido esse, outros viriam e, passivos, assistiríamos uma sequência de obras esdrúxulas e milionárias tais como a demolição do Elevador Lacerda e a construção, no local, de novíssimo elevador panorâmico de cristal fumê bordô e assim por diante.
Por que demolir a Fonte Nova se o mais apropriada poderia ser a construção de um novo estádio num ponto de interseção da capital como os municípios vizinhos? Há mais de 30 anos que a capital integra a rede de cidades da Região Metropolitana de Salvador. Jamais desenvolvemos a consciência coletiva com relação a essa situação que requereria progressos no sentido da solidariedade e do compartilhamento coletivos.
Na minha metropolitana opinião, a hora é de parar para pensar. Pensar por exemplo em quanto continuamos pobres e quanto as antigas gerações pagaram para edificar o belo projeto de Diógenes Rebouças. Derrubar a Fonte Nova é empobrecer mais ainda.
* Jornalista, produtor editorial e professor universitário.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Uma biblioteca nos últimos dias
Sentinela - Luís Guilherme*
Há em Salvador uma preciosa biblioteca que está em adiantada deterioração. Possui cerca de 10 mil livros e periódicos do século XIX e da primeira metade do século XX. Ocupa o Salão Ruy Barbosa do amplo sobrado da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia, localizado no centro de Salvador. A secular Associação experimentou grande importância até o meado do século XX. Nela reuniram-se políticos e empresários e a história dos encontros em seus salões reclama urgente pesquisa, antes que também arruínem os antigos documentos e os relatórios como está acontecendo com os livros da sua biblioteca.
Desde 2000, quando me inteirei da situação, tenho manifestado meu desagrado. De modo que encaminhei, naquele ano, correspondência para a Fundação Gregório de Mattos, órgão da Prefeitura Municipal de Salvador que atua na área cultural, apresentando o problema e sugerindo que a biblioteca fosse salva através de permuta por livros mais novos, de modo que o acervo valioso de livros e periódicos datados a partir de 1811 encontrasse destino mais apropriado. Remeti cópia dessa correspondência para entidades e pessoas, com o propósito de obter a solidariedade na luta que inaugurara. Enviei-a para, entre outros, o bibliófilo José Mindlin, o jornalista Jorge Calmon, já falecido, e para a Biblioteca Nacional de Lisboa.
Voltei ao assunto em maio passado durante o II Seminário Nacional Livro e História Editorial – II Lihed –, realizado no Rio de Janeiro e em Niterói, sob coordenação geral do professor doutor Anibal Bragança, da Universidade Federal Fluminense – UFF –, e com a presença de pesquisadores de vários estados brasileiros e conferencistas internacionais, sobretudo franceses, a exemplo do professor Roger Chartier. Denunciei mais uma vez que os livros da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia, que certamente não são mais os 10 mil de nove anos atrás, estão em situação mais lamentável do que quando os vi pela primeira vez.
Fiz a denúncia na mesa-redonda CL 3: Livro e leituras nas províncias I, do Colóquio: 200 anos de livros brasileiros, quando expunha, com a professora Flávia Garcia Rosa, diretora da Editora da Universidade Federal da Bahia – Edufba – o trabalho “Apontamentos para a história do livro na Bahia”. É provável que o tema e a denúncia tenham impressionado aquela platéia qualificada, porém não posso reclamar a ação de nenhum deles, uma vez que as autoridades que deveriam se mover para solucionar o problema nada fazem a respeito.
A título de ilustração – ou de provocação aos amantes dos impressos – dou-lhe conta que a biblioteca possui, por exemplo, uma coleção encadernada do periódico A Guerra, publicado em 1915 em Salvador pela C. Tourinho & C.; uma coleção encadernada de O Antonio Maria, periódico publicado em Lisboa e ilustrado por Raphael Bordallo Pinheiro; uma coleção de O Malho, periódico brasileiro do início do século XX, oferecida à Associação pelo jornalista Karlos Weber, que teve expressiva atuação na vida cultural de Salvador. Há ali um exemplar de Lama & sangue, de Cosme de Farias, publicado em 1926 e no qual o autor denuncia o tratamento que o então governador Francisco Marques de Góes Calmon lhe dedicou. Enfim, há na biblioteca livros que foram impressos na Impressão Régia de Lisboa e há livros, ilustrados, publicados na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos dos oitocentos.
