terça-feira, 8 de setembro de 2009

Novas tendências do Jornalismo: bate-papo com Bella Palomo


Maísa Carvalho Amaral e Antonio Nelson*



Com a crise econômica mundial, apostar no novo e até mesmo no desconhecido tem sido uma das ferramentas fundamentais para driblar as consequências que a mesma vem causando no setor de Comunicação, principalmente quando se trata de jornal impresso. A professora, doutora da Universidade de Málaga-Espanha, Bella Palomo, em passagem por Salvador-Ba, trouxe exemplos de alguns modelos de inovações, utilizados na Europa, que estão sendo aplicados pela impressa, com intuito de superar a crise. A internet está sendo a chave mestra através de sites, blogs, twiter, entre outros.



No Brasil, não diferente dos demais países, o papel está sendo um dos rivais dos jornais impressos, pois teve um grande aumento, o que acarretou em demissões maciças e fechamentos de jornais que não tiveram condições de arcar com os gastos. De acordo com a professora, na Espanha não foi diferente. “Muitos jornalistas foram demitidos e o jornal impresso foi bastante abalado”.



O acesso a internet na Europa é realizado de forma democrática, o que possibilita a todos a conectividade com o meio digital. “O acesso é facilitado pela aquisição de computador. Um estudante, por exemplo, pode comprar um bom computador e pagar em cinco anos com prestações mensais de R$ 50. Esse valor possibilita que o mesmo possa adquiri também impressora, wi-fi, pode também comprar outros utensílios. Beneficia também outras pessoas e as empresas”, destaca Palomo.



Quando o assunto é a possibilidade de um dia os jornais impressos serem distribuídos gratuitamente, como já ocorre em alguns países, Palomo enfatiza que “na Espanha já temos alguns jornais distribuídos gratuitamente. A falta de publicidade é um elemento que contribui para isso. Nesse momento, os jornais impressos estão em estado de fracasso.”



A substituição dos jornais impressos pelo digital vem ganhando espaço, de acordo com a professora, pois o limite de páginas deixa de existir. “Já temos experiências desse tipo em alguns lugares, como nos Estados Unidos. Um sistema que vem sendo adotado por algumas empresas para conseguir superar a crise financeira. Acredito que a Espanha siga o mesmo caminho. Com certeza será uma tendência mundial explorar o meio digital.”



Ao ser questionada se a internet seria a salvação para o Jornalismo, ela salientou que “não seria a salvação. O que é necessário é modificar, inovar. A internet é uma das formas de fazer o Jornalismo, mas não a solução para todos os problemas da área.”


*Maísa Carvalho Amaral e Antonio Nelson Lopes Pereira são da equipe do Sentinelas da Liberdade.
Megapixels: Antonio Nelson

sábado, 5 de setembro de 2009

Pré-macacos e bobalhões alegres

Coluna Retratos do Brasil: Sentinela - Luiz Eladio Humbert*

O festival de besteira e o festival de sujeira que assolam o país são promovidos por duas espécies muito peculiares do gênero humano, cuja natureza específica é vir ao mundo para sujá-lo e corrompê-lo: os pré-macacos e os bobalhões alegres, ambos subprodutos do capitalismo.

Bobalhões alegres são pessoas cheias de si mesmas, que se imaginam os instruídos donos da verdade e inatingíveis beneficiários da impunidade. Essa categoria social tem forte atração pela política e pelo meio empresarial.

Bobalhões alegres, comedores das migalhas do banquete dos ricos, e muitos deles também se achando ricos, porque, eventualmente, também superfaturam bens e serviços para o governo, costumam estufar o peito e propalar a supremacia brasileira no que se refere ao clima, recursos naturais, extensão territorial, para concluir que se em vez desse bando de mestiço preguiçoso, fosse o país livre do MST e povoado por japoneses, chineses, alemães e americanos, o Brasil seria a maior potência econômica e militar do planeta.

Um belo dia de festa, um desses bobalhões alegres aproximou-se de Ariano Suassuna, pavoneou-se ajustando a gravata, e disparou essa diatribe ao povo brasileiro. O mestre então perguntou ao ilustre interlocutor qual o povo no mundo que consegue, com tamanha coragem e dignidade, enfrentar e sobreviver às secas, às enchentes, à total falta de recursos, desassistidos pelo Estado, iludido, humilhado e explorado por políticos, e apesar de tudo isso, ser capaz de criar a arte pujante que o povo brasileiro produz.

