Ecos do Silêncio
Sentinela - Gabriel Pinheiro*
Gelson Domingos da Silva, 46 anos, cinegrafista, enviado para morrer num plantão de domingo, este domingo. Um tiro de fuzil no peito. Fatalidade? Não. Um homem desarmado, com um colete de baixa qualidade, sem qualquer treinamento militar, em meio ao fogo cruzado entre traficantes cariocas e policiais do Bope. Morrer, num caso desses, não é fatalidade. É um risco assumido, calculado, que as emissoras e os executivos de redação impõem aos seus funcionários, pois a verdade é que a audiência vale mais que a vida dessas pessoas. Na mesma Band, a serviço da qual Gelson morreu, eu, trabalhando, fui assaltado, ameaçado de morte, e fiquei sob a mira de pistolas, juntamente com a minha equipe. Escapamos porque os adolescentes (sim, eram todos menores) não quiseram nos matar. É um terror que não desejo a ninguém, nem aos que me causaram essa agrura. Peço ao leitor desculpas por entrar em questões pessoais, mas creio que, neste caso, o depoimento de quem viveu isso de perto vem enriquecer a história e fornecer elementos para quem está de fora compreender o porquê do uso da forte expressão: enviados para morrer.
Foram 16 anos trabalhando nas emissoras de televisão de Salvador. Nos últimos, vivenciei, como testemunha e personagem, a escalada da violência, tanto nas ruas quanto na cúpula dos executivos, dos empresários da mídia, que não enxergam violência como risco, mas sim como produto principal à venda nas telas, em qualquer horário e para qualquer audiência. Os programas ditos policiais colocam na tela, todos os dias, operações, perseguições, das quais uma parte cada vez maior é autêntica. Já houve muita fraude, com bombinha simulando tiro e tudo o mais, mas isso não é mais necessário. Na Bahia, o crime cresce exponencialmente, e o tráfico também. Não adianta, para tentar ter um conforto mental, querer se enganar, e dizer a si mesmo que aquilo é simulação, não há perigo real.
Há quem se diverte com esse tipo de jornalismo, precisa saber que está se divertindo numa arena de gladiadores piorada. Em Roma, pelo menos, eram os ditos criminosos que entravam desarmados na arena. Agora, vão desarmados os inocentes, como eu, como Gelson. Uns vivem, outros, sucumbem.
Os executivos de redação, que trabalham de olho na minutagem do Ibope, divorciados de qualquer critério jornalístico quanto ao valor de uma notícia, vibram quanto mais perigosa e violenta é a incursão. Os repórteres e cinegrafistas são compelidos, obrigados mesmo, sob a perene ameaça da demissão num mercado cada vez pior, a cobrir essas reportagens. Os que não o fazem perdem valor nesse nefasto campo de forças. Quem se preserva é tido como covarde e inútil para a emissora. Há de ser substituído, não resta dúvida. Vi isso acontecer tantas vezes.
Outro ponto a ser considerado é a qualidade dos equipamentos de segurança, quando existem. Embora elas, as emissoras, não mereçam, por uma questão de ética pessoal não irei declinar nomes de instituições. Em muitas delas, nem existe colete. Cobrem a violência, ainda assim. Numa das quais trabalhei, com programas policiais locais e nacionais e dezenas de repórteres e cinegrafistas, havia apenas quatro coletes à prova de balas. Isso, no nome. Uma vez, com um alto oficial da PM, apresentei um dos coletes, em off, e pedi que ele me falasse da segurança. Ele me disse, sorrindo, que aquilo ali, no máximo, agüentaria umas pedradas. Quem se der ao trabalho – como eu me dei – de ler a etiqueta do colete verá a assustadora frase: “Esta peça não é resistente a objetos perfuro-cortantes”. Dá para penetrar um colete desses com uma faca, que dizer com um tiro, um tiro de fuzil.
