terça-feira, 25 de outubro de 2011

Para especialista, feijão transgênico foi liberado no Brasil sem estudos consistentes

Saiu no site da revista Caros Amigos 20/10/2011

Para especialista, feijão transgênico foi liberado no Brasil sem estudos consistentes

Em entrevista, o assessor técnico da AS-PTA Agricultura Familiar e Agroecologia, Gabriel Fernandes, aponta as falhas na liberação de sementes transgênicas no Brasil e os problemas de seu uso indiscriminado. Apesar das polêmicas em torno do tema, segundo o assessor, somente entre 2008 e 2011 foram liberados 29 tipos de sementes transgênicas, entre soja, milho e algodão, e o feijão é o próximo alvo. Para piorar, o uso dos trangênicos avança em parceira com o aumento do uso de agrotóxicos nas lavouras. Confira a entrevista:

Por Paula Salati

Caros Amigos - Foram apontadas irregularidades e erros no estudo da Embrapa sobre o feijão transgênico 5.1. Gostaria que comentasse um pouco sobre as falhas encontradas no estudo.

Gabriel Fernandes - Foram apontados dois tipos de problemas: estudos não realizados e estudos de consistência duvidosa. Os testes de campo foram feitos em apenas três localidades (Londrina-PR, Sete Lagoas-MG e Santo Antônio de Goias-GO), enquanto a lei exige que sejam gerados dados em todas as regiões onde a nova semente poderá vir a ser plantada. Ou seja, as informações disponíveis são insuficientes em termos nacionais. Nenhum estudo ambiental foi feito no Nordeste, que responde por cerca de 25% da produção nacional de feijão.

Não foram feitos ensaios alimentares com animais prenhes nem ao longo de duas gerações, também requisitados por lei. Sem isso não se pode ter indicativos do risco potencial de médio e longo prazo decorrente da ingestão continuada desse produto. Lembremos que o brasileiro consome em média 9 kg de feijão por ano.

Um dos membros da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança apresentou parecer criticando a fragilidade dos dados da Embrapa, com destaque para a avaliação de segurança alimentar. De 10 ratos que fizeram parte de um experimento, apenas 3 foram testados, todos machos e antes de atingirem idade reprodutiva, quando há grandes mudanças hormonais. Mesmo assim foram observadas diferenças em relação aos que consumiram feijão comum, como maior tamanho das vilosidades do intestino delgado. Observou-se ainda diminuição do tamanho dos rins e aumento no peso do fígado dos animais alimentados com o feijoeiro 5.1. São dados que sugeririam ao menos a repetição dos ensaios. Cabe perguntar qual revista científica aceitaria publicar estudo feito com uma amostra que sequer permite análise estatística. Mesmo assim o parecer crítico foi derrotado.

Além disso, pesquisadores independentes da Universidade Federal de Santa Catarina criticaram o fato de dados indispensáveis à análise de risco do produto terem sido mantidos sob sigilo.

Caros Amigos - Como avalia a votação da liberação do feijão transgênico pela CTNBio no Brasil? Há pressões econômicas envolvidas? Confira na íntegra:

Caros Amigos

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A paixão literária de Laiza Lorenz



Sentinela – Antonio Nelson*





O prazer de “degustar” livros está entre os principais hábitos que Laiza Lorenz Moreira, 27 anos, graduanda em Administração de Empresas pela FSBA (Faculdade Social da Bahia), não hesita em compartilhar nas suas relações interpessoais. Laiza indica a leitura do livro:

E se Obama fosse africano? ensaios - por Mia Couto.

Laiza assevera que está saboreando a obra, e inspirada na música Reconvexo, na voz de Maria Bethânia, declara: “A Bahia é a Roma Negra”.





*Foto - (livro de Laiza): Antonio Nelson

Porto da Barra por Inaiá Lua



Porto da Barra, cidade do Salvador/Bahia.