Prosseguindo nas suas considerações sobre a realidade brasileira, o mestre Suassuna indagou: que arte a elite brasileira cria? Que produtos, que patentes, que tecnologia, que pesquisa ou trabalho acadêmico relevante a classe dominante, a conservadora elite econômica e social do Brasil foi capaz de oferecer ao mundo, desde 1500?

Na ausência de resposta, o mestre Suassuna concluiu: a nossa miséria se deve às elites, meu filho, aos bobalhões alegres, e não ao povo brasileiro.

Como sabemos, os donos do mundo, num encontro dos superbilionários bobos e alegres mundiais, ocorrido na Califórnia, no final do século passado, compreenderam que apenas 20% da população do planeta é bastante para produzir tudo que esses 20% necessitam para viver com luxo e conforto.

Consequentemente, os 80% restantes estão implícita ou explicitamente excluídos da sociedade capitalista. Porém todos esses excluídos consentem em ser excluído e espoliado e muitos deles votam nos representantes das classes dominantes, que são vendidos aos tolos como produtos de consumo, em caríssimas campanhas publicitárias, com logomarcas, jingles, e tudo mais, para compor o teatro da democracia do neoliberalismo.

Pré-macacos, os explicitamente excluídos, frutos de toda sociedade injusta e desigual, são isso que podemos chamar de xereré de gafieira, de resto de fim de feira, de pau queimado de fogueira. Estão alojados no subsolo da exclusão social, vivendo de biscate, ou de pequenos furtos, habitando o lixo com os ratos e as baratas, apanhando indiscriminadamente da polícia, acumulando revolta e votando em político safado, em troca de um par de chinelo.

Chamá-los de macacos seria ofender os primatas, que não mijam, nem cagam no caminho por onde andam, como fazem os pré-macacos, e também é bom lembrar que macacos não votam.

Todos, os instruídos, os quase instruídos e mesmo aqueles sem instrução sabem que duas máfias poderosas comandam as prefeituras das grandes cidades, concorrendo com as demais variantes do crime organizado, que manda e desmanda no país: as máfias do transporte coletivo de passageiros e a da coleta de lixo urbano.

Elas elegem representantes no parlamento, remuneram formadores de opinião, e matam prefeitos não alinhados. Todos sabemos, menos os bobalhões alegres que elegemos, que essas máfias superfaturam tarifas e serviços e, ainda por cima, cantam miséria, exigindo mais subsídio do governo.

Por essa razão, até hoje, os meios urbanos de transporte coletivo são mais miseráveis do que os caminhões de transporte de gado e ainda não possuem memória fiscal nas catracas. Assim, fica fácil desviar receita para o caixa dois, em contas bancárias de laranjas, e violar o artigo primeiro do Estatuto do Idoso, que define idoso como pessoas com idade igual ou superior a 60 anos.

Sou um idoso legal, ando de ônibus e, na minha idade, não me conformo em ainda ter que pagar muito caro para usar esses paus-de-arara.

Enquanto os bobalhões alegres fingem que governam, os pré-macacos sujam a cidade.

* Luiz Eladio Humbert (lalado) é colunista do Sentinelas da Liberdade.
Os artigos assinados não represemtam necessáriamente a opinião do Sentinelas da Liberdade. São da inteira responsabilidade dos signatários. Sentinelas da Liberdade é uma tribuna livre, acessível a todos os interessados.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Entrevista: Francisco Karam Fala sobre Ética Jornalística


Antonio Nelson, Luiz Eladio e Maísa Amaral*



O jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina, Dr. Francisco José Castilhos Karam, falou com exclusividade sobre a Ética Jornalística Brasileira e os veículos de comunicação digital, para o Sentinelas da Liberdade. Confira a entrevista:

Maísa Amaral - Sob o olhar da ética até que ponto o jornalismo contribui para a memória social?

Francisco Karam – Se ele cumprir os determinados princípios dos quais ele se avora, como o da transparência ao ambiente público, aos poderes e aos diversos campos do saber, ele contribui de forma continuada para o registro do presente, logo tem algum grau de contribuição para a memória social. Tanto que a própria história, seguidamente, pesquisa nos arquivos jornalísticos para suas críticas em relação a eventuais eventos, mas também acaba validando o jornalismo como uma referência para a memória do presente. Por isso que o jornalismo tem tanto compromisso com a diversidade, com os diferentes atores. Ele pode contribuir para memória, mas depende se ele é bem feito e se cumpri o ideal da igualdade.

Antonio Nelson - Como o senhor avalia o jornalismo baiano?

