Sentinela - Malu Fontes*
sábado, 11 de fevereiro de 2012
O Partido da Imprensa Golpista (PIG) tornou-se aliado
Sentinela - Malu Fontes*
sábado, 4 de fevereiro de 2012
João e o "metrôzinho" da alegria
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
A pouquíssimos dias do Carnaval e com a cidade em plena alta temporada turística de verão, com múltiplas festas e ensaios a cada esquina, paradoxalmente Salvador poucas vezes esteve tão feia, mal cuidada e pouco receptiva para os milhares de turistas que recebe. A infra-estrutura da orla, antes acusada de estar mais para uma estética favelizada, desandou de vez após a derrubada de todas as estruturas que ofereciam algum serviço aos banhistas nas praias sem que absolutamente nada tenha sido colocado no lugar.
As emissoras locais de televisão não cansam de mostrar, a cada matéria que veiculam sobre as praias em Salvador, os níveis de improviso que hoje imperam na orla. Se as velhas barracas de praia eram acusadas de serem feias, sujas e poluentes, agora a coisa está tão medonha quanto. Ou pior. O que se vê, para além de mesas de plástico encardidas, sombreiros puídos e lanches preparados e servidos em circunstâncias que fazem o diabo revolver as vísceras, são toneladas de lixo espalhadas por todas as praias de Salvador, enfeiando até mesmo um dos principais cartões postais da cidade, a praia do Porto da Barra, onde até um riacho de esgoto recentemente fez companhia ao lixo na areia. Sem falar no lixo jogado ao mar que se acumula no fundo da água.
UM CONSULADO - Simultaneamente à feiúra vista na cidade, seja a olho nu ou através das matérias que diariamente a imprensa impressa e televisiva veicula, um fenômeno político chama atenção: a decadência da gestão do prefeito João Henrique Carneiro, um saltador de partidos políticos que em seu segundo mandato resolveu abrir mão oficiosamente do cargo e se transformar em um dublê de muito mau gosto.
O dar de ombros do prefeito é tamanho que há muito deixou de dar entrevistas sobre os problemas da cidade e quando aparece é com factóides que merecem mais ovos que os atirados contra o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, quando da ida à missa pelo aniversário de 458 anos da cidade de São Paulo. Recentemente o prefeito faz-de-conta resolveu fazer um barulhinho na imprensa com uma iniciativa risível se ele não fosse tão desprovido de graça: escreveu uma carta a Hillary Clinton, secretária de estado dos Estados Unidos no Governo Barack Obama pedindo nada menos que um consulado dos Estados Unidos em Salvador. Se isso não é factóide, o que seria? Enquanto isso, os serviços públicos mais básicos, como assistência à saúde, limpeza urbana, transportes e educação parecem estar sob colapso e o prefeito finge não ter nada a ver com isso. Quando a imprensa questiona o caos, o prefeito escala seus subalternos doublês para dizer asneiras solenemente.
A desaparição do prefeito das questões graves e feias que a cidade enfrente é tão absoluta que ele sequer se deu à obrigação de cumprir um dos compromissos mais formais do mandato: abrir os trabalhos da Câmara de Vereadores para 2012 na última quarta-feira. Uma Câmara, aliás, composta de tantos ausentes quanto o próprio prefeito. Uma vereadora que atende pelo nome fofo de ‘Tia' Eron, apontada como a mais ausente da legislatura, preferiu, no dia da reabertura, tomar um cafezinho esperto na sala destinada a esse fim, quem sabe para testar o poder de ressurreição física da cafeína para o trabalho.
Outra vereadora famosa, Léo Kret, esteve ausente, mas por um motivo que seu eleitorado deve considerar razoável: está confinada num trio elétrico onde se encena o primeiro reality show genuinamente baiano. Para quem não viu o Trio Reality, na TV Aratu/SBT, recomendam-se nervos estéticos fortes. Especula-se, inclusive, que a equipe de produção do programa tem de trabalhar mais que dobrado, pois se 10% do que a vereadora do sexo masculino diz no reality for ao ar, o mandato da moça-moço vai para as cucuias por falta de decoro. E vale lembrar que, para perder um mandato de vereança em Salvador por falta de decoro, a indecorosidade deve ser do arco da velha. Diz-se também que para além e aquém de Léo Kret, as estripulias sexuais cometidas (e jamais mostradas, por conta do horário) pelo povo do Trio Reality fazem a casa do BBB parecer o Castelo Ratimbum.