Confira a produção da fotojornalista no Flickr: Inaiá Lua.

sábado, 22 de outubro de 2011

Globo, Record e o comércio de fluidos e secreções

TELEANÁLISE


Sentinela - Malu Fontes*



Recentemente, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse em público aquilo que muitas autoridades e poderosos vivem dizendo longe das câmeras e microfones. Referindo-se a matérias feitas pela Rede Record sobre acusações contra ele, Teixeira disse à entrevistadora, na revista Piauí, algo do tipo: “só vou ficar preocupado, ‘meu amor’, quando sair no Jornal Nacional”. No início da última semana, a Folha de S. Paulo, referindo-se à forma como a emissora dos irmãos Marinho está se comportando em relação aos jogos Pan-Americanos, fez uma pergunta que tem tudo a ver com a resposta de Teixeira: se uma árvore cai na floresta e a Globo não mostra, será que ela caiu? E se a principal rede de televisão do país dá mais espaço para a Stock Car e o showbol é porque esses "esportes" são mais importantes que o Pan?

O fato de a Rede Record deter os direitos de transmissão dos jogos e o modo como a Globo vem se referindo ao evento diz muito sobre o que leva o jornalismo e o telejornalismo a dar um maior, menor ou nenhum destaque à cobertura de um determinado assunto. Não, não é o interesse público e nem mesmo o interesse ‘do’ público que leva uma emissora a centrar fogo na cobertura de um assunto. É, e sempre será, é bom acostumar-se, o interesse comercial da emissora. Como não tem os direitos de transmissão do Pan, a Globo praticamente o ignora.

PRINCÍPIOS EDITORIAIS - A Controle da Concorrência, que monitora as inserções publicitárias em todas as emissoras, informa que no primeiro dia das competições do Pan a Globo deu ao evento apenas 28 segundos, somando o tempo usado para falar dos jogos em todos os programas jornalísticos da emissora. Em 2007, quando detinha os direitos de transmissão, a Globo dedicou nada menos que uma hora e 38 minutos no primeiro dia, somando o tempo dado em todos os seus noticiários. Os jogos são os mesmos, as medalhas e as derrotas para os atletas brasileiros continuam tendo o mesmo peso de sucesso e fracasso. O que mudou? Mudou apenas o dono do cofre onde caem as moedas advindas da venda das cotas publicitárias de patrocínio da transmissão do Pan. Se é a Record quem lucra com o evento, a Globo praticamente o ignora como fato.

Sim, só episódios assim para mostrar que não passa de mero efeito de merchandising de umbigo todo o barulho feito pela Globo para divulgar os Princípios Editoriais das Organizações homônimas, segundo os quais “jornalismo é o conjunto de atividades que, seguindo certas regras e princípios, produz um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas. Qualquer fato e qualquer pessoa”. O diabo se esconde é no que a linha editorial das organizações deve considerar como sinônimo de ‘certas regras’ e de ‘qualquer fato’. Pelo jeito como a TV Globo se comportou durante a semana, os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara estão abaixo da categoria de ‘qualquer fato’ e muitos dos atletas brasileiros na competição estão abaixo de ‘qualquer pessoa’. A detenção dos direitos pela Record e a indiferença indisfarçada da Globo diante do Pan já levou as duas a trocarem sopapos verbais não apenas nos bastidores do jornalismo, pois não é do feitio da emissora do bispo falar da concorrente pelas costas. Fala e praticamente ameaça de processo diretamente da bancada dos seus telejornais.

PELEJA E PUS - A versão da Record é a de que, assim que comprou os direitos de transmissão do Pan, enviou a todas as concorrentes brasileiras, conforme determinam as regras internacionais de cessão de direitos de uso de imagens, um termo disponibilizando dois minutos diários dos jogos, o mesmo comportamento, diga-se, que a Globo adota nos eventos que são de transmissão exclusiva dela. Ainda segundo a Record, SBT, Rede TV!, Cultura, Gazeta, TV Brasil, Band Sports e Band News assinaram o documento. Sportv, ESPN e Band não responderam e a Globo respondeu que não tinha interesse. Nesse contexto, as imagens que todas as emissoras signatárias do documento veiculassem deveriam, obrigatoriamente, ser creditadas à Record, com a exibição na tela do logo colorido da emissora. Sim, o Jornal Nacional exibiu imagens sem o logo e deu-se a guerra. A Globo argumenta que recebeu as imagens de uma agência internacional da qual é cliente. A Record diz que é mentira e o bate-boca continua. O fato, no entanto, é que, com Pan ou sem Pan, a Globo não perdeu audiência e manteve-se na liderança.

Não deixa de ser interessante para o telespectador mais astuto descobrir que mais importante do que a notícia é o interesse publicitário em jogo por parte das emissoras de TV. Mas por isso não se arregala mais os olhos nem se perde o sono, sobretudo numa semana em que o assunto que mais marcou o telejornalismo nacional, além de mais um escândalo envolvendo um ministro, foi um espasmo literal de nojo, diante do qual a peleja Globo-Record é assunto de luxo de comadres. O que a televisão trouxe de novo durante a semana foi a consciência nacional de que o Brasil, por livre e espontânea vontade, se transformou em mercado para um tipo de comércio deplorável: o país é a praça emergente da compra e venda de fluidos e secreções de lixo hospitalar. Sim, o Brasil Já pode se anunciar como o país que compra sangue, pus, secreções e dejetos. Não demora e aparece algum defensor da tese de que tal prática merece elogios, por representar uma vanguardista estratégia criativa do brasileiro em favor da causa da reciclagem, tão em moda nos discursos dos antenados.


*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Conversa Fiada com Paulo Henrique Amorim

Escute a entrevista exclusiva do jornalista Paulo Henrique Amorim ao Programa Conversa Fiada, apresentado por Gil Dillon na Rádio Sociedade da Bahia. PHA respondeu ao Gil sobre família, Rio de Janeiro, infância, sexo, o primeiro beijo, como nasceu o "Olá, tudo bem"; Rede Globo, o prazer de ser repórter, Tom Jobim, mercado de trabalho, jornalistas de mercado, Daniel Dantas, diploma de jornalista, Wikileaks, revista Veja etc. Confira tudo abaixo na íntegra:




















Conversa Fiada, 24 de dezembro de 2010.

Produção e Foto:
Antonio Nelson.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Redes e ruas

TELEANÁLISE

*Sentinela - Malu Fontes*


As marchas e os protestos estão na ordem do dia em diversos países do mundo, do Oriente Médio aos quintais brasileiros, mesmo que, entre si, guardem diferenças motivacionais e de escala e etmologia abissais. Antes, muito antes, que o telejornalismo internacional corresse com suas câmeras para mostrar ao mundo o povo revolvendo-se nas ruas contra as décadas de ditadura no Egito e na Tunísia, por exemplo, no início deste ano, outra esfera midiática, as redes sociais, como o Twitter e o Facebook, e dispositivos móveis como os smartphones e os tablets, já haviam se tornado os protagonistas da chamada Primavera Árabe.

Protestos de pessoas nas ruas, longe de serem tímidos ou tranquilos, também foram registrados nas redes sociais na Espanha, um dos primeiros países da Europa cuja população esperneou contra a crise econômica e o consequente desemprego. Como aconteceu no mundo Árabe, na Grécia e viria a acontecer depois nos tumultos nas ruas de Londres, os manifestantes espanhóis utilizaram toda a potencialidade das redes sociais para amplificar os ecos das queixas contra o poder instituído ou o estado de coisas que contestavam. As estratégias de repercussão nas redes não se equivalem aos métodos correntes de uso dos meios de comunicação convencionais, como se dá, por exemplo, com os movimentos sociais que lançam mão de assessorias de imprensa e envios de releases para as redações da imprensa tradicional para divulgar suas causas e reivindicações.

O tipo de ampliação que as redes sociais causam nas vozes dos movimentos sociais e acabam por convocar a mídia tradicional é de um tipo ainda difícil de diagnosticar por parte de uma geração que se formou analisando o mundo a partir do que diziam os meios de comunicação. A circulação das informações e imagens se dá de modo anárquico, disperso, não hierarquizado, sem um epicentro publicizador de dados e de modo incontrolável, para desespero por parte dos poderosos a quem o movimento incomoda, sejam eles os ditadores egípcios ou os democráticos componentes do parlamento inglês.

WOODSTOCK - O ano de 2011 tem sido pródigo em eventos desta natureza. O evento bombado da vez, com todos esses contornos, é o "Occupy Wall Street", uma espécie de Woodstock da segunda década dos anos 2000, só que geograficamente fincado no coração financeiro dos Estados Unidos, Wall Street, em Nova York, e publicizado (e potencializado) pelas redes sociais, blogs e todos os dispositivos a serviço da mobilidade e da informação em rede. Já são milhares de pessoas envolvidas, de diferentes nichos ideológicos e de mobilização, tendo em comum apenas (como se fosse pouco) a vontade de cuspir contra o sistema financeiro dos Estados Unidos, a quem é atribuída a responsabilidade pela escala estratosférica da crise que desde 2008 vem ameaçando a estabilidade econômica do país mais poderoso do mundo.

Somente após as redes sociais já terem se tornado o mural de registro e convocação das manifestações e protestos que, em poucos dias, já saíram de Nova York e chegaram a outras cidades dos Estados Unidos, como San Francisco, Boston e até Washington, é que as emissoras de TV e a imprensa se deram conta do tamanho do imbróglio. Vale dizer que enquanto o tipo de repercussão do "Occupy" nas redes sociais se dá sob toda a sorte de diversidade de registros, nos telejornais do mundo, e nos brasileiros não tem sido diferente, aos manifestantes sempre é colada uma espécie de aura que os enquadra muito mais como web hippies, maconheiros pós-tudo, anarquistas sem bandeiras e porra-loucas maníacos por tecnologia do que como cidadãos contra um modelo econômico que empobreceu milhões de pessoas e saiu ileso, com os bolsos abarrotados de dinheiro. Para entender melhor quem são as pessoas contra quem os manifestantes do "Occupy Wall Street" vomitam, basta ver o documentário Inside Jobs, uma espécie de "tudo o que você queria saber sobre a crise da economia dos Estados Unidos e não tinha a quem perguntar".

TOCA RAUL
- O fato é que, com a potencialidade de amplificação das redes sociais, a imprensa convencional, torcendo o nariz ou com câmeras sorridentes, está, sim, sendo obrigada, como se diz na Bahia, a correr atrás do prejuízo. Um outro aspecto que tem deixado o telejornalismo tonto, mais do que a imprensa escrita, pela escassez maior de possibilidades e estratégias de aprofundamento permitidos pelo modelo de produção do telejornalismo, é a indisfarçável falta de arejamento que a TV tem para abordar, no Século XXI, os significados de ideologia e política. Quando a manifestação é contra um ditador há três décadas, no Egito ou na Líbia, é um movimento político e todo santo âncora de telejornal concorda com isso.

No entanto, se são jovens londrinos barbarizando contra estabelecimentos comerciais para arrancar de lá produtos de consumo nada para matar a fome, pois não têm fome nem estão submetidos a uma ditadura política, aí, então, claro que não há nada a ver com política. Claro, todos concordam que se trata de vandalismo puro e simples, o que leva o telespectador do mundo jamais contestar o desejo manifesto do Primeiro Ministro inglês: controlar o acesso às redes sociais para impedir a organização de manifestações dos garotos-problema. Milhares de manifestantes com tablets e smarthphones nas mãos acampados em Wall Street? Ora, não passam de hippies anarquistas moderninhos que confundem militância política com cliques na web. Está na hora de a velha TV repensar seus conceitos sobre o significado das práticas e ações políticas do lado de cá da tela. Está aí uma geração que parece ter aprendido a transitar entre as redes e as ruas sem passar pelo canal informativo representado por uma televisão que sempre tem uma velha opinião formada sobre tudo. Sim, "Toca Raul" pode ser uma ação política. Por que não? Depende de contra quem se grita.


*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com

Os artigos assinados não representam necessáriamente a opinião do Sentinelas da Liberdade. São da inteira responsabilidade dos signatários. Sentinelas da Liberdade é uma tribuna livre, acessível a todos os interessados.