O acervo valioso e agredido da biblioteca da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia reclama cuidado urgente. Há, certamente, livros raros entre os milhares de exemplares brasileiros, portugueses, franceses, norte-americanos e ingleses. Há livros que foram impressos há quase 200 anos na Impressão Régia de Lisboa... Se o choque que senti em 2000 foi suficiente para que o recorde nove anos depois, constato que a má impressão que disso resultado cresce a cada dia porque nosso grito não ecoa e a cada novo segundo cresce no mundo as desatenções para com o livro, este velho amigo da civilização.
* Jornalista, produtor editorial e professor universitário. lulapt@svn.com.br
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A ficção brasileira está ameaçada
Sentinela – Luis Guilherme Pontes Tavares*
Mais claro impossível. Apesar da editora da Nova Fronteira, Cristiane Costa, não ter dito com estas palavras, o fato é que ela informou que os autores de literatura brasileira têm poucas chances de publicar numa das grandes editoras que foram nos últimos anos adquiridas por estrangeiros, sobretudo espanhóis e portugueses. Costa proferia a palestra “Se vende não é bom, se é bom não vende”, no 2º Seminário Nacional Livro e História Editorial, quando revelou que tais editoras estão interessadas nos megasellers, situação que alcançam os títulos que estão vendendo horrores em vários países simultaneamente. É desafio apenas para o brasileiro Paulo Coelho... e olhe lá.
O evento foi realizado em Niterói, nos dias 14 e 15 de maio passados, no bloco 3 do campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense – UFF –, em Niterói. O 2º Seminário foi antecedido por dois outros eventos, realizados no Rio de Janeiro, nos dias 11, 12 e 13 de maio: o “Diálogo Brasil-França: livros e leituras, teorias e práticas”, no auditório da Fundação Biblioteca Nacional; e o “Colóquio internacional: arquivos, memória editorial e história da vida literária”, num dos auditórios da Academia Brasileira de Letras – ABL.
Reuniram pesquisadores do livro e da leitura de muitos estados brasileiros e contou com a ativa participação de experts nesses temas que vieram da França – Diana Cooper-Richet, Andre Vauchez, Jean Yves Mollier, Jean-François Botrel, Michel Melot, Frederic Barbier e Roger Chartier –, da Argentina – Gustavo Sorá – e de Portugal – Manuela Domingos –, muitos dos quais com livros publicados no Brasil. Chartier, por exemplo, é autor publicado por mais de uma editora no Brasil.
Lamentável, todavia, o que aconteceu na tarde de 14 de maio quando os economistas Fábio Sá Earp e Georges Kornis não concluíram a apresentação do trabalho “Em queda livre? Uma década do livro no Brasil”. Apresentariam a tese de que a indústria editorial brasileira, acompanhando tendência internacional, multiplicou o número de títulos publicados, porém diminuiu as tiragens médias, disso resultando prejuízo para o setor. Tentaram, porém houve problema com o computador, houve discussões acaloradas que impediram a exposição e, por fim, o tempo acabou sem que sequer a exposição alcançar o meio do caminho. Ficou para depois. Até porque o vazio foi preenchido por muitas interrogações.
Os eventos do Rio de Janeiro e de Niterói foram organizados pelo professor doutor Anibal Bragança, da UFF, que, no final, convocou a todos a participarem da próxima versão – o III Seminário Nacional Livro e História Editorial –, prevista para 2011. Para quem pensou que nos cinco dias de pré-seminário e do seminário de 2009 só houve palestras e apresentação de trabalhos, registre-se que também aconteceram as exposições “Francisco Alves, o rei do livro”, na ABL, e “Biblioteca das Moças – França, Portugal e Brasil. A construção da sensibilidade romântica”, na Biblioteca Central da UFF (campus Gragoatá), e os shows “Agnes Moço e grupo”, na ABL, e “Bia Bedran e grupo Palha de Milho”, no campus citado. Enfim, em 2011, quem viver verá o organizador superar-se mais uma vez. Parabéns!