Na última etapa da minha carreira como repórter de rua (um ser de quinta categoria, na descrição profissional feita por um famoso executivo de redação paulista, que nos anos 90 chegou a Salvador com ares de missionário), tive o desprazer de atuar a serviço de um tablóide policialesco de veiculação nacional, ancorado por um lunático. Fui obrigado, ninguém jamais me perguntou se eu queria. Era ir ou sair, como quase tudo em televisão. Em 15 dias, acompanhei cerca de cinco operações policiais. Senti, mais uma vez, o medo da morte. Numa delas, de madrugada, no subúrbio de Salvador, em frente à casa de um traficante, vi que até os policiais, treinados pela Rondesp, a tropa que mais mata na Bahia – conforme dados da própria SSP; notei que mesmo eles estavam com medo. E nessas horas, amigo, não existe isso de proteger a imprensa não. Quando a sua vida também está em risco, o policial até esquece que tem um repórter ali, desarmado, destreinado, vulnerável, enviado para morrer. Nunca estive em meio a uma troca de tiros. Gelson não deu a mesma sorte. Na favela de Antares, em Santa Cruz, zona oeste do Rio, os tiros começaram. Ele viu um fuzileiro, um bandido com um fuzil. Correu, destreinado, assustado e assustou também o bandido. A diferença é que este último tinha um fuzil e disparou. No peito. Gelson já chegou morto ao posto médico.
O sindicato, com justíssimas razões, responsabiliza a emissora pela morte e diz que vai exigir que a família de Gelson seja amparada. Como? Como amparar os filhos, a mulher, os netos? E mais, como exigir? No meu caso, processei a emissora a serviço da qual fui ameaçado de morte. Lá se vão cinco anos e o processo ainda corre. Como não corre em segredo de justiça, nada me impede de falar dele aqui, mas apenas cito, para que se saiba das dificuldades que se enfrenta na luta contra os interesses da mídia. Portanto, não se enganem. Não há aqui qualquer acaso, qualquer fatalidade. Há cálculo. Para a grande mídia, como estruturada hoje, audiência vale mais que qualquer coisa, vale mais que a vida dos bandidos expostos, humilhados na cadeia, antes de qualquer julgamento, por repórteres que ali se sentem tão poderosos. Repórteres esses que, sem saberem, valem para as emissoras tão pouco quanto aqueles mesmos bandidos que eles ofendem e achincalham.
*Gabriel Pinheiro é Jornalista e Analista de Comunicação do Ministério Público do Estado da Bahia. Já atuou como redator, repórter, editor, apresentador e professor de Jornalismo e Relações Públicas. Escreve toda semana a coluna Ecos do Silêncio para o Sentinelas da Liberdade.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Enviados para morrer
Cor de rosa para quem?
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
Se até bem pouco tempo o câncer era uma doença cujo nome jamais se ousava pronunciar, a verdade é que hoje se perdeu o medo, se não da doença, pelo menos da palavra. Recentemente, todos os telejornais têm falado e muito da doença. Casos de personalidades e autoridades têm contribuído incessantemente para que o assunto tenha passado a ser abordado sem o tom de estigma que até bem pouco tempo marcava a patologia. No campo da política brasileira, os casos emblemáticos do ex-vice presidente José de Alencar e da presidente Dilma Roussef serviram como última fronteira para a abordagem sem tabus pela imprensa, mesmo porque o câncer que Dilma enfrentou tornou-se, de forma direta e indireta, assunto até mesmo de campanha eleitoral.
Nos últimos meses, os casos do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, do ator Reinaldo Gianecchini e a morte de Steve Jobs ocuparam páginas e páginas, telas e telas na imprensa. Boa parte do mundo, aliás, só descobriu que tinha um pâncreas quando o mago da Apple morreu com um câncer no órgão. Entretanto, foi com o diagnóstico do câncer de laringe do ex-presidente Lula que o assunto foi parar nos assuntos mais citados na imprensa e mais comentado nas redes sociais. Como todo bom assunto que hoje se preza, o diagnóstico do presidente ganhou fertilidade e amplitude máxima de comentários foi mesmo nas redes sociais, onde a censura é frouxa ou inexistente e onde ninguém se sente constrangido de mostrar o pior de si quando se trata de manifestar as paixões e os ódios pessoais.
IGREJINHA - No contexto da repercussão do diagnóstico da doença do ex-presidente na imprensa, na televisão, e, sobretudo, diante no circuito extra-imprensa, representado pelas redes sociais quanto a alegada incoerência de Lula ao recorrer aos serviços sofisticados e ágeis de um hospital privado e não ao SUS, uma coincidência merece ser lembrada. Durante todo o mês de outubro, a televisão veiculou, em todo o País, a campanha Outubro Rosa, que consistia em convidar de modo extremamente carinhoso e acolhedor todas as mulheres brasileiras a irem a um serviço médico fazer uma mamografia para prevenir o câncer de mama.
