domingo, 13 de setembro de 2009

Yes, We Can

TELEANÁLISE

Sentinela - Malu Fontes*

Sim, nós podemos. Podemos, aqui, promover e assistir barbáries iguaizinhas às das grandes metrópoles. Como se espera do caos quando o ordenamento social não contempla as demandas que explodem aqui e acolá, as cenas que há duas semanas impuseram-se nas ruas de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, ganharam versão local desde o fim de semana, em bairros da periferia e do centro de Salvador. Ônibus queimados, módulos policiais bombardeados e policiais atacados foram o contraponto dissonante para a Bahia festeira que já começava a sacolejar-se sob o som dos tambores do Olodum e da animação de Galvão Bueno diante da presença da seleção brasileira de futebol na cidade.

O roteiro das cenas daqui parece ter pontos ainda mais negativos. Afinal, os incêndios e quebra-quebras paulistanos alegavam como motivo o assassinato real, pela Polícia, de uma estudante inocente, que deixou órfã uma filha. Aqui, o motivo, real ou não (dificilmente se saberá), teria sido a transferência de um traficante de uma prisão de Salvador para um presídio federal de segurança máxima, no Mato Grosso do Sul. A Secretaria de Segurança Pública anunciou imediatamente que a ação criminosa era uma manifestação dos bandidos reagindo à eficiência e ao combate da Polícia ao tráfico. As imagens de um cobrador de ônibus com os braços completamente queimados são, no entanto, difíceis de serem digeridas como tradução de qualquer forma de eficiência.

MALAS - Mas, enquanto as imagens e manchetes dos jornais impressos de Salvador exibiam cenários do inferno, acessíveis na Internet desde as primeiras horas da manhã de terça-feira, o telejornal de maior audiência da cidade, quem sabe numa tentativa de adotar a filosofia de não falar logo da morte do gato, mas da subida ao telhado, abriu sua edição com um tipo de informação sem a qual o telespectador que gosta de informação não poderia viver. A notícia de abertura do Jornal da Manhã (TV Bahia/Globo) foi nada menos que as centenas de pessoas de caras amassadas, despenteadas e sonolentas que desembarcavam na Rodoviária após o feriado.

Ante a comparação entre a relevância das manchetes disponíveis na Internet e a da interminavelmente longa matéria na TV sobre o retorno do feriado, o telespectador não poderia se furtar a uma pergunta impossível de ser respondida com os substantivos e adjetivos que merece: o que vai pela cabeça de um profissional de comunicação, responsável pela pauta do primeiro telejornal do dia da emissora de maior audiência da terceira capital do país, quando, numa cidade em clima de convulsão social, exporta uma repórter para a Rodoviária para ouvir trocentas pessoas que não têm nada a dizer sobre coisa alguma? Em determinado ponto das entrevistas, todas feitas à queima-roupa, quando o povo descia dos ônibus, configurou-se ainda mais nítido o pesadelo telejornalístico matinal oco. A repórter queria porque queria saber por que as pessoas desembarcavam com ‘tantas malas de uma viagem de apenas três dias’.

GALOS - Como o dia não estava mesmo para acerto profissional, o azar predominou nas entrevistas. Nove entre 10 dos entrevistados encurralados com câmera, luz, microfone, e até a mão da repórter, não estavam retornando de feriado algum. Havia quem vinha a Salvador para o jogo do Brasil e o mais comum e que só a TV não sabe: inúmeras pessoas que, sem estrutura de assistência médica em seus municípios, vêm para a capital de ônibus em busca de tratamento médico eletivo. O ministro Gilmar Mendes, se tiver pensado, além do cozinheiro, do açougueiro e outros eiros, em exemplos jornalísticos desse quilate, talvez tenha sido sensato quando julgou por bem atirar o diploma de jornalista na lata do lixo. Pior que isso, só mesmo ganhar a vida profissional como jornalista estimulando brigas estúpidas de vizinhos pobres em quadros de telejornais populares. Ou alguém é cara de pau o suficiente para justificar como o argumento do interesse público a transmissão televisiva quase cotidiana de briga de vizinhos de periferia? Por que não vão aos edifícios de luxo da Vitória, do Horto, do Itaigara e bairros afins fazer matérias sobre os barracos causados por madames e senhores que não pagam o condomínio há anos ou ignoram vazamentos sobre o apartamento de baixo? Considerando-se a viralatice desse tipo de jornalismo, não passariam sequer perto dos portões de entrada. Mostrar marias das couves desdentadas e descabeladas brigando no quintal é coisa bem pior que colocar cachorros ou galos de briga para se estropiarem. E não custa lembrar que, por promover briga de galo, o premiado, poderoso e milionário Duda Mendonça acabou preso. E para quem promove briga de desdentadas, nada?