*Luis Guilherme Pontes Tavares - Jornalista, professor e produtor editorial em Salvador.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Que desçam sobre nós as bênção de Gandhi
É preciso aprender a não baixar a cabeça. E,
se forçados a baixá-la, mostrar que apenas se toma
impulso para a investida, como fazem os touros.
Hélio Pólvora, A Tarde, 09.09.2007, p. 2
A pregação da não-violência feita pelo indiano Mahatma Gandhi o elevou a herói de seu país. São constrangedores os registros cinematográficos de soldados britânicos, a cavalo, surrando, com vara de madeira, o povo indiano. Gandhi pregou a corajosa e esperançosa resignação e o povo atravessou os maus dias até a independência da Índia. Gandhi entrou para a história da humanidade porque lutou contra a violência do colonizador sem utilizar a força quando enfrentava o desrespeito e a opressão. Acreditou, e venceu, com a sua proposta de paz. Isso foi no século passado, na década de 1940, e, antes que o século se encerrasse, a lição de Gandhi serviu de inspiração a Nelson Mandela para acabar com o apartheid na África do Sul e chegar à presidência desse país.
A partir deste ponto fica combinado que os indianos são os funcionários do quadro efetivo, e os outros são os ingleses. Vamos prosseguir, quiçá, sob as bençãos de Gandhi. É nosso desejo que a paz se instale. Que não seja necessário acomodar os outros no Paquistão.
É lamentável que em pleno século XXI, às vésperas de tantos problemas reais e insolúveis, o Estado brasileiro prossiga gastando de modo irrefletido o dinheiro extraído do seu povo pobre – inclua-se nele a classe média, cada vez mais empobrecida, porque é quem paga os impostos. A irresponsabilidade é intolerável. É ela que autoriza a superposição de ingleses sobre os indianos, como se fosse aceitável a admissão de inglês para desempenhar a função do indiano. É lamentável que tal ocorra sem que se leve em consideração o investimento que foi feito para preparar o indiano e que, surrupiada a função dele, se a entregue de mão beijada ao inglês.
A austeridade, minha gente, é dever dos brasileiros, não deve ser uma ação de faz-de-conta, mas um comportamento diário de quem se sabe devedor de milhões de não incluídos, estes sim credores de uma esbórnia de solidariedade que está tardando.
O Estado brasileiro continua adquirindo equipamentos e, por isto ou por aquilo, destinando-os à ferrugem. Nos últimos tempos testemunhamos que destino igual tem sido dado a pessoas, que, deixadas à margem e sem as atividades que realizavam com competência e cuidado, também enferrujam.
O Brasil, a Bahia, a Cidade do Salvador, tudo, enfim, nos pertence. É da nossa responsabilidade cuidar bem daquilo que será herdado mais adiante por outros brasileiros, por outros baianos, por outros soteropolitanos. A noção que cultivamos de um futuro melhor se assenta na certeza de que é no presente que o construímos. E de mãos dadas, inclusive, com os ingleses.
Paz! E vamos para frente.
*Luis Guilherme Pontes Tavares, jornalista.
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Niemeyer na Gameleira
Do oceanário, não se ouviu mais falar. Resta na mídia a notícia de que Oscar Niemeyer está criando o projeto arquitetônico do Teatro do Povo a pedido do presidente da Fundação Gregório de Matos, jornalista Antônio Lins, conforme a afirmação desta autoridade municipal da Cidade do Salvador no artigo “Sonhar é preciso” que A Tarde publicou na quinta-feira (16.04.2009) na página de opinião (p. 3). O Teatro do Povo, segundo uma ou outra nota de coluna, será construído na área hoje ocupada pelo estacionamento da Gameleira, no alto da Ladeira da Montanha.
A área em apreço é a mesma que sediaria a unidade baiana do Museu Guggenheim que a instituição norte-americana pretendeu edificar em parceria com a Prefeitura Municipal de Salvador. O prefeito era Antônio Imbassahy, que, por certo, pesou e mediu as consequências, inclusive a disputa visual que o novo equipamento estabeleceria com o Elevador Lacerda, um dos mais importantes ícones turísticos da cidade. O assunto seduziu o interesse da mídia na época e, assim como surgiu de repente, desapareceu na mesma velocidade.