GATALHO - Quanto ao prefeito e sua indisfarçável decisão de cruzar braços e pernas quanto aos problemas da cidade muito antes do fim do seu mandato, sua última aparição digna de registro se deu em um vídeo singelo que há uma semana circula nas redes sociais, mostrando-o animadérrimo com a mulher recém-conquistada, Mrs. Paraíso, formando um trenzinho, ou melhor, um metrozinho da alegria (para não perder a piada com o inacabável metrô de Salvador) para lá de constrangedor ao som de uma trilha sonora que, para a população, tem tudo a ver com os personagens envolvidos na dancinha: ao som de um dos hits de Cláudia Leite cujo versinho singelo entoa “safado, cachorro, sem-vergonha”, o prefeito e a consorte Paraíso encenavam um animado trenzinho bailante no Festival de Verão na semana passada. Sim, prefeito, a imagem é uma preciosidade, sobretudo levando em conta seu novo figurino, composto por camisas justérrimas, algo meio slim, no melhor do melhor da linha ‘gatalho’.
Enquanto isso, a TV exibe e repete trocentas vezes por dia campanhas publicitárias institucionais da Prefeitura de Salvador, com um refrão cínico dando conta de que, durante a gestão atual, essa mesma, a de João versão Paraíso no trenzinho, dá para ver o que mudou na cidade. Para melhor, claro. Um chefe de Executivo municipal que leva a terceira capital do país para a decadência que Carneiro levou deveria ser proibido por lei de mentir publicitariamente em anúncios dando conta das qualidades de sua gestão. Que mudança, cara pálida? Que as coisas mudaram, mudaram, mas para pior. Recomenda-se ao prefeito um luau com a nova primeira dama no Terminal Marítimo de Plataforma, onde há uma semana uma equipe da TV Bahia foi surpreendida com um roubo. Enquanto jornalistas da emissora gravavam uma matéria sobre a insegurança, a decadência e a completa falta de estrutura do lugar, o motoboy que leva a fita para a emissora com o material gravado teve o capacete roubado. Dá pra ver que mudou, né? Se isso é estar na melhor, pô, o que é estar na pior, né Salvador?
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
sábado, 28 de janeiro de 2012
Pinheirinho e o alçapão de pobres
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
No mês em que a cidade de São Paulo comemorou 458 anos, as cenas vistas na TV associadas à mais rica metrópole brasileira não foram de festa. As imagens vinculadas a São Paulo em janeiro, nos telejornais, foram as dos rotos e esfarrapados em confronto com a Polícia na Cracolândia, região Central da cidade, e as cenas de guerrilha urbana de milhares de famílias na favela de Pinheirinho, na Grande São Paulo, embora já em São José dos Campos. Sim, também houve imagens da chuva de ovos atirados contra o prefeito, Gilberto Kassab, na ida à missa de aniversário da cidade.
Pinheirinho abrigava cerca de 6.000 pessoas em um terreno de 1,3 milhão de metros quadrados, pertencente à massa falida de Naji Najas e invadida em 2004. Independemente das questões de justiça e injustiça que podem ser invocadas em relação à decisão judicial de reintegrar a posse do terreno, expulsando os moradores e destruindo absolutamente todas as moradias, três aspectos chamaram àtenção na cobertura telejornalística durante a semana. Uma delas é repetida à exaustação sempre que uma calamidade atinge contingentes populacionais pobres no Brasil, o que equivale a dizer que é algo rotineiro nas manchetes jornalísticas: o que acontece com o exército de gente pobre 24h após as hecatombes que acontecem em suas vidas?
CUSPIDOS - Onde estão, hoje, os desabrigados do Morro do Bumba, em Niterói (RJ), dos deslizamentos da região serrana, também no estado do Rio, das enchentes do ano passado em Alagoas, das dezenas de favelas coincidentemente incendiadas em São Paulo ao longo de 2010 e 2011? Do mesmo modo, onde estarão no futuro as seis mil pessoas expulsas de Pinheirinho, sem tempo de sequer pegar roupas e documentos? Levando-se em conta as multidões de pobres que praticamente todos os meses são notícia na condição de vítimas de contingências, a maioria delas vinculadas à sua condição sócio-econômica, associada ao crônico desmando político no país, tem-se a impressão que o Brasil dispõe de um alçapão para fazer desaparecer os pobres que são cuspidos ainda mais radicalmente da fronteira mínima da dignidade em que vivem quando são vítimas de uma tragédia.
No telejornalismo, o roteiro é o mesmo: o contingente de desamparados é mostrado, as lideranças políticas são entrevistadas e garantias do poder público são dadas, anunciando que toda a assistência será dada às vítimas. O telespectador já sabe que isso não é verdade. Pouquíssimos dias depois é como se essas pessoas desaparecessem por mágica, no tal alçapão de pobres, e são substituídas logo a seguir nas manchetes por outro grupo em situação ainda pior. No episódio de Pinheirinho, um segundo aspecto a chamar àtenção, e que também costuma se repetir em casos semelhantes de desocupação por ordem judicial e força policial, são as razões que levam o poder público a permitir ou fazer vista grossa à formação de um bairro durante oito anos e, quando milhares de pessoas estão com suas vidas aparentemente estruturadas, arranca-se do chão em menos de 24 horas tudo o que foi permitido em quase uma década.