Até aí, tudo lindo. Mais lindas ainda eram as matérias Brasil afora mostrando determinados pontos turísticos de cidades do Oiapoque ao Chuí iluminados de rosa, do Cristo Redentor à torre da igrejinha de cidades onde o vento faz a curva, passando pelas esculturas rechonchudas de Eliana Kertesz, as Meninas do Brasil, em Ondina, Salvador. Mas, assim como nos elogios de Lula à eficiência do SUS, será que, no mantra midiático do Outubro Rosa, não faltou dizer a todas as mulheres que decidem, ou pior, que precisam fazer uma mamografia, onde estavam os serviços públicos cor de rosa onde elas encontrariam um mamógrafo funcionando e um mastologista para atendê-las e, se fosse o caso, para tratá-las com a celeridade que a doença exige? Para quais mulheres brasileiras havia mesmo esse outubro cor de rosa que permitisse aceitar o convite bonitinho, encampado por atrizes, cantoras e primeiras-damas bem intencionadas, para cuidar da prevenção da saúde, fazendo uma mamografia? Faltou dar o endereço do serviço público onde fazer o exame. Para driblar o câncer, é necessário muito mais que campanhas publicitárias coloridas e boas trilhas sonoras.
*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Vereadores de Salvador mudam de Partido
Andréa Mendonça - DEM para PV.
Alcindo da Anunciação (Corregedor) - PSL para PT.
Jorge Jambeiro - PSDB para PP.
Laudelino Lau - PSB para PP.
Orlando Palhinha (3º secretário) - PSB para PP.
Paulo Magalhães Jr. (1º vice-presidente) - DEM para PSC.
*Confira no site do TSE: Fidelidade partidária.
domingo, 30 de outubro de 2011
Kadafi, Rafinha e Lula
Estreia
Ecos do Silêncio
Sentinela - Gabriel Pinheiro*
Lula com câncer, Kadafi morto e Rafinha Bastos fora do CQC, porém mais cotado do que nunca. O que esses três assuntos têm em comum? Todos tratam de questões que envolvem impasses provocados por debates ideológicos. Um passeio pelos meios de comunicação de massa, aliado a um sobrevôo pelas redes sociais nos oferecem um termômetro da opinião pública sobre esses assuntos. Sobre o que pensa a opinião pública? Não necessariamente, mas sim, sobre o que ela diz pensar.
Acontece, que esta não me parece ser a realidade social, de fato, mas sim uma realidade social construída. À época do frissom maior sobre a questão Rafinha, postei no Facebook uma defesa ao humorista, incluindo nela uma crítica aos que faziam coro nas acusações sem se dar conta de que se associavam aos censores plutocratas. Dois ou três amigos curtiram essa publicação e, um ou dois comentaram, com evasivas, quase a me censurar também.
A opinião é livre e tem de ser, nada contra isso, muito pelo contrário. A verdadeira questão para mim é até que ponto essas pessoas, que assim se expressam, de fato pensam assim ou apenas querem que acreditem que elas assim o fazem? Levando em consideração a mecânica própria das redes sociais, sou levado a supor que a segunda hipótese esteja mais próxima da verdade. As pessoas querem, como propunha a música, “ter um milhão de amigos, e bem mais forte poder cantar”. Na rede, essa amizade se expressa basicamente por concordâncias, expressas no que é coletivamente curtido, compartilhado. É comum encontrar em diversos posts a recomendação “se você também pensa assim, compartilhe no seu mural”.
A espiral do silêncio, teoria proposta em 1972, durante o 20º Congresso Internacional de psicologia, pela pesquisadora alemã Elisabeth Noelle-Neumann, parece aplicar-se à perfeição nesse contexto. Os indivíduos das redes buscam a integração social através da observação da opinião dos outros, expressando-se dentro dos parâmetros da maioria para evitar assim o isolamento. O medo da solidão social é tão forte que se propaga em espiral, escondendo o desejo de mudança daqueles que, sem o saber, podem compor uma verdadeira maioria silenciosa.
Como assim maioria?, podemos nos perguntar, afinal tudo que é dito na rede contradiz essa versão. Esse dito, em face do não dito, caracteriza a acumulação, a exposição excessiva de determinadas idéias, através, por exemplo, dos compartilhamentos, que, por outro lado, ressalta ainda uma consonância, vez que o máximo que se faz, ao partilhar, é acrescer comentários de reforço à mesma idéia central. Presente em todos os murais, de todos os amigos, e ainda na mídia comum, temos aí uma verdadeira ubiqüidade midiática. Acumulação, consonância e ubiqüidade são justamente os três mecanismos condicionantes da espiral, conforme Noelle-Neumann. É uma onda, ou – já que estamos falando do facebook, mais um anglicismo que absorvemos sem sequer pensar - uma Wave. E, de fato, velho Tom, para os facebookianos parece mesmo que “é impossível ser feliz sozinho”.
