segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Do Facebook: Juca Badaró

Tem gente boa fazendo cinema de baixo-orçamento no Brasil, sem as cifras bilionárias de Hollywood. Cinema de qualidade, que faz as pessoas pensarem! Uma pena esses filmes não chegarem às salas comerciais!





domingo, 27 de novembro de 2011

A Baciada das almas inadimplentes

TELEANÁLISE


Sentinela - Malu Fontes*


Em contraste com todo o discurso celebratório do jornalismo em torno do crescimento econômico brasileiro e da migração de boa parte da população para degraus mais superiores da pirâmide sócio-econômica, o noticiário econômico vem, também, anunciando um fenômeno dissonante dessa celebração: o alto índice de inadimplência da população brasileira. No Brasil, a inadimplência dos consumidores cresceu 20% em 2010. Trazendo o assunto para a Bahia, segundo dados do comércio, algo em torno de 600 mil pessoas com o nome inserido nos sistemas de proteção ao crédito.

Quem acredita no jogo do contente pode fazer de conta que foi pensando no bem estar de boa parte desse meio milhão de pessoas que a Câmara de Diretores Lojistas de Salvador (CDL) lançou na última semana o I Feirão do Nome Limpo. O evento tem sido, tanto ou mais que um sucesso de público, um sucesso de mídia. Não houve um telejornal que não tenha veiculado matérias sobre o assunto e mais de uma vez. Jornais impressos, emissoras de rádio, blogs, sites, todos agendaram o evento como o mais importante da semana em Salvador, coisa não tão difícil assim, pois, fora os efeitos colaterais da violência urbana, as dores e as delícias do Ba-Vi e os salamaleques de alcova do ex-casal do Executivo Municipal, a cidade anda mesmo, e há tempos, com alguma preguiça de produzir fatos ou discussões relevantes.

MEIO MILHÃO
- Como tudo o que importa sempre se localiza no detalhe, a semiótica do feirão das almas inadimplentes na baciada montada no Centro de Convenções não foge à regra. Os promotores do evento anunciam que o objetivo é retirar mais de 70 mil pessoas do cadastro negativo e inseri-las novamente no mercado do consumo na época mais rentável do ano para o comércio: o Natal e o Réveillon. Se em meio a 600 mil pessoas que não estão pagando nada do que acumularam de dívidas até serem bloqueadas para continuar consumindo, cerca de 10% disso der algum troco pelo que deve e voltar a passar pelo caixa das lojas em dezembro, já é um motivo e tanto para o setor varejista comemorar. Mesmo porque muitos dos inadimplentes, antes de serem impedidos de consumir por terem o nome inserido no sistema de proteção ao crédito já pagaram trocentos dinheiros em juros pelas contas que arrastaram pagando em partes e parcelas até que honrar a dívida ficou impossível.

O ponto mais importante do Feirão não é, portanto, fazer bem ao consumidor perdoando-o. Claro que, para quem está encalacrado, é melhor sair do subsolo do consumo pagando um valor do que o triplo dele. Mas essa não é a moral real da história. A moral é dar liberdade de crédito para que as pessoas se percebam de novo aptas a consumir, se atolem em novas dívidas, levem mais uns 10 meses pagando juros por elas e, em novembro do ano que vem, o ciclo recomece e todo mundo saia ganhando. Ou ache que saiu ganhando, como o consumidor.

VÂNDALOS
- Até aí, nada de estranho. Essa é a lógica do capitalismo, do mercado, do consumo. O que soa dissonante é a reação dos meios de comunicação quando no mundo ocorrem distúrbios como os vistos este ano em Londres, quando centenas de jovens arrebentaram e incendiaram vitrines e lojas para pegar roupas, tênis, objetos de marcas famosas no mundo inteiro e, sobretudo, produtos eletro-eletrônicos. De modo geral, todos os telejornais do mundo adjetivavam a onda de distúrbios de anárquica, apolítica e organizada por uma turba de vândalos. A acusação capital que se fazia aos ‘vândalos londrinos’ era a de que eles não faziam saques de comida, mas de coisas supérfluas. Sim, em um mundo que funciona para estimular o consumo, Oscar Wilde nunca esteve tão certo quanto ao dizer que abriria mão do essencial se lhe dessem o supérfluo.