MULHERES RICAS - Por fim, tanto quanto a pancadaria entre moradores e policiais na favela e no entorno de Pinheirinho, sooaram mais que cínicas as declarações de representantes do poder público aos repórteres de TV diante das acusações dos moradores de que a Polícia derrubou as casas com todos os móveis dentro, não permitindo que os donos retirassem seus pertences. Os argumentos dados à imprensa para que isso possa ter acontecido fazem as Mulheres Ricas soarem como samaritanas humanitárias da Cruz Vermelha: foi oferecida a todos os moradores a possibilidade de lacrar e etiquetar todos os seus móveis e dar um endereço para onde se queria que eles fossem enviados por um serviço da Prefeitura de São José dos Campos. Se não pediram o serviço nem deram o endereço de entrega... Ah, tá! Certamente disponibilizariam um depósito privado e cuidadoso de móveis, talvez localizado nas cercanias de Alphaville, com garantias anti-cupim e anti-ferrugem.
Se fosse mesmo real a oferta desse serviço tão cuidadoso de etiquetagem e depósito oferecido pela Prefeitura para os pertences existentes dentro da casa dos expulsos, por que, então, a mesma Prefeitura deixaria milhares de pessoas, incluindo velhos, crianças e doentes amontoados em abrigos insalubres, improvisados em escolas públicas cheias de cocô de pombo e sem condições de higiene? E milhares de pessoas abrigadas por um padre numa igreja sem estrutura de banheiros, cozinha e vazos sanitários?
CACHORRO - Esse país ou esse mundo andam mesmo muito estranhos. Uma população fica revoltada e quer pena de morte para uma histérica que agride um cachorro, uma prefeitura oferece etiquetagem mentirosa de móveis para milhares de pessoas que têm suas casas destruídas pela Polícia e, ao mesmo tempo, ninguém parece se importar com gente apanhando e morrendo na rua de qualquer metrópole e muito menos com famílias que perdem tudo e são obrigadas a viver como formigas, esmagadas umas sobre as outras em depósitos improvisados de gente.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
sábado, 21 de janeiro de 2012
A Polícia no Projac
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
Nem bem estreou e o Big Brother Brasil 12 já chegou dizendo a que veio: convocou todo o país para falar de um suposto estupro na tal casa e todo mundo atendeu à convocação, a imprensa junto, é claro. Há uma semana que não se fala em outra coisa no País. Daniel estuprou ou não estuprou Monique? Pouco importa saber quem é um ou outro. Basta saber que são BBBs para que aquilo que um fez com o outro, ou contra o outro, passe a ter relevância nacional. Quiçá, internacional, visto que o formato BBB é globalizado, vale lembrar.
Para se chegar a essa convocação atendida majoritariamente por uma sociedade inteira, não se pode perder de vista, mais do que o assunto em si, a força desprogramada e incontrolável do fenômeno que já atende pelo nome de informação compulsória ou jornalismo compulsório. O fenômeno consiste no seguinte: mesmo que um determinado leitor não tenha absolutamente nenhum interesse num tipo específico de notícia, geralmente relacionada ao mundo das celebridades, ele saberá dessa notícia.
MORTO- Exemplos claros de notícias compulsórias: seja você quem for, se nas últimas semanas não tiver lido ou ouvido nada sobre o estupro do BBB, Luiza no Canadá e sobre Michel Teló, muito cuidado. Beslique-se, pois você deve estar morto. A consequência imediata da noticia compulsória é transformar o país num Fla-Flu, num Ba-Vi: uns são mortalmente contra o personagem objeto da notícia, outros doentiamente a favor e uma dúzia de silenciosos querem se mostrar intelectualmete superiores por se acreditarem fora do estádio apenas por ficarem rondando-o de soslaio na porta taxando os outros de imbecis.
Se houve estupro ou não na casa do BBB, exibido pela Globo apenas para os telespectadores que têm TV por assinatura e compraram o Big Brother 12 pay per view, a emissora, a Polícia, a Justiça e os envolvidos que deem ao episódio o tratamento que a lei determina. Estupro é crime e até onde de sabe o Código Penal não é flexível para contextualizações como o fato de ambos estarem trêbados com a anuência e estímulo de uma atração televisiva e do ato ter acontecido diante de trocentas câmeras. Embora Boninho, o eterno diretor do programa tenha insinuado queixas à lei que enquadra o estupro, considerando-a como "muito ampla", o fato é que estupro é estupro e não há meio termo.
Para além do que quer que seja que tenha ocorrido nas barbas da Globo e de sua tipificação ou não como crime, impressionou a flora e a fauna que vieram a público 'enriquecer' o debate. De 'blogueiros progressistas' que aproveitaram o coito global para puxar o saco do patrão atual e lavar mágoas com os Marinho, pedindo que o Governo Dilma cassasse imediatamente a concessão da Rede Globo como emissora de TV até empresários e agentes dos dois personagens envolvidos trocando acusações moralistas, racistas e sexistas, nenhum nicho de protestantes deixou de dar seu depoimento nas redes sociais desde o imbróglio do edredon.
POVO NEGRO - Sim, a repercussão se tornou maior que o fato e por mais que no dia do ocorrido Pedro Bial tenha resumido o que pode ter sido um crime sexual com um "o amor é lindo” e tenha explicado ao público a expulsão do acusado de estupro com um vago "comportamento inadequado", durma-se a Globo e os patrocinadores do BBB com um barulho desses feito pela fauna e flora na web. Quem quiser que acredite que os principais patrocinadores do programa fiquem extamente tranquilos com sua imagem junto ao público tendo investido mais de 100 milhões de reais e vendo suas marcas associadas a estupro. A emissora, por sua vez, teve um consolo e tanto. Se antes do 'estupro' a audiência do BBB 12 patinava na faixa dos 20 pontos, a pior de todas as edições, após o sexo supostamente não consentido o Ibope registrou um crescimento de 80% na audiência, que passou dos 36 pontos. Na fauna e flora já há o nicho que garante que o estupro foi forçado para inflar a audiência e que Daniel não passa de um vendido traidor do povo negro.
E já convocando o diabo para refestelar-se nos detalhes, vale lembrar que, tendo sido estupro de vulnerável, abuso sexual ou relação sexual consentida, é fato que, dado o estado de perturbação alcoólica do casal, jamais cogitou-se convidar a camisinha para meter-se sob o fatídico edredon. Aliado a isso sabe-se que fazer sexo sem proteção com um parceiro que nunca se viu na vida e cuja responsabilidade com o par é zero, sempre pode acabar, no mínimo, em duas roubadas: na contaminação por uma DST (Doença Sexualmente Transmissível) dessas que se tem que carregar para sempre, Aids incluída, ou numa gravidez indesejada.
ABORTO - Como perguntar não ofende, vale uma interrogação: se foi mesmo estupro e a moça tivesse ficado grávida, o público, em se tratando do BBB, seria convocado a participar da decisão a ser tomada sobre o destino do feto? Sim, pois em caso de estupro o direito de abortar é assegurado por lei no Brasil. E as igrejas, evangélicas e católicas, já que agora são todas amigas do tipo unha&cutícula com a Globo, iriam todas se manifestar contra a opção do aborto, como fizeram durante a campanha eleitoral? Ou quem sabe Boninho, o eterno diretor do programa, poderia encampar o nascimento do rebento para, uma vez nascido, mantê-lo para sempre aprisionado na 'Casa' e inaugurar outro reality na linha Truman Show?
Outra pergunta cabível em tempos de estupro transmitido ao vivo por pay per view: que tal nas próximas edições do BBB chamar o consultor e comentarista da Globo, Rodrigo Pimentel, para ensinar aos brothers e sisters como fazer para tomar todas e não correr o risco de estuprar nem ser estuprado na 'Casa' do Projac? Se ele vai até para a Rodoviária do Tietê no Natal ensinar aos nordestinos como não descuidarem-se das mochilas de costas para não atrair ladrão e às ruas para ensinar como as mulheres devem proteger a bolsa ao carregá-las... Convoca o Rodrigo Pimentel, Bial.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Dispensa, cracolândia, que as eleições vêm aí
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
Depois de cerca de duas décadas tolerando ou fingindo não ver a multiplicação de usuários de crack e de outras drogas em seu centro, a cidade de São Paulo resolveu enfrentar o exército de morimbundos da cracolândia de uma hora para a outra e de uma maneira pouco eficente. E pelo andar da carrugem e do tamanho do barulho que se viu nos telejornais nas últimas semanas sobre o assunto, o enfrentamento continua não dando muito certo. Ao invés de prender os traficantes que abastecem a região e de oferecer tratamento para os zumbis humanos que circulam por lá, o que se fez foi tão somente deflagrar uma operação de dispersão dos chapados.
Ninguém em sã consciência e sem hipocrisia pode discordar de que o Centro de São Paulo há muito tempo vem requerendo alguma ação política, sanitária, de segurança pública e preferencialmente várias ações dessa natureza coordenadas para impedir que um pedaço urbano do país continuasse a viver sob um sistema de exceção quanto ao tráfico e ao uso de drogas. Ou seja, embora o trafico de drogas seja crime e seja, inclusive, responsável por um percentual gigantesco da população carcerária brasileira, na Cracolândia o tráfico é, há anos, praticado 24 horas por dia, sob a vista omissa de todas as autoridades, de todas as esferas.
FESTA DO CACHIMBO – No entanto, um dado importante e que parece não caber na cobertura dos telejornais acerca da ação da polícia na Cracolândia é a grande coincidência que há entre o fato de se ter adotado agora a tal dispersão dos usuários de drogas do local e a proximidade das eleições. Sim, as eleições para prefeito se aproximam e três personagens protagonistas da sucessão paulistana dariam um rim para poderem anunciar primeiro para os eleitores algo do tipo: quem acabou com a festa do cachimbo fui eu. Para Geraldo Alckmin, o atual governador do Estado de S. Paulo, do PSDB e Gilberto Kassab, o atual prefeito da cidade, do PSD, chegar às vésperas das eleições sem uma solução, maquidada e superficial que seja, para a Cracolândia, equivale a colocar azeitona na candidatura de Fernado Haddad, a carta do PT, de Lula, Dilma e de quem mais reza pela cartilha do grupo para o cargo de prefeito de São Paulo.
Diante da iminência de que o Governo Federal planejava, através do Ministério da Saúde, uma ação para implantar na Cracolândia, com o objetivo de turbinar o nome de Haddad como candidato à Prefeitura, o governador e o prefeito atuais precisavam correr, não necessariamente juntos, já que têm interesses diferentes no processo eleitoral, para não correrem o risco de deixar no eleitorado a impressão de omissão, caso o ministro Alexandre Padilha anunciasse antes algum plano para os usuários.
A pressa de Alkmin e Kassab foi tanta que a coisa se transformou numa tradução do dito popular segundo o qual o apressado come cru. Movidos pela astúcia de sair na frente do Governo Federal, fosse como fosse, as autoridades paulistanas colocaram de uma maneira desordenada a polícia na rua, sem nenhuma estratégia sobre o que fazer com os dispersos no momento seguinte, já que não tinha para onde encaminhá-los nem como tratá-los, dado o volume do grupo e o nível de complexidade do vício em crack. Sequer esperaram a inauguração do abrigo que estava sendo preparado pela Prefeitura para acolher os usuários, oferecendo-lhes tratamento, assistência social, psicológica e psiquiátrica durante o processo de abstinência e de ressocialização. A previsão de inauguração era a primeira semana de fevereiro. Agora, o carro já foi para a frente dos bois.
FRACASSO - Embora a TV não consiga mostrar e contar ao telespectador todos os detalhes envolvendo a operação na Cracolândia, os jornais impressos vêm contando todos os dias detalhes do arco da velha sobre os bastidores da ação, o que explica o considerado fracasso da medida. A venda de drogas na região continua a ocorrer, quem quis se internar não achou vaga no serviço público e boa parte não deixou de consumir, traficar ou viver na rua. Simplesmente o contingente se dispersou pelos bairros da imediações, o que mais arranhou a imagem dos governantes junto à população. Uma solução mesmo que mediana para o problema continua longe. De concreta mesmo, uma evidência: a medida foi tomada agora e desse modo apenas por conta das eleições para a Prefeitura de São Paulo, porque três partidos estavam um com medo de o outro fazer algo antes para ficar bem na fita com o eleitorado.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
domingo, 18 de dezembro de 2011
Senta lá, Negalora
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
As repercussões rasas e descartáveis que sucederam alguns episódios midiáticos recentes ocorridos na Bahia, como o caso mulher ketchup, o projeto de lei que propõe impedir o governo baiano de contratar, com recursos públicos, bandas de pagode cujo repertório seja ofensivo às mulheres, a suposta relação entre os shows promovidos na praia por programas populares de TV e os arrastões realizados em locais próximos à festa e, mais recentemente, o bafafá em torno da estética e da nomenclatura Negalora, adotada por Cláudia Leitte, sob a chancela de Carlinhos Brown, não passam de mais do mesmo, de fumaça sem fogo.
PIN UP - Cláudia Leitte em si já é um fenômeno midiático no mínimo difícil de ser enquadrado. É um produto do business fonográfico, construído passo a passo diante dos holofotes, desde os primeiros passos públicos, como a Lolita da banda Babado Novo. Uma década depois, muito investimento em marketing e um processo poderoso de agenciamento da aparência e da carreira a transformaram em um fenômeno polvo. Pouco se fala do seu talento musical. As informações que saltam aos olhos sobre seu estrelato centram-se nas referências celebratórias à sua beleza e ao seu vigor corporal de uma Barbie contorcionista de palco, à sua força atual de mascate publicitário que só anuncia menos coisas à venda que Ivete Sangalo, à sua imagem de pin up gostosa de calendário.
Ao mesmo tempo, a cada entrevista, ela própria ressalta com tintas fortes os valores tradicionais da maternidade, da família e da religião. Numa frase sim e na outra também cita a família, Deus, Jesus e a fé. Quando se trata de valores morais, chega a resvalar no conservadorismo, ou pelo menos assim é interpretada. Já chegou a ser execrada nas redes sociais por grupos gays, que a acusavam de homofobia por ter dito numa entrevista que preferia que seu filho fosse macho. Nos últimos dias, Cláudia Leitte voltou a ser alvo de uma saraivada de críticas por ter se transformado na personagem Negalora, batizada por Carlinhos Brown.
NEGUINHA - Com outdoors espalhados por toda Salvador estampando fotos em que a cantora aparece mesclada, com um lado do rosto loiro e outro negro, batizando um show acústico e a gravação de um DVD batizados de Negalora, Cláudia Leitte meteu a imagem na cumbuca da reação irritada das diferentes tendências do movimento negro. Se os termômetros adotados para avaliar a reação da opinião pública forem as redes sociais, a ideia que se tem é a de que o neologismo tornado alcunha de Cláudia por Brown para o show foi usado como combustível para reacender a ira do movimento gay pelas declarações do passado, agora acrescidas de reações raivosas de quem acha um desrespeito à cultura e à música negra esse tipo de mimetização de cantoras brancas que adotam o mantra ‘eu sou neguinha’.
ARQUIBANCADA - Vale ressaltar, no entanto, que a reação contra Cláudia Leitte deve esconder mais restrições estéticas do que parece fazer crer a superfície das falas. Para bom entendedor, é claro que o barulho não se trata apenas de uma condenação ao fato de se tratar de uma branca invocando referências negras, e sim a um não reconhecimento, na performance da cantora, por boa parte do público que se afina à musicalidade afro, dessas referências reivindicadas pela Negalora. Se o nome do que cobram da moça é talento, que digam. No entanto, em tempos de politicamente correto, além de temer dar nome às coisas, soa muito mais ‘do bem’ aliar-se em defesa de causas políticas e sociais. Não demora e aparece um ação judicial mandando a moça limpar a maquiagem do lado negro da foto.
Não fosse isso, então, o que explica o fato de Daniela Mercury, e nem faz tanto tempo assim, ter se autodenominado como a neguinha mais branquinha da Bahia, na época em que O Canto da Cidade tornou-se praticamente o hino de Salvador? Se houve reação semelhante, onde está registrada a repercussão disso? O fato é que, sobretudo em Salvador, há diante de Ivete Sangalo, Cláudia Leitte e Daniela Mercury um público de súditos que se comporta como uma arquibancada do Ba-Vi. E nessa guerra de torcidas, Daniela Mercury é que fica melhor na fita quando se trata dos gays e dos defensores da preservação da cultura negra.
SENTA - Mas, independentemente das razões que legitimam a aceitação da neguinha de Daniela e a reação à Negalora de Cláudia Leitte, não deixa de ser irônica a ira do tipo purpurina de alguns diante de embates dessa natureza. Há falas na imprensa e sobretudo em artigos e pontos de vista em circulação nas redes sociais que, se lida desatentamente, fazem acreditar que há fronteiras culturais da boa e da má música, da legítima e da ilegítima e que devem ser respeitadas como sei, como se a geléia geral da indústria cultural e da cultura de massa há décadas já não tivesse passado um trator por cima de quaisquer filtros autorizadores quando a questão é dizer quem pode ou não pode cantar isso ou aquilo, assim e assado.
Onde está essa pureza cultural com fronteiras que não podem ser ultrapassadas sob o risco de o infrator ser acusado de compurscar e macular áreas intocáveis e sacralizadas dessa e daquela cultura? É tudo pastiche e assim será. No chão da arte, o restinho de sagrado que resta é o talento de poucos, coisa que importa cada vez a menos gente. Se há quem acredite numa ainda pureza cultural que autoriza uns e cospe em outros, Senta lá, Cláudia.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
domingo, 11 de dezembro de 2011
No ar, os armengues da Copa
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
Enquanto os prazos para as obras de infra-estrutura que o Brasil precisa fazer para não passar vergonha internacional durante a Copa do Mundo começam a ficar estreitinhos, pipocam aqui e ali nos telejornais os sinais de que o famoso jeitinho brasileiro e os acordões que darão vantagens financeiras a poucos e ricos vai fazer a festa. Durante a última semana, os parlamentares apresentaram algumas pérolas que devem tornar a Lei da Copa digerível para a insaciável FIFA, que apresentou ao governo brasileiro trocentas e algumas exigências, da liberação da venda de bebidas alcoólicas nos estádios à proibição de meia entrada para quem não pode pagar pelos ingressos caros geralmente cobrados nos mundiais de futebol.
Não deixa de ser engraçado que o mundo e os berros ecoantes e onipresentes da televisão trombeteiem cada dia com mais adjetivos medonhos o cigarro convencional ao mesmo tempo em que é tão tolerante, leniente e dócil com o consumo de bebidas alcoólicas, cujos males, na sociedade brasileira, não ficam nada longe daqueles causados pelo cigarro, embora sejam sim males de natureza diferente. Por que a propaganda de cigarro é tão demonizada se a do álcool passeia ostensiva, livre e faceira na programação televisiva e em todas as plataformas em que cabe uma campanha publicitária? Ah, tá: a bebida alcoólica nada tem a ver com o índice de homicídios cometidos no Brasil, com dependência química, com as estatísticas trágicas da violência doméstica e com determinados dados epidemiológicos da saúde pública nacional.