Yes, we can. Podemos, em Salvador, afundar mais na lama, tanto vendo surtos de convulsão social, supostamente promovidos pelo banditismo por causa de um traficante grandão exportado para a cadeia de outro estado, como nos assombrar vendo, em um dia absurdamente incomum para a rotina social da cidade, que os pauteiros da principal emissora de TV consideram que o telespectador tenha interesse em saber que diabos uma senhorinha que cruza o estado em busca de uma consulta médica tanto carrega em sua malinha.

*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 13 de Setembro de 2009. maluzes@gmail.com

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Imprensa negra na Bahia

Sentinela - Luis Guilherme Pontes Tavares*

Um dos méritos do livro As associações dos homens de cor e a imprensa negra paulista. Movimentos negros, cultura e política no Brasil republicano (1915 a 1945), do professor doutor Antônio Liberac Cardoso Simões Pires, é a fidelidade aos fatos. Trata-se de uma publicação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros do Tocantins – Neab – da Fundação Universidade Federal do Tocantis lançada em 2006. O professor Liberac, como ele é mais conhecido, informa, por exemplo, que os movimentos negros no Brasil continuam sem a relevância pretendida porque falta união entre os militantes.

O autor, agora professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB – em Cachoeira, encerra o livro com estas recomendações: “Necessitamos entender melhor as relações nacionais e internacionais entre grupos de negros; desenvolver pesquisas comparativas entre os países da diáspora negra nas Américas; procurar de descobrir as relações entre os movimentos negros brasileiros e os norte-americanos na primeira metade do século XX para entender as possíveis influências das experiências das associações de homens de cor nas lutas pelos direitos civis dos negros norte-americanos na segunda metade do século XX”.

O professor Liberac conclui, após as considerações acima, com a seguinte reflexão: “Talvez possamos responder também o porquê de não conseguirmos unificar os movimentos negros na diáspora, em defesa dos negros cubanos que vivem os efeitos sociais das lutas políticas. Enfim, acredito que o entendimento de como se deram os processos históricos envolvendo indivíduos pertencentes a um conjunto de comunidades negras da diáspora africana vai nos ajudar a organizar uma agenda comum contra a descriminação racial nas Américas”.

O livro do professor Liberac foi sugerido pela historiadora Wlamyra Alburquerque, autora de O jogo da dissimulação (São Paulo: Cia. Das Letras, 2009) devido o interesse que demonstramos a respeito da imprensa negra, em especial da imprensa negra na Bahia. Esse interesse tem relação com o nosso compromisso com o estudo da história da imprensa baiana, que vejo aumentar desde 1988. O livro do professor Liberac examina alguns títulos de periódicos da imprensa negra paulista da primeira metade do século XX.

Sobre a imprensa negra baiana, por sua vez, desconhece-se qualquer trabalho a respeito. Sequer há um trabalho famoso sobre a imprensa abolicionista baiana. De modo que enxergo a profunda pobreza bibliográfica sobre o tema, e, porque a diminui, louve-se o esforço do Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia – Nehib –, sobretudo pela Coleção Cipriano Barata, iniciada em 2005, de natureza interinstitucional e dedicada a estudos sobre a imprensa baiana, cuja logomarca já figura em seis volumes.1