O político e empresário Mário Kertész, âncora do programa “Jornal da Bahia” da Rádio Metrópole, afirma veementemente que o presidente da Fundação Gregório de Matos está construindo um factóide para chamar a atenção e que o escritório de Oscar Niemeyer não endossa a versão de que o arquiteto esteja projetando o Teatro do Povo de Salvador. Tampouco o radialista crê, conforme o mesmo Antônio Lins afiançou, que o regime do coronel Muammar Kadafi, presidente da Líbia, entraria numa parceria com a Prefeitura de Salvador e financiaria o projeto.
Temo que a Bahia ainda acabe pagando caro – quiçá na barra de um tribunal – pelo uso descarado do nome de Oscar Niemeyer, um homem de bem com a vida e cujo compromisso é nos legar sua obra e o bom nome que continua elevando neste século XXI de meu Deus.
Há um detalhe no artigo do presidente da Gregório de Matos que me intrigou, porque é leviano. Dizer que a capital baiana não tem palcos é desconhecer os muitos equipamentos quase ociosos que reclamam melhor aproveitamento urgentemente. Lembro por exemplo o Teatro do Iceia, os auditórios dos prédios do Centro Administrativo da Bahia, os velhos cinemas Pax e Jandaia e assim por diante. Considero injusto, ademais, afirmar que falta programação voltada para a gente pobre da cidade, quando há espetáculos dominicais a Cr$ 1,00 no Teatro Castro Alves. Virou moda atacar a área cultural do Governo do Estado... Isso deve doer, todavia o secretário e seus pares parecem cada vez mais equilibrados em suas funções.
Melhor seria se a nossa imprensa adotasse com mais frequência o gênero interpretativo e assim apurar mais os assuntos e explicá-los de modo claro e preciso. Nesse sentido, o melhor a fazer é entrevistar Oscar Niemeyer e Muammar Kadafi. A pauta está lançada.
*Luis Guilherme Pontes Tavares - Jornalista e produtor editorial.
segunda-feira, 6 de abril de 2009
O estilo gonzo no Brasil
Sentinela - Luis Guilherme Pontes Tavares*
Os novos sinais de fissura no frágil corpo da liberdade humana devem explicar a crescente, porém tardia, repercussão da vida e da obra do jornalista e escritor norte-americano Hunter S. Thompson, criador do gonzo journalism. Thompson desafiou a legislação do seu país no quanto pode com os seus textos e no uso desenfreado de drogas, bebidas, velocidade e armas. Marcado com o selo de bad boy, apesar disso o jornalista era tratado pelo seu editor da Rolling Stone, Jann Wenner, com o distinto qualificativo de Dr. Hunter Thompson.
O gonzo journalism é, segundo o jornalista André Felipe Pontes Czarnobai (TCC. Porto Alegre: UFRS, 2003) , “o filho bastardo do new journalim”, que, por sua vez, é o estilo que aproxima os recursos da literatura do jornalismo. No gonzo o jornalista é o personagem principal da reportagem e incorpora ao texto aspectos do cenário e da ação que o jornalista de modo geral não daria a menor importância. Thompson transformou sua obra jornalística em algo tão pessoal que esse estilo torto e bizarro ganhou a denominação de gonzo. E tanto mais gonzo se tornava quanto mais Hunter Thompson o temperava com drogas e bebidas alcóolicas.
A edição mais recuada de um livro de Hunter Thompson no Brasil deve-se à editora carioca Anima, que, em 1984, publicou Las Vegas na cabeça. Estampou na quarta capa a setença atribuída ao The New York Book Review, de que a obra era “o melhor livro da década das drogas”. Esse livro ganhou nova edição da Conrad, editora de São Paulo que tem publicado nos últimos anos a obra de Thompson, e seu título agora é Medo e delírio em Las Vegas, o mesmo que foi adotado pelo cineasta Terry Giliam para o filme de 1998, inspirado no livro, em que Johnny Depp contracena com Benicio del Toro.
Em 2007, a editora paulista Companhia das Letras publicou, na sua coleção Jornalismo Literário, a coletânea Reino do Medo – segredos abomináveis de um filho desventurado nos dias finais do século americano, que reúne textos de Hunter Thompson que contêm informações sobre si, de modo que a obra funciona como uma autobiografia. Acrescente-se a esse livro o recente filme, ainda sem legenda em português, Gonzo: the life and work of Dr. Hunter S. Thompson, cuja cópia está sendo vendida numa grande cadeia brasileira de livrarias pela bagatela de R$ 150,00.