Assim como os jovens de Londres não queriam batatas de supermercados, do mesmo modo o feirão da inadimplência, que atrai como besouros para as lâmpadas os endividados de Salvador, não está interessado em devolver a essas pessoas o poder de comprar feijão e sal. Mesmo porque já é hora do topo da pirâmide entender que, se vive anunciando o supérfluo como o ingresso para o paraíso, arroz e farofa não contenta quem é adestrado para sonhar com gadgets de tecnologia touch e com as marcas da moda que fazem as vezes de marcadoras de lugar social no mundo. E enquanto as filas de inadimplentes sonhando com a decoração dos shopping centers começavam a se formar às seis horas no Centro de Convenções, o telejornalismo econômico anunciava em suas escaladas que o Nordeste liderava
o ranking da corrida da emissão de novos cartões de crédito. Mais de 43% dos novos cartões emitidos em 2011 no Brasil foram na região Nordeste, fenômeno atribuído à nova classe C em sua ida ao paraíso do consumo.

DESAFINADAS
- O Brasil é um país engraçado. Tem taxas incríveis de analfabetismo infantil e juvenil, o que diz que a ribanceira da educação não pode ser atribuída apenas ao passado, mas governantes vivem fazendo festas institucionais e publicitárias quando consegue alfabetizar uma velhinha de 90 anos, levando-se à hipótese de que talvez deixar crianças analfabetas seja uma inovadora reserva de mercado de alfabetização na quarta ou quinta idade. Do mesmo modo, distribuem-se cartões de crédito com limites acima do compreensível e depois que todo mundo está encalacrado realiza-se uma baciada de almas endividadas para serem perdoadas em praça pública como num batismo num rio Jordão do consumo que purifica de novo para o ingresso no reino do shopping. E para dar sentido a tudo isso às vésperas do Natal, os telejornais locais criaram até uma editoria nova: a da inauguração de decoração de Natal de shopping center. Todos os dias há na TV um coral de criancinhas desafinadas ou de senhorinhas felizes gritando que agora é Natal. Sim, agora é Natal e no ano que vem tem mais feirão de endividados.

*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom- UFBA. maluzes@gmail.com

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Porto de Galinhas - Pernambuco







Sentinela - Antonio Nelson

Porto de Galinhas fica no munícipio de Ipojuca, a 70 quilômetros da capital pernambucana.

Além do turismo, Porto de Galinhas também é o principal point do surf pernambucano após os ataques dos tubarões no Recife, na década de 1990.

O "Quinteto Fantástico" é composto por Halley Batista, Luel Felipe, Alan Donato, César Aguiar e Júnior Lagosta.





Foto de capa: Daniel Smorigo.

Ratoeira Cênica entrevista Luiz Marfuz, diretor do espetáculo Meu Nome é Mentira

Saiu no Ratoeira Cênica







Enoe Lopes Pontes – Como foi que os alunos escolherem você como coordenador?

Luiz Marfuz – Aconteceu partir de um desejo mútuo e antigo. Desde o final do primeiro semestre, quando tive contato com os estudantes, através do componente Estética Teatral, eles sinalizaram que gostariam que estivéssemos juntos na formatura. Mas era aquela história de conversa de pátio da Escola. É uma turma por quem sempre tive carinho. E eu curtia o humor deles e o resultado dos trabalhos nas mostras. No início deste ano, o convite foi formalizado. E como sou do Departamento de Técnicas [do Espetáculo], conversamos com Maurício [Pedrosa] e Hebe [Alves], que apresentaram a proposta aos respectivos professores, que aprovaram. Mas já começamos a nos reunir para pensar no texto e na produção do espetáculo no final do primeiro semestre.

ELP – Qual é a sua opinião sobre dirigir um espetáculo de formatura do curso de interpretação?

LM –
Este é o segundo espetáculo que dirijo. O primeiro foi Atire a Primeira Pedra, em 2008. Eu gosto muito porque é um processo de experimentação e renovação. Com uma turma de formandos você pode ir além, não ter medo de se arriscar. O interessante é que gosto dos extremos: trabalhar com atores profissionais de 10 a 30 anos de carreira (como foi o caso de As Velhas) e agora com jovens atores que estão se lançando numa aventura de pesquisa da linguagem teatral. Nesse sentido, acho que há uma migração de saberes e fazeres. Aquilo que é conquistado no campo profissional procuro trazer para o processo de montagem do espetáculo de formatura e vice-versa. São atores ávidos de conhecer, fazer, propor. É uma zona de risco e prazer sem limites.

ELP - Como foi a escolha do texto?

LM – Eu sempre pergunto qual é a expectativa do grupo antes de propor algo. No caso de Atire, eles tinham interesse em montar Nelson Rodrigues. Então eu propus a adaptação dos contos de A Vida Como Ela É. Já com esta turma, o texto não foi o ponto de partida, mas o desejo e as habilidades. Eles disseram que gostariam de explorar a veia musical e de humor do grupo. Lembrei de Brecht. Eles gostaram, porque tinham tido pouco contato com o Teatro Épico. Então pensei em puxar o cômico e o musical para o campo político, numa plataforma estética que desse a chance de explorar e pesquisar um universo de possibilidades temáticas, poéticas e de estilos de atuação. Estava tentando montar com o Grupo Toca de Teatro (originado de Atire a Primeira Pedra) o espetáculo Meu Nome é Mentira, inspirado numa fábula de Brecht, retirada de A Exceção e a Regra. Como o projeto não se realizou por falta de recursos, achei que era o momento certo. Aí veio tudo a calhar, porque gosto de palco cheio, a ideia do coletivo em cena. E agora estamos com 18 atores e mais três músicos no palco. Vamos ver no que vai dar. Confira na íntegra: Ratoeira Cênica

SERVIÇO
Onde:
Teatro Martim Gonçalves

Quando: De 17 a 27 de novembro de 2011, de terça a domingo. Sábado e domingos duas sessões: às 17h00 e 20h00.
Ingressos:
Entrada Franca. Senhas distribuídas 2 horas antes do início do espetáculo.
Contatos: Produção (Susan Kalik: 8760-6074 e Lucas Lacerda: 9969-2067);

Divulgação (Cláudia Pedreira: 8879-7994); Direção (Luiz Marfuz: 9964-6400)

Sinopse do Espetáculo

Um explorador de um minério raro na região oeste da Bahia mata inexplicavelmente seu empregado durante uma expedição. Ele é acusado de cometer crime ideológico de classe. Seu julgamento converte o tribunal numa arena de absurdos onde juízes, advogados, testemunhas e atores mostram diversas versões do fato em que verdade e mentira se misturam para revelar a crise da representação teatral. É também uma paródia à espetacularização dos chamados “julgamentos do século”, que fazem do fato uma ficção e transforma as pessoas em personagens de dramas e comédias. O espetáculo é escrito e dirigido por Luiz Marfuz e tem como ponto de partida uma fábula de Brecht. São 42 personagens, 18 atores e 03 músicos em cena, todos formandos do curso de Interpretação da Escola de Teatro de Universidade Federal da Bahia. Eles dialogam com as estratégias do Teatro Épico e outras formas cênicas, como a Farsa, a Tragicomédia, a música brechtiana e o teatro coreográfico, revisitadas à luz da contemporaneidade.

Espetáculo: Meu Nome é Mentira
Texto e Direção: Luiz Marfuz
Elenco: Alice Cunha, Anita Cione, Brisa Rodrigues, Bruna Scavuzzi,
Carlos Darzé, Dio Polon, Elmir Mateus, Fabíola Júlia, Francisco Vilares,
Luana Matos, Lucas Lacerda, Luciana Hortélio, Marcia Lima, Moara Rocha,
Ricardo Borges, Rivisson Zurc, Vera Pessoa e Nando Zâmbia
Cenário e Adereços: Rodrigo Frota
Figurino: Thiago Romero
Direção Musical: Luciano Bahia
Iluminação: Pedro Dultra
Preparação Vocal: Marcelo Jardim
Coreografia: Marilza Oliveira
Preparação Corporal: Lilih Cury
Mímica Corporal Dramática: Débora Moreira
Músicos em cena: Leopoldo Vaz Eustáquio, Nando Zâmbia e Tomaz Loureiro
Equipe de Assistência de direção: Leonel Henckes, Fernanda Júlia, Lilih Cury, Ísis Barreto, Bruno Bozetti e Henrique Bezerra.
Divulgação: Cláudia Pedreira
Produção: Kalik Produções Artísticas
Produção Executiva: Francisco Xavier
Direção de produção: Susan Kalik
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As fotos de um dia de ensaio de Meu Nome é Mentira foram fornecidas pela Produção do espetáculo.













quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Sentimentos são

Conto








[infância de outrora]


Existiu um tempo em que os tapetes eram mágicos, e voavam a procura de uma nuvem doce e aconchegante para apreciar o mundo ideal, os sapos tornavam-se príncipes doces e carinhosos, Dom Quixote lutava contra os moinhos de vento, ao lado de Sancho Pança, que sempre estaria ali, para mais um moinho ou loucura do querido amigo, as Cinderelas acordavam para vida, os leões tomavam seu lugar ao trono, a dama fugia com seu vagabundo encantador, e, por fim, as feras conheciam suas belas.