A propósito da imprensa negra na Bahia há, em gestação, a montagem de evento que será realizado em 2010, como parte da programação dos 80 anos da Associação Bahiana de Imprensa – ABI –. Além do professor Liberac, serão convidados o professor Sílvio Roberto Oliveira, da Uneb, cujos estudos sobre o poeta e jornalista Luiz Gama (1830-1882) tornam mais claras as contribuições desse baiano às letras nacionais; o empresário André Nascimento e os jornalistas Ana Alakija e Luis Augusto Santos (L.A.), que estiveram juntos na condução e realização do jornal Afro-Brasil, que circulou na década de 1980 em Salvador; a professora Ana Célia Silva, da Uneb, que estudou e continua estudando o preconceito entranhado nos livros didáticos brasileiros; o professor Jayme Sodré, colaborador de A Tarde e dedicado às pesquisas sobre a cultura afro-brasileira, dentre outros. Será sentida a ausência de Jonathas Nascimento, morto recentemente, cujo depoimento sobre o Boletim do MNU (Movimento Negro Unificado) seria valioso e, portanto, indispensável.

No primeiro semestre deste ano, no Centro Universitário da Bahia-FIB/Estácio, a imprensa negra da Bahia foi o tema da disciplina Tópicos Especiais em Jornalismo e a oportunidade se constituiu em ensaio do que poderá ser o evento do próximo ano na ABI. A iniciativa teve o duplo propósito de introduzir na turma a discussão sobre a imprensa negra e animá-la – e aos demais alunos concluintes – a eleger o tema como objeto do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.

O desafio está lançado.

* Jornalista, produtor editorial e professor universitário. lulapt@svn.com.br

1 Apontamentos para a história da imprensa na Bahia (Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2005); A primeira gazeta da Bahia: Idade d'Ouro do Brazil, de Maria Beatriz Nizza da Silva (2. ed. Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembléia Legislativa do Estado da Bahia; Editora da Universidade Federal da Bahia, 2005); ARTHUR AREZIO DA FONSECA, de LUIS GUILHERME PONTES (Salvador: Egba, 2005); Anais da imprensa da Bahia, de João Nepomuceno Torres e Alfredo de Carvalho (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2006); Apontamentos para a história da imprensa da Bahia (2. ed. Salvador: Egba, 2007) e Memória da imprensa contemporânea da Bahia, organizado por Sérgio Mattos (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2008).

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O fio e o poder da TV

TELEANÁLISE


*Sentinela - Malu Fontes

Nas duas últimas semanas, não apenas os telespectadores dos programas populares, mas também leitores de jornais, sites e blogs de Salvador, tiveram sua atenção voltada para um episódio insólito e tradutor da falta de sentido de polêmicas tão fabricadas quanto vulgares. O centro das atenções foi a professora do ensino infantil cujas imagens, encenando uma coreografia que, na melhor das hipóteses, pode ser descrita como masturbação anal, mediante o puxa e repuxa de uma calcinha fio dental, foram capturadas por câmaras de celulares em um show de pagode. Nas cenas, que como quaisquer imagens nos dias atuais foram parar no YouTube, a professora está sobre um palco, diante de centenas de pessoas, co-estrelando a coreografia nada inocente, ao lado do vocalista de um grupo de pagode cujos hits mais apreciados por seu público contêm refrões do quilate de ‘a piriguete anda com o fio só todo enfiado’ e ‘eu quero tudo até o talo’.

A moça, alguns dias após a participação no show que culminou com a postagem das imagens na Internet, acabou tendo que abrir mão do emprego em uma escola privada de pequeno porte. Segundo o dono do estabelecimento, a demissão se deu mediante um acordo amigável, fato ocorrido há mais de um mês, sem qualquer repercussão imediata. Entretanto, de repente, quando as tais imagens já circulavam na Internet há tempos, o assunto, sabe-se lá pela mão de quem, chegou às primeiras páginas dos jornais e tornou-se pauta bate-estaca no programas populares de TV. O show grotesco foi completo e continua em cartaz, com direito à moça, agora guindada à categoria de celebridade instantânea, desembarcando na porta de estúdios de TV enrolada na bandeira brasileira.

(AB)USO - A polêmica em torno do assunto não poderia ser mais tosca. De um lado, apresentadores de TV bancando os amiguinhos da moça, manifestam solidariedade e argumentam, hipocritamente, que ninguém tem nada a ver com o que uma professora faz ou deixa de fazer em suas horas de lazer e diversão, em sua vida privada. Dizem que a moça é vítima da exploração de sua imagem, que estava apenas divertindo-se e que demiti-la é uma manifestação pseudo-moralista.

Enquanto a defendem, claro, tais apresentadores e seus repórteres repetem e repetem as cenas extraídas da Internet, promovendo, assim, por vias nem um pouco subliminares, mais e mais o desgaste e a vulgarização da imagem e da identidade daquela que contraditoriamente consideram vítima. Ela, por sua vez, diante do limão, já ensaia a limonada: anuncia processo judicial indenizatório contra o YouTube, alegando (ab)uso indevido e veiculação não autorizada de sua imagem. Embora ainda meio desconcertada, já insinua considerar convites para ‘dançar’ ou posar sem roupa. Especula-se, inclusive, a sua participação em atrações televisiva locais e nacionais de temáticas que têm com o repertório imagético e musical que a trouxe para a boca da cena televisiva uma afinidade do tipo a mão e

PROFUNDIDADE - A primeira aparição pública da professora em grande foi a ida a um estádio de futebol no último final de semana, para experimentar, sem filtros, a fama instantânea. Diz-se que a experiência não foi das mais agradáveis. Quem estava lá e não é surdo pôde ouvir palavrões e níveis abissais de manifestações misóginas dirigidos à estrela da hora. O repertório usado pelos fãs recém-conquistados tem tudo a ver com a natureza da performance que a promoveu ao mundo das celebridades de terceira linha.

Um outro segmento do ‘seu público’, o que insiste na tese que a demissão da escola é um ato de falso moralismo, é bom também não perder de vista que algumas profissões e carreiras exigem, sim, a manutenção pública de comportamentos um tantinho mais cuidadosos. Do mesmo modo que em sociedade alguma será considerado natural que juízes, independentemente de serem homens ou mulheres, sejam vistos enchendo a cara em bares e casas noturnas em seus horários de lazer, não há papai nem mamãe que ache engraçadinho o fato de a professora de seus pimpolhos aprendendo a ler suba a um palco após uns goros, deixe um vocalista enfiar a mão sob sua roupa, tocando eroticamente a bunda e puxando e esticando de lá, tal qual faria com uma borracha de estilingue, o fio dental de calcinha durante uma coreografia, Dezenas de donos de celulares com câmeras ficaram a postos e disponibilizaram as imagens na rede mundial de computadores.

Parte do público subestima o poder, não exatamente para o bem, da televisão. Ao lançar mão de uma imagem real e usá-la para falar da falsa moralidade de quem condena a professora por divertir-se encenando em seu corpo o ato ‘todo enfiado’, o que a TV quer e faz é potencializar o escândalo e exacerbar a condenação moral da moça ao repetir sua imagem. Quando quer, o veículo faz as vezes de juiz e polícia. Que o diga Belchior. Embora seja um direito de qualquer pessoa sumir no mundo, se assim o quiser, deixando tudo para trás, o Fantástico se imbuiu do poder de caçá-lo como um criminoso, um foragido da polícia (o que não era), até achá-lo e exibi-lo ridicularizado e sem privacidade. A profundidade com que a TV entra na vida de quem ela transforma em personagem e o arranha é compatível com a mesma com o que o fio da roupa íntima arranhou a professora.

*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 06 de Setembro de 2009. maluzes@gmail.com

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Novas tendências do Jornalismo: bate-papo com Bella Palomo


Maísa Carvalho Amaral e Antonio Nelson*



Com a crise econômica mundial, apostar no novo e até mesmo no desconhecido tem sido uma das ferramentas fundamentais para driblar as consequências que a mesma vem causando no setor de Comunicação, principalmente quando se trata de jornal impresso. A professora, doutora da Universidade de Málaga-Espanha, Bella Palomo, em passagem por Salvador-Ba, trouxe exemplos de alguns modelos de inovações, utilizados na Europa, que estão sendo aplicados pela impressa, com intuito de superar a crise. A internet está sendo a chave mestra através de sites, blogs, twiter, entre outros.



No Brasil, não diferente dos demais países, o papel está sendo um dos rivais dos jornais impressos, pois teve um grande aumento, o que acarretou em demissões maciças e fechamentos de jornais que não tiveram condições de arcar com os gastos. De acordo com a professora, na Espanha não foi diferente. “Muitos jornalistas foram demitidos e o jornal impresso foi bastante abalado”.



O acesso a internet na Europa é realizado de forma democrática, o que possibilita a todos a conectividade com o meio digital. “O acesso é facilitado pela aquisição de computador. Um estudante, por exemplo, pode comprar um bom computador e pagar em cinco anos com prestações mensais de R$ 50. Esse valor possibilita que o mesmo possa adquiri também impressora, wi-fi, pode também comprar outros utensílios. Beneficia também outras pessoas e as empresas”, destaca Palomo.



Quando o assunto é a possibilidade de um dia os jornais impressos serem distribuídos gratuitamente, como já ocorre em alguns países, Palomo enfatiza que “na Espanha já temos alguns jornais distribuídos gratuitamente. A falta de publicidade é um elemento que contribui para isso. Nesse momento, os jornais impressos estão em estado de fracasso.”



A substituição dos jornais impressos pelo digital vem ganhando espaço, de acordo com a professora, pois o limite de páginas deixa de existir. “Já temos experiências desse tipo em alguns lugares, como nos Estados Unidos. Um sistema que vem sendo adotado por algumas empresas para conseguir superar a crise financeira. Acredito que a Espanha siga o mesmo caminho. Com certeza será uma tendência mundial explorar o meio digital.”



Ao ser questionada se a internet seria a salvação para o Jornalismo, ela salientou que “não seria a salvação. O que é necessário é modificar, inovar. A internet é uma das formas de fazer o Jornalismo, mas não a solução para todos os problemas da área.”


*Maísa Carvalho Amaral e Antonio Nelson Lopes Pereira são da equipe do Sentinelas da Liberdade.
Megapixels: Antonio Nelson

sábado, 5 de setembro de 2009

Pré-macacos e bobalhões alegres

Coluna Retratos do Brasil: Sentinela - Luiz Eladio Humbert*

O festival de besteira e o festival de sujeira que assolam o país são promovidos por duas espécies muito peculiares do gênero humano, cuja natureza específica é vir ao mundo para sujá-lo e corrompê-lo: os pré-macacos e os bobalhões alegres, ambos subprodutos do capitalismo.

Bobalhões alegres são pessoas cheias de si mesmas, que se imaginam os instruídos donos da verdade e inatingíveis beneficiários da impunidade. Essa categoria social tem forte atração pela política e pelo meio empresarial.

Bobalhões alegres, comedores das migalhas do banquete dos ricos, e muitos deles também se achando ricos, porque, eventualmente, também superfaturam bens e serviços para o governo, costumam estufar o peito e propalar a supremacia brasileira no que se refere ao clima, recursos naturais, extensão territorial, para concluir que se em vez desse bando de mestiço preguiçoso, fosse o país livre do MST e povoado por japoneses, chineses, alemães e americanos, o Brasil seria a maior potência econômica e militar do planeta.

Um belo dia de festa, um desses bobalhões alegres aproximou-se de Ariano Suassuna, pavoneou-se ajustando a gravata, e disparou essa diatribe ao povo brasileiro. O mestre então perguntou ao ilustre interlocutor qual o povo no mundo que consegue, com tamanha coragem e dignidade, enfrentar e sobreviver às secas, às enchentes, à total falta de recursos, desassistidos pelo Estado, iludido, humilhado e explorado por políticos, e apesar de tudo isso, ser capaz de criar a arte pujante que o povo brasileiro produz.

Prosseguindo nas suas considerações sobre a realidade brasileira, o mestre Suassuna indagou: que arte a elite brasileira cria? Que produtos, que patentes, que tecnologia, que pesquisa ou trabalho acadêmico relevante a classe dominante, a conservadora elite econômica e social do Brasil foi capaz de oferecer ao mundo, desde 1500?

Na ausência de resposta, o mestre Suassuna concluiu: a nossa miséria se deve às elites, meu filho, aos bobalhões alegres, e não ao povo brasileiro.

Como sabemos, os donos do mundo, num encontro dos superbilionários bobos e alegres mundiais, ocorrido na Califórnia, no final do século passado, compreenderam que apenas 20% da população do planeta é bastante para produzir tudo que esses 20% necessitam para viver com luxo e conforto.

Consequentemente, os 80% restantes estão implícita ou explicitamente excluídos da sociedade capitalista. Porém todos esses excluídos consentem em ser excluído e espoliado e muitos deles votam nos representantes das classes dominantes, que são vendidos aos tolos como produtos de consumo, em caríssimas campanhas publicitárias, com logomarcas, jingles, e tudo mais, para compor o teatro da democracia do neoliberalismo.

Pré-macacos, os explicitamente excluídos, frutos de toda sociedade injusta e desigual, são isso que podemos chamar de xereré de gafieira, de resto de fim de feira, de pau queimado de fogueira. Estão alojados no subsolo da exclusão social, vivendo de biscate, ou de pequenos furtos, habitando o lixo com os ratos e as baratas, apanhando indiscriminadamente da polícia, acumulando revolta e votando em político safado, em troca de um par de chinelo.

Chamá-los de macacos seria ofender os primatas, que não mijam, nem cagam no caminho por onde andam, como fazem os pré-macacos, e também é bom lembrar que macacos não votam.

Todos, os instruídos, os quase instruídos e mesmo aqueles sem instrução sabem que duas máfias poderosas comandam as prefeituras das grandes cidades, concorrendo com as demais variantes do crime organizado, que manda e desmanda no país: as máfias do transporte coletivo de passageiros e a da coleta de lixo urbano.

Elas elegem representantes no parlamento, remuneram formadores de opinião, e matam prefeitos não alinhados. Todos sabemos, menos os bobalhões alegres que elegemos, que essas máfias superfaturam tarifas e serviços e, ainda por cima, cantam miséria, exigindo mais subsídio do governo.

Por essa razão, até hoje, os meios urbanos de transporte coletivo são mais miseráveis do que os caminhões de transporte de gado e ainda não possuem memória fiscal nas catracas. Assim, fica fácil desviar receita para o caixa dois, em contas bancárias de laranjas, e violar o artigo primeiro do Estatuto do Idoso, que define idoso como pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.

Sou um idoso legal, ando de ônibus e, na minha idade, não me conformo em ainda ter que pagar muito caro para usar esses paus-de-arara.

Enquanto os bobalhões alegres fingem que governam, os pré-macacos sujam a cidade.

* Luiz Eladio Humbert (lalado) é colunista do Sentinelas da Liberdade.
Os artigos assinados não represemtam necessáriamente a opinião do Sentinelas da Liberdade. São da inteira responsabilidade dos signatários. Sentinelas da Liberdade é uma tribuna livre, acessível a todos os interessados.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Entrevista: Francisco Karam Fala sobre Ética Jornalística


Antonio Nelson, Luiz Eladio e Maísa Amaral*



O jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Dr. Francisco José Castilhos Karam, falou com exclusividade sobre a Ética Jornalística Brasileira e os veículos de comunicação digital, para o Sentinelas da Liberdade. Confira a entrevista:

Maísa Amaral - Sob o olhar da ética até que ponto o jornalismo contribui para a memória social?

Francisco Karam – Se ele cumprir os determinados princípios dos quais ele se avora, como o da transparência ao ambiente público, aos poderes e aos diversos campos do saber, ele contribui de forma continuada para o registro do presente, logo tem algum grau de contribuição para a memória social. Tanto que a própria história, seguidamente, pesquisa nos arquivos jornalísticos para suas críticas em relação a eventuais eventos, mas também acaba validando o jornalismo como uma referência para a memória do presente. Por isso que o jornalismo tem tanto compromisso com a diversidade, com os diferentes atores. Ele pode contribuir para memória, mas depende se ele é bem feito e se cumpri o ideal da igualdade.

Antonio Nelson - Como o senhor avalia o jornalismo baiano?

Francisco karam – Eu não tenho acompanhado o jornalismo baiano, mas acredito que deve seguir o padrão geral do jornalismo brasileiro, que tenta ser profissional, mas que ao mesmo tempo tem certo tipo de constrangimento, de ordens interacional, biológica, política, isso voltado para a imprensa de mais referência, mais pública.A

Maísa Amaral- Quais as posturas mais antiéticas cometidas pelas grandes empresas de comunicação brasileira com relação ao profissional e a veiculação da informação?

Francisco Karam - Acredito que os grandes deslizes são aqueles que são guardados como grandes segredos, são os interesses particulares pautados como pauta de interesse público, mas que na verdade esconde interesses particulares ou não são tratados jornalisticamente ou são tratados desde um enfoque que proteja mais a particularidade do interesse e não proteja tanto os valores do interesse público. Então nesse caso é que eu acho que não são profissionais.

Antonio Nelson - No último seminário da Petrobrás, o qual contou com sua participação, cujo tema foi “A Ética nas Organizações Empresariais”, o senhor mencionou que as empresas agem pior do que Stálin e Hitler. Poderia explicar melhor essa afirmativa?

Francisco Karam - Eu acredito que tenha me expressado mal, por dizer que agem pior do que Stálin e Hitler, mas elas são muito autoritárias e eventualmente racistas no seguinte aspecto: recortes da realidade. O que é de interesse público acaba sendo feito sob um olhar. O modelo de realidade tem que se adequar a um projeto editorial, não assumindo uma particularidade, na qual todos devem ver o mundo sob esse olhar. Esse autoritarismo é um problema. Reconheço que tem muita coisa boa no ramo jornalístico, mas é claro que quando chega o interesse apesar da grande mídia tratar de todos os aspectos da vida pública, a coisa cai, ou vira segredo ou então é pouco tratada. Esse é um problema que eu vejo bastante no jornalismo de mídia geral.

Antonio Nelson – Como o senhor avalia a atuação dos programas popularescos no rádio, impresso e TV?

Francisco karam – Teria que analisar caso a caso. Tem programas que tem certa finalidade de envolver o público, em função de algum tema. A grande parte dos programas popularescos que eu vejo tem uma visão de rentabilidade econômica e não de responsabilidade social. Banalizam o processo de informação e conhecimento, transformam a informação mais em espetáculo do que em conhecimento. Esse é o problema em uma sociedade que está pautada basicamente pela informação, principalmente pela televisão, pouco pela internet e pela mídia impressa. Aqui no Brasil há uma preponderância da imagem muito forte, diferente de alguns países, que tem a mídia impressa como a maior propagadora de informação. O critério de audiência vem comprometendo a informação jornalística.

Antonio Nelson - Com o surgimento de novos veículos de informação: internet, twiter, sites e blogs, o senhor acredita no fim do jornal impresso?


Francisco Karam - Eu acho que não, porque o impresso está voltado para um processo de codificação da verdade, tem certos nichos diferentes de público. As novas gerações buscam a internet, deixando de lado o impresso. Então o jornal impresso tem que ser mais atual, buscar novas estratégias. É por isso que têm ocorrido muitas discussões.

Maísa Amaral - Qual o conselho que o senhor dá para quem busca informação fidedigna?


Francisco Karam – O público primeiro tem que ter acesso à informação, para que se possa estabelecer comparações. Pegar jornais diários, visitar sites, entre outros veículos de informação. Uma possibilidade de comparar as coberturas é analisando o texto veiculado, os interesses e a vontade política do veículo. Tem que avaliar o processo de construção da formação, da escolha da fonte, todo esse processo de veículo.

Luiz Humbert - Qual a sua avaliação sob blogs jornalísticos?

Francisco Karam – Esse tipo de veículo vem crescendo. Devemos verificar a credibilidade, e quando o mesmo se propõe a ter seriedade, verdade e construção da linguagem. Tem blogs que se dedicam ao jornalismo e outros são impressões do mundo, que não tem o compromisso com a forma de relatar.

Quinta-feira,26 de agosto de 2009 às 14:30h na Faculdade de Comunicação (FACOM), da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
.
Foto : Antonio Nelson

*Maísa Amaral é jornalista.
*Luiz Eládio é poeta, escritor, funcionário público e jornalista.



Os artigos assinados não representam necessáriamente a opinião do Sentinelas da Liberdade. São da inteira responsabilidade dos signatários. Sentinelas da Liberdade é uma tribuna livre, acessível a todos os interessados.