Thompson nasceu em 1937, no estado do Kentucky, às vésperas, portanto, da II Guerra Mundial. Quando jovem, serviu à força aérea norte-americana, onde iniciou o jornalismo. De redação em redação, passou a condição de freelancer e colaborador regular da Rolling Stone. Seu modo invulgar de tratar os temas tornou a trajetória de Hunter Thompson extraordinária. Foi o caso, por exemplo, da pauta que recebeu para cobrir uma convenção dos Hell’s Angels, o polêmico grupo de motoqueiros dos Estados Unidos. Ele excedeu o previsto e só retornou à redação seis meses depois com material suficiente para publicar o livro Hell’s Angels – medo e delírio sobre duas rodas (São Paulo: Conrad, 2004).
O autor de Medo e delírio em Las Vegas viveu intensamente os seus dias e suas contradições. Amante das armas, era a favor da paz. Consumidor de drogas e bebidas alcoólicas, optou pela vida no campo, nas montanhas de Aspen. Desordeiro, pretendeu ser o delegado de Aspen, para o que fez campanha e quase chegou lá. Hunter S. Thompson, após cuidar da construção de um imenso monumento a si e ao gonzo journalism – uma grande torre no formato de uma adaga com a empunhadura em forma de figa com um polegar de cada lado –, ele, no início de 2005, se matou com um tiro de rifle na cozinha da própria casa. Estaria doente e, mais uma vez insubmisso, não se deixou levar pela morte anunciada. Em agosto do mesmo ano, suas cinzas foram espargidas por um canhão colocado no alto do monumento que ele ajudara a construir num vale de Aspen.
O estilo gonzo de Hunter Thompson, adotado no Brasil, por exemplo, em alguns textos da revista Trip, está espalhado além das fronteiras do jornalismo. Há qualquer coisa de gonzo no documentário baiano Dom Pepê, de Sérgio Siqueira, assim como há a moda gonzo, que ocupou oito páginas da revista Homem Vogue da primavera de 2008. Se duvidar, o estilo gonzo pode ser encontrado até mesmo no Palácio do Planalto.
* Jornalista e produtor editorial. Ele é meio-gonzo
segunda-feira, 30 de março de 2009
40 anos da morte de Marighella
Sentinela - Luís Guilherme*
No terceiro mês deste ano em que se completam os 40 anos do assassinato do político Carlos Marighella e os 30 anos do translado dos seus restos mortais de São Paulo para o Cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador, dois episódios afins ocorridos no período devem ser enaltecidos: a apresentação, na primeira quinzena de março, da peça O amargo Santo da Purificação. Uma visão alegórica e barroca da vida, paixão e morte do revolucionário Carlos Marighella pelo grupo gaúcho “Oi Nóis Aqui Traveiz” na Praça Municipal; e a entrevista da pesquisadora Clara Charf, viúva de Marighela, à revista Muito que acompanhou a edição dominical de A Tarde no último dia 29 de março.
O baiano Carlos Marighela, mestiço como todos nós, é filho de afrodescendente com italiano, e completaria 100 anos em 05 de dezembro de 2011 se a saúde assim o permitisse e se agentes do Dops, sob o comando do delegado Sérgio Fleury, não o varassem de balas numa emboscada na Alameda Casa Branca, em São Paulo, no dia 04 de novembro de 1969. Dez anos depois, em dezembro de 1979, os parentes e amigos transladaram os restos mortais e os depositaram numa modestíssima sepultura do Cemitério da Quinta dos Lázaros, sepultura que permanece modesta apesar da lápide criada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (completará 102 anos em dezembro deste ano) em que figura a epígrafe do morto: “Não tive tempo para ter medo”.
Perdeu quem não foi assistir O amargo Santo da Purificação porque foi uma oportunidade quase lúdica de conhecer Marighela. Os seus descendentes que residem em Salvador estavam lá na estréia do dia 13 de março, numa praça que não lotou e num ambiente tão respeitoso que até os bêbados transitavam imperturbáveis em cena dada a sorridente condescendência dos atores. Tomara que a Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz volte em breve.