Nesse tempo sempre havia o caminho de tijolos amarelos!

As bruxas se esvaíam, os príncipes e as princesas superavam seus preconceitos, suas raças, seu orgulho, e saíam por aí bailando ao som de uma vida inteira de apoio, batalhas internas e externas, amor, paixão e carinho [...]

Todos seguiam seus caminhos de tijolos amarelos [...]

E como era bom cruzar o caminho, encontrar o arco-íris, e se transformar em uma bela princesa, daquelas com direito a castelo, vestidos rodados, sapatinho de cristal, uma carruagem e o príncipe, amando-a por uma vida inteira.

Houve um tempo em que as meninas queriam ser princesas, pois as princesas existiam em seus corações.

Houve um tempo em que ela sabia a diferença do bem e do mal, do bom e do ruim, do feio e do belo.

Esse tempo não existe mais.

Ela não achou seu caminho, os príncipes viraram sapos, e não o contrário, a fera sempre fora fera e nunca encontrara sua bela, ou alguma desequilibrada que conseguisse conviver com tamanha grosseria.

Ela, que nunca fora bela, só encontrava filhotinhos, achando que eram feras, e que, de alguma forma, nunca conseguiam crescer.

Tentava esquecer do seu não-conto-de-fadas assistindo qualquer filminho no cinema para tentar respirar o que há muito saiu de seu coração: a fantasia e a capacidade de fantasiar.

Há muito sua fada madrinha, se é que ela teve uma fada madrinha, esquecera dela, e só deixara em seu caminho choros, dores e decepções de pseudo-príncipes que eram sapos que juravam, e alguns acreditavam fielmente, serem os mais galanteadores e nobres príncipes que toda donzela em apuros já sonhou um dia.

Ela já não é donzela há muito tempo e há muito tempo deixou de querer ser salva por qualquer Zé Ninguém que aparece pela rua, vestido de branco, montado em um cavalo branco, segurando uma espada prateada e reluzente, com um sorriso torto e a pior das intenções.

Sim, sentimentos são fáceis de mudar, novas sensações, doces emoções e mais um novo prazer.

E, para ela, eles mudam a cada estação.

Em uma, ela está com um pseudo-príncipe que achou em uma festa qualquer e se envolveu por pura carência. Ele, que não é aquele poço de doçura, também está com ela só por carência, achando fielmente não ser ela aquela por quem esperou a vida inteira e nem quando se beijam saem faíscas próprias de quem está apaixonado.

Em outra, ela até acha que se apaixonou, mas já está tão ferida, que não consegue mais confiar em ninguém. Ele, por falta sagacidade, ou vontade mesmo, deixa de lado aquele potencial de faísca atrás de alguém mais fácil, que se envolve só pelo dinheiro ou prazer.

Infelizmente, nesta estação ela se apaixonou pelo cara errado: um menininho imaturo, que mal sabe o que é crescer e ser homem, e mesmo que um dia chegue à terceira idade, tenha filhos e se case com algum resquício de donzela que imagine ser o amor de sua vida, vai continuar agindo da mesma forma, se envolvendo com qualquer uma fora de casa, para manter-se em contato com sua pseudo-virilidade.

Noutra estação ela diz a si mesma que não quer mais saber de príncipes encantados e se dedica a si mesma, para provar que pode ser feliz solteira. Mas, ela percebe que não está apenas solteira, está solitária. Tenta buscar novos prazeres e estes resultam inúteis. Foi nessa estação que ela descobriu o vazio dos prazeres frugais. Foi nessa estação que ela se descobriu vazia e, ao mesmo tempo, cheia de si. Ela entendeu que não precisa de um companheiro para ser feliz ou mulher, muito menos de um sapo.