*Gabriel Pinheiro é Jornalista e Analista de Comunicação do Ministério Público do Estado da Bahia. Já atuou como redator, repórter, editor, apresentador e professor de Jornalismo e Relações Públicas. Escreve toda semana a coluna Ecos do Silêncio para o Sentinelas da Liberdade.
sábado, 29 de outubro de 2011
Agonizando na praça eletrônica
TELEANÁLISE
Sentinela - Malu Fontes*
No final da década de 80, a revista Veja conseguiu uma unanimidade em rejeição do público ao estampar em sua capa uma fotografia do cantor Cazuza, extremamente magro, tendo como legenda a seguinte frase: uma vítima da Aids agoniza em praça pública. Eram os tempos em que o diagnóstico de Aids equivalia praticamente a uma sentença de morte e um dos maiores artistas da música pop brasileira experimentava todas as conseqüências clínicas que o HIV então representava para o organismo, já que as pesquisas que levariam aos medicamentos que hoje garantem uma vida de qualidade aos HIV positivos estavam engatinhando.
Embora a comparação pareça grosseira, e sobretudo injusta quando se leva em conta o tipo de tratamento então dado pela Veja a Cazuza, não deve ser pecado pegar a frase emprestada para aplicá-la aos pedaços ao que aconteceu nas duas últimas semanas ao agora ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva. Durante 12 dias, o telespectador brasileiro, seja ele de qual matriz ou matiz ideológico for, assistiu diuturnamente, como diria a presidente, até a noite da última quarta-feira (26 de outubro), e pela sexta vez consecutiva em 10 meses, mais uma via crucis, de mais um ministro do Governo Dilma, agonizando não na praça pública material, de pedra e cal, mas na praça pública eletrônica, a televisão, e nos conjuntos dos outros meios de comunicação que lhe fazem companhia no entorno.
ONGUEIROS - O calvário de Orlando Silva começou quando a revista Veja estampou em sua capa de duas semanas atrás as denúncias de um ex-policial militar e atual dono de ONG que havia se beneficiado de convênios assinados entre o Ministério dos Esportes datados do tempo em que o titular da pasta era o também comunista (do PC do B) e hoje governador distrital de Brasília, Agnelo Queiroz. Denunciado por órgãos de fiscalização do governo por ter desviado dinheiro e condenado a devolver aos cofres públicos mais de três milhões de reais, o tal acusador, amigo de séculos do partido e agora descido à condição de ‘desqualificado’, resolveu fazer o que pessoas envolvidas nesses esquemas sempre fazem: não cairia sozinho e queria uma companhia robusta. Foi à Veja e disse que o ministro Orlando Silva recebia dinheiro de ongueiros na garagem do Ministério. Provas? Embora tenha prometido, não apresentou nenhuma, muito menos imagens das cenas da garagem e assim que Silva caiu passou a repetir outro mantra: ‘agora só falo em juízo’.
BRANCA E RICA - Em meio à novela da queda, trocentas mil explicações, para o gosto de todos os pendores partidários e conspiratórios, se espalharam. Há quem acredite que Orlando Silva é um santo homem do bem e que caiu não porque um doidivanas dono de uma ONG duvidosa resolveu atirar, mas por obra e graça de Ricardo Teixeira e sua turma de velhotes da Fifa que não dão ponto sem nó e queriam o Ministério dos Esportes com o caminho livre para todas as falcatruas que pretendem montar para faturar melhor na Copa do Mundo no Brasil. Há também quem acredite piamente que tudo não passa de uma questão de racismo: o pecado mortal de Orlando Silva teria sido nascer negro, fazer dois cursos universitários, casar com uma mulher branca e rica e ousar se tornar ministro de Estado. Sim, os líderes da oposição ao Governo Dilma acreditam, ou então fazem questão de dizer em público que acreditam, na versão da garagem do ongueiro.
Para os mais sensatos, algo de podre haveria de haver no reino do ministério dos Esportes para muito antes de Orlando, lá nos tempos do ido Agnelo, pois é fato, denunciado pela Controladoria Geral da União, pelo Tribunal de Contas, pela Polícia Federal, e não inventado pela ‘histeria da mídia golpista’ conforme muita gente boa quer fazer crer, que dezenas de ONGs esquisitas embolsaram milhões de reais dizendo que iriam usar esse santo dinheirão para incluir criancinhas pobres no paradisíaco mundo abençoado dos esportes. E até as ONGs honestas, diz-se, eram convidadas a dar um dízimo das verbas que recebiam, se as quisessem receber. Há quem diga, inclusive, que Silva caiu porque interrompeu esse esquema, tentando asfixiar um dinheiroduto que escorria embaixo de sua cadeira. Quem souber a versão real, morre. Literalmente, corre-se o risco.