FADAS E DUENDES - A julgar pelo espaço glamouroso que o consumo de álcool ocupa na televisão e no imaginário da boa sociedade brasileira, em contraponto com o cigarro amaldiçoado pelos corretos e limpinhos, não é de se estranhar que uma das principais exigências da FIFA para a Copa no Brasil esteja prestes a ser concedida com tapete vermelho no Congresso, nas agências publicitárias e, sobretudo, sob aplausos da poderosa indústria nacional de cervejas. A expectativa é a de que, talvez ainda nesta semana, o Congresso aprove a Lei Geral da Copa não apenas autorizando a venda e o consumo de bebida alcoólica nos estádios durante o mundial, mas, espertamente, estendendo essa liberação a todo e qualquer campeonato nacional, onde a prática vem sendo combatida em função dos índices de violência registrados nos estádios.
Diante do menor questionamento de que pode ser arriscado liberar a venda de álcool nos estádios, o otimista relator da Lei, o deputado Vicente Carvalho (PT-SP), foi de uma sensatez comovente para quem acredita em fadas, duendes e que tais e sobretudo na ressurreição da cordialidade do torcedor nos estádios: “Nós temos de apostar na civilização. O mundo inteiro pratica isso. Alguns estados brasileiros praticam isso. É só você ser mais duro na fiscalização e na penalização de quem cometer excessos”. Sim, todos os brasileiros, em cujas capitais dezenas de pessoas são assassinadas a cada fim de semana, não só acreditam na civilização como muito mais na fiscalização e na penalização. Não, ninguém acreditou jamais que o consumo de bebidas alcoólicas ficasse proibido nos estádios brasileiros na Copa do Mundo, mas a razão para isso não era nenhuma aposta da sociedade em civilização ou no rigor do Estado para vigiar ou punir excessos. A coisa tem outro nome e não custa nada dar nome às coisas: o lobby da indústria de bebidas e sua força junto à FIFA jamais seria derrotado.
toalha - A liberação da bebida nos estádios é só lado mais business dos acordões que ainda se darão em torno da Copa. O diabo mora é nos armengues que ainda serão anunciados e estes deverão ser muitos. Instâncias do governo praticamente já jogaram a toalha de que vão armengar como podem as obras nos aeroportos das capitais nas quais haverá jogos. A admissão de que as coisas não serão feitas se traduz em outra forma de declaração: as empresas privadas de aviação vão poder usar as bases aéreas militares para coletar e despejar seus passageiros. Se os aeroportos já não têm estrutura, imaginem-se multidões de brasileiros e gringos embarcando e desembarcando em bases militares jamais preparadas para esse tipo de fluxo...
Para não perder o caráter paternalista nacional e ao mesmo tempo não agredir tanto os bolsos furiosos e famintos da FIFA, ao invés de meia-entrada para TODOS os estudantes e idosos, como inicialmente defendia o governo brasileiro, a relatoria da Lei Geral da Copa achou uma saidinha: o texto prevê a destinação de um lote fechado e inalterável de 300 mil ingressos, incluindo todos os jogos, custando a metade do preço e já categorizados como “Cota Social”.
CAMPEÕES DO PASSADO - Sim, as cotas chegaram à Copa. Além dos estudantes e dos idosos, os índios e os beneficiários dos programas sociais do governo, como o Bolsa Família, também terão o direito de disputar a tapa esses 300 mil ingressos da Cota Social, cujo valor unitário não deverá ficar abaixo de 50 reais. E ainda há um mimo empurrado de última hora na Lei Geral da Copa, embora qualquer pessoa sensata se pergunte o que tal benefício tem a ver com uma legislação que deveria ser específica para um mundial de futebol. Foi incluída no projeto, de última hora, a criação de um prêmio de 100 mil reais para os campeões das copas de 1958, 1962 e 1970, além de um auxílio financeiro mensal para jogadores da seleção no passado e que hoje vivem com dificuldades financeiras. Embora os jornais tenham anunciado na última semana que o Brasil parou de crescer, parece que, em tempos de oba-oba, o delírio de alguns representantes do povo de pedir esmola com o chapéu dos outros vai de vento em popa.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
domingo, 27 de novembro de 2011
A Baciada das almas inadimplentes
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
Em contraste com todo o discurso celebratório do jornalismo em torno do crescimento econômico brasileiro e da migração de boa parte da população para degraus mais superiores da pirâmide sócio-econômica, o noticiário econômico vem, também, anunciando um fenômeno dissonante dessa celebração: o alto índice de inadimplência da população brasileira. No Brasil, a inadimplência dos consumidores cresceu 20% em 2010. Trazendo o assunto para a Bahia, segundo dados do comércio, algo em torno de 600 mil pessoas com o nome inserido nos sistemas de proteção ao crédito.
Quem acredita no jogo do contente pode fazer de conta que foi pensando no bem estar de boa parte desse meio milhão de pessoas que a Câmara de Diretores Lojistas de Salvador (CDL) lançou na última semana o I Feirão do Nome Limpo. O evento tem sido, tanto ou mais que um sucesso de público, um sucesso de mídia. Não houve um telejornal que não tenha veiculado matérias sobre o assunto e mais de uma vez. Jornais impressos, emissoras de rádio, blogs, sites, todos agendaram o evento como o mais importante da semana em Salvador, coisa não tão difícil assim, pois, fora os efeitos colaterais da violência urbana, as dores e as delícias do Ba-Vi e os salamaleques de alcova do ex-casal do Executivo Municipal, a cidade anda mesmo, e há tempos, com alguma preguiça de produzir fatos ou discussões relevantes.