Francisco karam – Eu não tenho acompanhado o jornalismo baiano, mas acredito que deve seguir o padrão geral do jornalismo brasileiro, que tenta ser profissional, mas que ao mesmo tempo tem certo tipo de constrangimento, de ordens interacional, biológica, política, isso voltado para a imprensa de mais referência, mais pública.A

Maísa Amaral- Quais as posturas mais antiéticas cometidas pelas grandes empresas de comunicação brasileira com relação ao profissional e a veiculação da informação?

Francisco Karam - Acredito que os grandes deslizes são aqueles que são guardados como grandes segredos, são os interesses particulares pautados como pauta de interesse público, mas que na verdade esconde interesses particulares ou não são tratados jornalisticamente ou são tratados desde um enfoque que proteja mais a particularidade do interesse e não proteja tanto os valores do interesse público. Então nesse caso é que eu acho que não são profissionais.

Antonio Nelson - No último seminário da Petrobrás, o qual contou com sua participação, cujo tema foi “A Ética nas Organizações Empresariais”, o senhor mencionou que as empresas agem pior do que Stálin e Hitler. Poderia explicar melhor essa afirmativa?

Francisco Karam - Eu acredito que tenha me expressado mal, por dizer que agem pior do que Stálin e Hitler, mas elas são muito autoritárias e eventualmente racistas no seguinte aspecto: recortes da realidade. O que é de interesse público acaba sendo feito sob um olhar. O modelo de realidade tem que se adequar a um projeto editorial, não assumindo uma particularidade, na qual todos devem ver o mundo sob esse olhar. Esse autoritarismo é um problema. Reconheço que tem muita coisa boa no ramo jornalístico, mas é claro que quando chega o interesse apesar da grande mídia tratar de todos os aspectos da vida pública, a coisa cai, ou vira segredo ou então é pouco tratada. Esse é um problema que eu vejo bastante no jornalismo de mídia geral.

Antonio Nelson – Como o senhor avalia a atuação dos programas popularescos no rádio, impresso e TV?

Francisco karam – Teria que analisar caso a caso. Tem programas que tem certa finalidade de envolver o público, em função de algum tema. A grande parte dos programas popularescos que eu vejo tem uma visão de rentabilidade econômica e não de responsabilidade social. Banalizam o processo de informação e conhecimento, transformam a informação mais em espetáculo do que em conhecimento. Esse é o problema em uma sociedade que está pautada basicamente pela informação, principalmente pela televisão, pouco pela internet e pela mídia impressa. Aqui no Brasil há uma preponderância da imagem muito forte, diferente de alguns países, que tem a mídia impressa como a maior propagadora de informação. O critério de audiência vem comprometendo a informação jornalística.

Antonio Nelson - Com o surgimento de novos veículos de informação: internet, twiter, sites e blogs, o senhor acredita no fim do jornal impresso?


Francisco Karam - Eu acho que não, porque o impresso está voltado para um processo de codificação da verdade, tem certos nichos diferentes de público. As novas gerações buscam a internet, deixando de lado o impresso. Então o jornal impresso tem que ser mais atual, buscar novas estratégias. É por isso que têm ocorrido muitas discussões.

Maísa Amaral - Qual o conselho que o senhor dá para quem busca informação fidedigna?


Francisco Karam – O público primeiro tem que ter acesso à informação, para que se possa estabelecer comparações. Pegar jornais diários, visitar sites, entre outros veículos de informação. Uma possibilidade de comparar as coberturas é analisando o texto veiculado, os interesses e a vontade política do veículo. Tem que avaliar o processo de construção da formação, da escolha da fonte, todo esse processo de veículo.

Luiz Humbert - Qual a sua avaliação sob blogs jornalísticos?

Francisco Karam – Esse tipo de veículo vem crescendo. Devemos verificar a credibilidade, e quando o mesmo se propõe a ter seriedade, verdade e construção da linguagem. Tem blogs que se dedicam ao jornalismo e outros são impressões do mundo, que não tem o compromisso com a forma de relatar.

Quinta-feira,26 de agosto de 2009 às 14:30h na Faculdade de Comunicação (FACOM), da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
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Foto : Antonio Nelson

*Maísa Amaral é jornalista.
*Luiz Eládio é poeta, escritor, funcionário público e jornalista.



quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Silvério Pessoa canta para o mundo - música pernambucana

Globalização: A metástase do capitalismo


Sentinela – Luiz Humbert*

O mercado é global desde os primórdios das civilizações.

Muito antes de Marco Polo, dos fenícios, dos gregos, dos árabes, dos cartagineses, dos romanos e dos ingleses, o mercado é global. A globalização surgiu com o ser humano.