ALICE - Um detalhe no entanto merece atenção em tempos de ministros agonizando em praças públicas eletrônicas: os sentidos das palavras prova e condenação. Os amigos dizem que Silva foi condenado sem provas. Não é verdade. Ele não foi condenado. No Brasil, quem condena ainda é a Justiça e quem anda atrás de provas é também a Justiça, se a Polícia contribuir, quiser e deixar. Os ritos do julgamento e da condenação políticos não são da mídia, são, antes de serem dela, da própria esfera política, que se vale da imprensa para incensar os ânimos.
Quem disse que o mundo das estratégias políticas perde tempo com provas? Ele atua com a mera ideia de efeito, de aparência e, nesse contexto, não haveria Dilma no mundo que suportasse os efeitos do desgaste de um escândalo chamuscando um ministro seu, dia após dia, às vésperas de uma Copa do Mundo, mesmo que se tratasse de um homem mil vezes inocente. Ô Alice, desce desse lustre que esse mundo da política e da mídia, você bem sabe, está longe de ser essa maravilha toda... A essa altura quem ainda se importa com provas, dinheiro, ONGs, garagem? O importante, ‘o efeito’, já se deu: a queda. Tanto ninguém se importa que nesses dias todos os assessores do ministro explicavam no site da pasta uma a uma a fragilidade das acusações contra Silva, numa espécie de contra-análise do discurso dos acusadores. E... quem se interessava por aquelas respostas e explicações? Para a inocência e a culpa de Orlando Silva, diante do efeito havido, agora Inês é morta. E cremada.
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Wikileaks: Waack, três vezes informante dos Estados Unidos
O jornalista William Waack, da Rede Globo, se tornou um dos assuntos mais discutidos no Twitter nesta quinta-feira graças a supostos documentos da Wikileaks que o apontariam como informante do governo americano. Apesar de vagas e desencontradas, algumas informações são verdadeiras. O Informe JB entrou em contato com a jornalista Natalia Viana, responsável pela Wikileaks no Brasil, que confirmou a história. Waack é citado não apenas uma, mas três vezes como informante da Casa Branca. Dois dos documentos que o citam são considerados “confidenciais”.
Gregório de Matos, o Boca do Inferno (Bahia ,1682)
Que falta nesta cidade? ... Verdade.
Que mais por sua desonra? ... Honra.
Falta mais que se lhe ponha? ... Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade, onde faltaVerdade, honra, vergonha.
Quem a pôs neste socrócio? ... Negócio.
Quem causa tal perdição? ... Ambição.
E o maior desta loucura? ... Usura.
Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que o perdeu
Negócio, ambição, usura.
Quais são meus doces objetos? ... Pretos.
Tem outros bens mais maciços? ... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos? ... Mulatos.
Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao demo o povo asnal,
Que estima por cabedal
Pretos, mestiços, mulatos.
Quem faz os círios mesquinhos? ... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas? ... Guardas.
Quem as tem nos aposentos? ... Sargentos.
Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimada,
porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.
E que justiça a resguarda? ... Bastarda.
É grátis distribuída? ... Vendida.
Que tem, que a todos assusta? ... Injusta.
Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça,
Que anda a justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.
Que vai pela clerezia? ... Simonia.
E pelos membros da Igreja? ... Inveja.
Cuidei, que mais se lhe punha? ... Unha.
Sazonada caramunha!
Enfim, que na Santa Sé
O que se pratica, é
Simonia, inveja, unha.
E nos frades há manqueiras? ... Freiras.
Em que ocupam os serões? ... Sermões.
Não se ocupam em disputas? ... Putas.
Com palavras dissolutas
Me concluo na verdade,
Que as lidas todas de um frade
São freiras, sermões, e putas.
O açúcar já se acabou? ... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu? ... Subiu.
Logo já convalesceu? ... Morreu.
À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, e morreu.
A Câmara não acode? ... Não pode.
Pois não tem todo o poder? ... Não quer.
É que o governo a convence? ... Não vence.
Quem haverá que tal pense,
Que uma Câmara tão nobre
Por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence!