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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O papel da religião



Por Alexandre Gondim/ Foto: Sídio Júnior*

O ser humano é um animal complexo. Aquela história de que cada cabeça é um mundo é a mais pura verdade. Somo seres influenciáveis e nos apegamos a uma verdade na qual acreditamos. Somos o que pensamos. Pensamos no que acreditamos. Acreditamos numa série de fatores que a vida nos impõe das mais distintas fontes e complexas formas.

Quando nascemos, nossa mente é um papel em branco no qual é escrito um roteiro ao longo dos anos. Nossa mente controla os nossos desejos, define as nossas necessidades e comanda nossas condutas. Neste roteiro estão também registrados os traços da nossa personalidade, que por sua vez é regida tanto pelo entendimento racional quanto pelas emoções que sentimos – a famosa denominação “cabeça” e “coração” respectivamente.

A verdade que impera na mente pode conduzir pessoas para o bem ou para o mal, e pode inclusive não fazer esta distinção. O que é o bem? O que é o mal? Algum dia na sua vida seu pai disse que é errado fazer alguma coisa. Porém outra pessoa disse que é certo, ou você simplesmente questionou-se que se outras pessoas fazem o que seu pai disse que é errado, por que não fazer?

A sociedade que o homem construiu nos impõe regras, metas, objetivos de vida: estudar, trabalhar, casar, constituir uma nova família e por aí vai... Viver em sociedade é seguir um roteiro que pode levar os homens a serem de criminosos a padres. Aqueles que simplesmente não seguem estas normas são taxados de malucos e vivem completamente à margem das oportunidades oferecidas pela sociedade. Para estas pessoas, o único roteiro social a ser seguido é o da sobrevivência.
Uma constante em todas estas circunstâncias é a fé. Seja ela em algo concreto como elementos da natureza, seja ela em algo abstrato como deuses imaginários, seja esta fé em si próprio, o ser humano tem a vocação de acreditar em alguma coisa que por algum motivo inexplicável faz sentido para ele tornando-o mais seguro. Como um cajado, o homem se apóia a esta certeza para ter força de caminhar na jornada da vida. Uma luz que faz a vida ter sentido, iluminando a escuridão dos pensamentos de maneira que ele possa ler e interpretar o seu próprio roteiro.

Quando esta luz se apaga, o ser humano perde a vontade de viver, e os mais reflexivos questionam se realmente vale a pena seguir adiante uma vez que seus desejos e necessidades insaciáveis muitas vezes não são realizados. A ciência explica este momento como o estado de depressão. Não só fatores psicológicos, mas também fatores químicos contribuem para esta experiência desagradável, até porque não se pode esquecer que o corpo é uma máquina movida por incontáveis reações químicas, sobretudo no cérebro.

A famosa “montanha-russa” que muitos vivem, com seus altos e baixos, é um reflexo da condição química do nosso corpo. Porém fica a pergunta no ar: Será que o que pensamos e sentimos ocasiona estes desníveis químicos, ou seriam estes desníveis responsáveis pela confusão da mente?

Não só esta pergunta fica sem resposta, como diversas outras que atormentam o juízo deixando as pessoas inseguras sobre si e sobre seu papel na vida.

Um belo dia, cinco amigos se deram conta disso tudo e numa mesa de bar resolveram inventar uma verdade:

- Vamos inventar uma religião!
- Boa idéia, mas como?
- Escrevemos um punhado de coisas que fazem sentidos.
- Legal! Vou anotar as respostas de todas as nossas perguntas neste guardanapo.
- Depois saímos pela rua contando pra todo mundo!

Assim surgiu a religião, num esforço do homem explicar o inexplicável sobre seu ponto de vista, seja por fundamentos racionais ou delírios criativos. A criação de um roteiro a ser incutido na mente de outros homens. Uma explicação para aquela vocação que temos de acreditar em algo justificada pela sua força de arrecadação de adeptos. “Se muitos acreditam nisto, algum fundo de verdade deve haver” – raciocinam os recém chegados.
Portanto, religião é uma ideologia que organiza a complexidade da mente humana para que seus seguidores sintam-se mais fortes e seguros de enfrentar a vida, não sofram de depressão e, por sua vez, se adaptem mais facilmente ao roteiro da sociedade – estudar, trabalhar, casar, constituir uma nova família e por aí vai...

Perpetuar a espécie humana, sobretudo os mais humildes e menos instruídos, a partir de normas de convivência e de entendimento do mundo.

O único problema é a ganância que une religião ao dinheiro, à política e até à justiça.
Será que o ser humano tem mesmo solução?

- Garçom, a conta!

* Alexandre Gondim é Bacharel em Publicidade e Propaganda pela Universidade Salvador – UNIFACS, estudante de jornalismo da Faculdade Social – FSBA, e colaborador do Sentinelas da Liberdade. Sídio Júnio é estudante de Engenharia Elétrica (UNIFACS) e fotógrafo do Sentinelas da Liberdade:

sábado, 11 de julho de 2009

DUAS FORMAS DE OLHAR A VIDA


Sentinela - Luiz Humbert* (Lalado)



Vale à pena acreditar na existência de Cristo e na existência de Buda. No mínimo, tudo que se disse a respeito da personalidade deles e da vida que levaram nos serve de exemplo e de parâmetro, quando nossas ações são para mudar a sociedade insustentável e evitar que o mundo continue caminhando para um triste fim.

Cristo e Buda são dois modos distintos de encarar a realidade.

Cristo não tinha planos para esta vida. Sabendo que toda a autoridade é prejudicial à vida, Cristo buscou a libertação na dor, acolhendo-a com alegria e resignação, acreditando que a personalidade humana se eleva na dor. Portanto, Cristo não se insurgiu contra a autoridade. Sujeitou-se à autoridade imperial de Roma e à autoridade eclesiástica da igreja judaica, sem usar os seus divinos poderes e força para se defender da violência imperial e religiosa. Cristo não tinha planos de reformar ou de reconstruir a sociedade.

Cristo pregava contra a ambição insana dos poderosos com uma atitude serena, a mesma atitude de Gandhi contra a violência do império britânico, atitude estóica que veio a se chamar de resistência pacífica. Atitude positiva, que é muito diferente da permissividade atual de todos os omissos, passivos e indiferentes à realidade social, que, por ambição ou covardia, se tornam cúmplices da violência das classes dominantes, que gera todas as demais formas de violência social e ambiental.

Ao contrário de Cristo, Buda só tinha planos para esta vida. Planos de substituir a sociedade plutocrática segregacionista por uma nova sociedade instituída em bases igualitárias, uma sociedade comunitária, livre da fome, da pobreza material, da pobreza espiritual e do sofrimento. Portanto, Buda desenhou e fortaleceu o caminho para uma nova sociedade livre de hierarquia e de competição; uma nova sociedade baseada na solidariedade natural entre irmãos.

Seiscentos anos antes de Cristo, Buda intui que a suposta divindade criadora de todo universo é apenas energia imaterial, sem conteúdo e sem forma, de onde tudo que é material vem e para onde tudo que é material vai. E que essa “divindade suprema”, a energia imaterial, está em cada corpo do universo, em todos os corpos minerais, vegetais, animais, humanos e culturais. Portanto, a lei suprema é amar a si próprio sobre todas as coisas e ao próximo, todos os próximos, de todos os reinos da natureza, como a si mesmo.

Seiscentos anos depois de Buda, Cristo, filho de Deus, ensinou que Deus está no paraíso, bem distante de nós e dessa vida, e que a lei de Deus se resume a um só mandamento: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

E nós, praticantes budistas da Casa da Aranha, nos propomos realizar pacificamente a revolução de trazer Deus de volta ao homem e à natureza.. Propomo-nos a seguir esse caminho revolucionário. Nós acreditamos no projeto budista de reconstrução da sociedade. Nós queremos agir pacificamente para acabar com a pobreza e com toda a dor e sofrimento que ela acarreta. Nós acreditamos no socialismo de Antonio Conselheiro, de Simon Bolívar, de Gaspar Francia e na Ciência Holística como métodos revolucionários.Em vez do individualismo competitivo, vivemos o individualismo solidário, cuja expressão é a alegria.

Como disse o poeta inglês, “a dor não é a forma suprema de perfeição. Meramente provisória, a dor é um protesto. A dor está presa aos meios iníquos, doentios e injustos. Quando a iniqüidade, a doença e a injustiça forem erradicadas, não haverá mais lugar para a dor. Porque o que todos nós buscamos não é o sofrimento, mas o prazer. O supremo prazer de viver intensamente, sem oprimir o nosso semelhante, nem por ele ser oprimido. Queremos que todas as nossas atividades sejam agradáveis e em benefício de todos. Os gregos tentaram o bem comum, mas não o alcançaram, a não ser no mundo das idéias, porque eles tinham escravos e os alimentavam. A Renascença também tentou, mas também não alcançou, porque eles tinham escravos e os deixava morrer de fome”.

Cristo nasceu pobre e viveu entre os humildes. Buda nasceu rico, abandonou os seus palácios e passou a viver na simplicidade de uma vida comunitária, plena de alegria, felicidade e realizações. Exemplo e modelo para todos nós, inconformados com a violência da desigualdade social, insatisfeitos com a miséria e a insegurança de nossa sociedade atual.

O que Cristo e Buda tinham em comum é ter se despojado de tudo que possuíam ou de tudo que poderiam vir a possuir, para que nada faltasse ao seu irmão. É precisamente esse o nosso melhor compromisso, o nosso grande desafio.

Cap. 9 - pág. 36-37 do Livro Eletrônico: O Caminho da Casa da Aranha
*Luiz Humbert (Lalado) é praticante budista e letrista do GRAMPO: http://www.gramporock.blogspot.com/
Os artigos assinados não representam necessáriamente a opinião do Sentinelas da Liberdade. São da inteira responsabilidade dos signatários. Sentinelas da Liberdade é uma tribuna livre, acessível a todos os interessados.