Mas, também compreendeu que não precisa de um homem qualquer, achado em uma festa qualquer, para terem uma transa qualquer em um motel barato qualquer, só para sentir-se ainda mulher, feminina, ativa e moderna. Aliás, percebeu da pior forma possível que o que se diz moderno, do futuro século, para ela, ou para qualquer outra mulher ou outro homem, nada mais é do que relações secas, de vidas secas em busca de secos prazeres. Ela descobriu-se suficiente e equilibrada para perceber-se sozinha, solteira e sem caçar e deixar-se ser caçada para preencher sua cama por uma noite. Ela não quer mais preencher sua cama vazia com um homem vazio. Se sua cama for preenchida, terá de ser com alguém que ame, mas, ame de verdade, mesmo que não dure, e não pense que ame por carência afetiva.

Foi uma lição dura de se aprender, mas, aprendera.

Noutra estação, conheceu o que achou ser um príncipe de verdade, daqueles que se vê em filme, com castelo e tudo.

Era encantador e, como não podia ser diferente, a encantara!

Mostrou-lhe novos mundos, novos sabores, novas formas de amar! Mostrou-lhe o que há muito vinha procurando em seu coração: um conto de fadas, sendo que ela era a protagonista. Ela era a princesa! Eles se amavam, de forma simples, poética, doce e deliciosamente leve.

Parecia que ela sempre andava embevecida dele. Ela se sentia adolescente novamente, como quando ouvia seu cantor preferido no rádio e ficava enrubescida.

Ah! Eles andavam pelas ruas como se as ruas fossem deles e fizessem parte de um lindo conto de fadas com final feliz, mas sem bruxas.

Até que um dia as máscaras ruíram.

Nem a fantasia nem a carência conseguiam colar os pedaços de sonho no lugar novamente.

Ela percebera que ele não era nem príncipe, nem sapo, mas, humano.

Sua humanidade pesara em seus ombros.

Não o queria mais, por ele também não a querer mais.

Nem ele era príncipe, nem ela era princesa, e a humanidade de que eles dois eram feitos pesava nos ombros já castigados pelas decepções de outrora.

Preferiram seguir sozinhos, pois não conseguiriam suportar verem suas fantasias destruídas.
Ou, como ela mesma veio a definir: não suportaria ver a realidade que o Sol trouxe ao dissipar a neblina que cobria o chão.

Seria menos doloroso para ela, e para ele também, seguir sem ele, só para ter uma lembrança boa para sonhar em dias de solidão.E assim, mesmo sem beijar um sapo, ou sem ver o Dom Quixote e o Sancho Pança enfrentarem moinhos de vento, sem ter subido em um tapete mágico e voado para ver seu mundo ideal, sem ter sido uma dama que encontrou seu vagabundo e, muito menos, sem ser a bela da fera, ou uma princesa com sapatinho de cristal, percebeu que estava no caminho certo.

Nem ficaria com sapos, nem com príncipes, que no fundo não eram príncipes, mas sim, seres humanos.

Não se envolveria com qualquer um por carência, pedindo para que este seja desesperadoramente o príncipe certo, nem trancaria seu coração.

Descobriu, então, que nem existiam príncipes, nem ela era uma princesa.

Abriu os olhos para vida real, sentimentos reais, que são fáceis de mudar, em que basta um olhar que o outro não espera, que junta ou assusta duas pessoas, belas e feias ao mesmo tempo.

Deixou os contos de fadas onde eles deveriam ficar: na infância bem vivida de outrora em que toda história tinha um príncipe, uma princesa e um final feliz.

“É, acho que encontrei meu caminho de tijolos amarelos” – pensara ela em seu apartamento vazio e cheio de si.

“Mas, acho que essa já é outra história” – pensava rindo com um sorriso torto.É, ela descobriu seu caminho de tijolos amarelos, sem príncipes, nem princesas, sem sapos ou bruxas, simplesmente, cheios de si.


*J.C. É uma amante das letras, dos filmes, livros e, mais que tudo, poesia. Sou aquela que ama escrever e gosto de analisar o cotidiano de forma poética,para, quem sabe, deixá-lo menos sem graça.
Os artigos assinados não representam necessáriamente a opinião do Sentinelas da Liberdade. São da inteira responsabilidade dos signatários. Sentinelas da Liberdade é uma tribuna livre, acessível a todos os interessados.