MEIO MILHÃO - Como tudo o que importa sempre se localiza no detalhe, a semiótica do feirão das almas inadimplentes na baciada montada no Centro de Convenções não foge à regra. Os promotores do evento anunciam que o objetivo é retirar mais de 70 mil pessoas do cadastro negativo e inseri-las novamente no mercado do consumo na época mais rentável do ano para o comércio: o Natal e o Réveillon. Se em meio a 600 mil pessoas que não estão pagando nada do que acumularam de dívidas até serem bloqueadas para continuar consumindo, cerca de 10% disso der algum troco pelo que deve e voltar a passar pelo caixa das lojas em dezembro, já é um motivo e tanto para o setor varejista comemorar. Mesmo porque muitos dos inadimplentes, antes de serem impedidos de consumir por terem o nome inserido no sistema de proteção ao crédito já pagaram trocentos dinheiros em juros pelas contas que arrastaram pagando em partes e parcelas até que honrar a dívida ficou impossível.
O ponto mais importante do Feirão não é, portanto, fazer bem ao consumidor perdoando-o. Claro que, para quem está encalacrado, é melhor sair do subsolo do consumo pagando um valor do que o triplo dele. Mas essa não é a moral real da história. A moral é dar liberdade de crédito para que as pessoas se percebam de novo aptas a consumir, se atolem em novas dívidas, levem mais uns 10 meses pagando juros por elas e, em novembro do ano que vem, o ciclo recomece e todo mundo saia ganhando. Ou ache que saiu ganhando, como o consumidor.
VÂNDALOS - Até aí, nada de estranho. Essa é a lógica do capitalismo, do mercado, do consumo. O que soa dissonante é a reação dos meios de comunicação quando no mundo ocorrem distúrbios como os vistos este ano em Londres, quando centenas de jovens arrebentaram e incendiaram vitrines e lojas para pegar roupas, tênis, objetos de marcas famosas no mundo inteiro e, sobretudo, produtos eletro-eletrônicos. De modo geral, todos os telejornais do mundo adjetivavam a onda de distúrbios de anárquica, apolítica e organizada por uma turba de vândalos. A acusação capital que se fazia aos ‘vândalos londrinos’ era a de que eles não faziam saques de comida, mas de coisas supérfluas. Sim, em um mundo que funciona para estimular o consumo, Oscar Wilde nunca esteve tão certo quanto ao dizer que abriria mão do essencial se lhe dessem o supérfluo.
Assim como os jovens de Londres não queriam batatas de supermercados, do mesmo modo o feirão da inadimplência, que atrai como besouros para as lâmpadas os endividados de Salvador, não está interessado em devolver a essas pessoas o poder de comprar feijão e sal. Mesmo porque já é hora do topo da pirâmide entender que, se vive anunciando o supérfluo como o ingresso para o paraíso, arroz e farofa não contenta quem é adestrado para sonhar com gadgets de tecnologia touch e com as marcas da moda que fazem as vezes de marcadoras de lugar social no mundo. E enquanto as filas de inadimplentes sonhando com a decoração dos shopping centers começavam a se formar às seis horas no Centro de Convenções, o telejornalismo econômico anunciava em suas escaladas que o Nordeste liderava o ranking da corrida da emissão de novos cartões de crédito. Mais de 43% dos novos cartões emitidos em 2011 no Brasil foram na região Nordeste, fenômeno atribuído à nova classe C em sua ida ao paraíso do consumo.
DESAFINADAS - O Brasil é um país engraçado. Tem taxas incríveis de analfabetismo infantil e juvenil, o que diz que a ribanceira da educação não pode ser atribuída apenas ao passado, mas governantes vivem fazendo festas institucionais e publicitárias quando consegue alfabetizar uma velhinha de 90 anos, levando-se à hipótese de que talvez deixar crianças analfabetas seja uma inovadora reserva de mercado de alfabetização na quarta ou quinta idade. Do mesmo modo, distribuem-se cartões de crédito com limites acima do compreensível e depois que todo mundo está encalacrado realiza-se uma baciada de almas endividadas para serem perdoadas em praça pública como num batismo num rio Jordão do consumo que purifica de novo para o ingresso no reino do shopping. E para dar sentido a tudo isso às vésperas do Natal, os telejornais locais criaram até uma editoria nova: a da inauguração de decoração de Natal de shopping center. Todos os dias há na TV um coral de criancinhas desafinadas ou de senhorinhas felizes gritando que agora é Natal. Sim, agora é Natal e no ano que vem tem mais feirão de endividados.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom- UFBA. maluzes@gmail.com