A entrevista de Clara Charf, 84 anos, enfeitou seis páginas (10-15) do número 52 da revista dominical Muito de A Tarde. A fotógrafa Rejane Carneiro colheu imagens da alegria que sempre me impressionou nesta militante que passou a viver com Marighella quando ela tinha 20 anos de idade. Ei-la sorridente, vestida de rosa, com a mesma vitalidade que exibiu no documentário Vlado, 30 anos, lançado em 2005 pelo cineasta João Batista de Andrade. A repórter Tatiana Mendonça deixou Clara à vontade para demonstrar mais uma vez a doce coragem que percorre suas veias.
Esta é a segunda vez que escrevo artigo em que figura Carlos Marighella. Em 08 de agosto de 2007, A Tarde publicou na sua página 3 o artigo anterior, “Niemeyer nas Quintas”, sobre a presença da arquitetura dele na Bahia. No mesmo dia recebi e-mail de m.odonto contrariado com o tratamento que dediquei a Marighella quando disse que ele é “um dos heróis da resistência nacional ao arbítrio”. A democracia autoriza tal reação. Por outro lado, o tratamento que dei a Mariga agradou muito o filho dele.
* Jornalista e produtor editorial. lulapt@svn.com.br
terça-feira, 24 de março de 2009
Morto, enfim quitarei
lulapt@svn.com.br
Após 240 meses de regular pagamento da prestação da casa própria e do seguro do imóvel à Caixa Econômica Federal – CEF –, completou-se o prazo dos 20 anos do financiamento – o equivalente a R$ 21.545,53 – iniciado no final de 1988, após a quitação de uma entrada de 25% do valor total. Com a 240ª prestação, paguei à CEF a soma de R$ 66.364,78. O imóvel – um apartamento de dois quartos – é localizado na Ladeira do Arco, no Barbalho. Acontece que a Caixa está cobrando mais 108 prestações de R$ 3.253,66 a fim de receber o saldo residual, atualmente de R$ 180 mil. Sobrou-me apenas procurar o auxílio da Justiça.
Até dezembro de 2008, devido ao percentual estabelecido em 1988 para a equivalência salarial, este mutuário pagava em torno de R$ 300,00 por mês. O despudor da Caixa, através da Engea, empresa para a qual ela repassou os seus créditos, permitiu-lhe multiplicar o valor por 10, desconhecendo por completo que a equivalência salarial regia o contrato. Pretendi há uns três anos dialogar com a Caixa e paguei a taxa estipulada para a avaliação do imóvel. Resultado, a Caixa ou a Engea quis receber pelo imóvel, suponho que à vista, o valor de mercado, desconhecendo por completo o montante das prestações pagas. Não topei. Não imaginava, então, que a escorcha seria, mais adiante, bem pior. É bem verdade que ouvi certa vez de um gerente que a CEF não me vendera um imóvel e sim dinheiro. Diga-se: dinheiro exageradamente caro.
O professor e advogado Luiz Carlos Forghieri Guimarães, da Escola Superior de Advocacia da OAB/SP, entende que o problema fere direitos pétreos assegurados na Constituição Federal de 1988 e considera indispensável que o Supremo Tribunal Federal o examine e exare decisão a respeito. Seu artigo “Sistema Financeiro, Saldo Residual e a Constituição Federal” alerta para o fato de que é impossível extinguir o débito [saldo resuidual]. E, sentencia: “Só não enxerga quem não quer, ou não se quer enxergar que esses contratos habitacionais cumprem uma disfunção social, tornando-se, na verdade, para o mutuário, o castigo de tântalo, da mitologia grega, para nunca mais terminar, em outro dizer, daqui a 50 anos haverá saldo residual, daqui a 500 anos haverá saldo residual, enfim, haverá saldo residual ‘ad eternun’”.
Fico imaginando como deve reagir alguém com instrução básica e frágil musculatura psicológica diante de um problema das dimensões como este que se apresentou a mim desde janeiro deste bendito ano de 2009. Espero que os advogados que constituí obtenham sucesso e que contribuam para a construção de jurisprudência que auxilie a milhares – só na Bahia há mais de 12 mil mutuários em situação semelhante à minha – de pobres brasileiros que seguem adiante com a pressão alta e o medo que lhes abate o viver. Estou certo de que não será necessário morrer para, enfim, o seguro quitar o débito.