Mas quando a palavra globalização passou a ser intensamente inoculada no inconsciente coletivo pela mídia patronal, John Kenneth Galbraith, o grande pensador norte americano da atualidade, afirmou que globalização é apenas um novo nome para a velha prática imperialista das nações ricas controlarem a economia, a política, as forças armadas e a corrompida e incompetente classe dominante dos países pobres.

A diferença prática é que agora esse controle é ilimitado, porque todas as nações do planeta perderam a sua soberania e são governadas, de fato, pelas grandes corporações capitalistas transnacionais. Os avassaladores avanços tecnológicos da atualidade tornam quase instantâneas as operações financeiras globais interbancárias e as transmissões de dados e de imagens via satélite, para uma rede mundial de computadores e televisão. Graças à excitada colaboração da mídia patronal global, o controle total do mundo é apenas mais um espetáculo oferecido por eles á humanidade.

Com o fim do Capitalismo de Estado na Europa, em novembro de 1989, os vírus do liberalismo econômico e do individualismo competitivo das revoluções burguesas do pós feudalismo - já libertos de sua histórica barreira marxista - se transformaram no câncer incurável do capitalismo atual, soberano predador da humanidade e do seu meio ambiente.

Aliás, o mês de novembro de 1989 é um marco na história do capitalismo global. Nesse mês ocorreram dois fatos cruciais para a humanidade: a queda do muro de Berlim, simbolizando o fim da resistência armada e organizada ao terrorismo do capital e as deliberações planetárias do Consenso de Washington.

Mas o começo desse processo de transformação do vírus em câncer deu-se em novembro de 1963, quando as indústrias bélicas e petrolíferas norte americanas assumiram, de fato, o governo da maior potencia econômica e militar do planeta, com o golpe de estado que assassinou o presidente Kennedy e acabou com a soberania política do povo ianque.

Graças ao elevado grau de incompetência, de degradação moral e de submissão política e econômica das forças armadas e das classes dominantes no Brasil, no Chile, na Argentina, no Peru, na Bolívia e no Paraguai, essas republiquetas foram as primeiras vítimas da nova política de estado das grandes corporações capitalistas, que derrubou regimes democraticamente eleitos, para decretar pela força militar o fim do compromisso social, econômico e cultural das empresas privadas com as populações desses países.

Com as sangrentas ditaduras latino americanas do meado do século passado, os trabalhadores desses países perderam a estabilidade no emprego, ganhando insegurança e desespero para o resto da vida, vivendo sem perspectivas de trabalho estável e de emprego também para seus filhos, desagregando a família, sem o direito de viver e envelhecer com dignidade.

Além desse direito humano fundamental, os trabalhadores foram despojados de suas históricas conquistas trabalhistas e sofreram o pior arrocho salarial já imposto pela iniciativa privada, com o afrouxamento das leis do trabalho.

A população desses países também foi penalizada com a redução dos gastos públicos diretos para o povo e com o consequente aumento de gastos públicos para obras superfaturadas.

Reformas tributárias impuseram rígida disciplina fiscal, para garantir, entre outras benesses ao capitalismo, o pagamento prioritário das dívidas públicas à agiotagem internacional.

Depois, sempre para privilegiar o pequeno capital privado nacional e o majoritário capital estrangeiro, foram implementadas as seguintes ações espoliativas: abertura comercial só nos países subdesenvolvidos, com eliminação de restrições ao investimento estrangeiro direto, especialmente quanto à remessa de lucros e royalties ao exterior, eliminação de subsídios agrícolas e quebra de barreiras alfandegárias protecionistas; juros e câmbio ditados pelo mercado e privatização das estatais, inclusive as consideradas de segurança nacional.

Comprovado o sucesso capitalista dessas medidas políticas extremas e a restrita e facilmente eliminada reação popular nesses países latino americanos de terceira classe, o Consenso de Washington resolveu estende-las aos países da Europa e dos outros continentes, a partir de novembro de 1989.

Por fim, reunidos no Fairmont Hotel de São Francisco, na Califórnia, nos idos de 1995, os superbilionários do planeta, os verdadeiros donos do mundo, complementaram a divisão da terra entre eles, estabelecendo as suas respectivas áreas de domínio.

Em diversos emocionados depoimentos, lá ficou comprovado que, graças á mecatrônica e a outros avanços tecnológicos, 20% da população dos países desenvolvidos é capaz de produzir tudo que esses 20% melhor aquinhoado necessita.

Portanto, o resto da humanidade veio ao mundo somente para viver de biscate, morrer de fome, de doença ou de uma bala perdida.

È isso, é precisamente isso, é essa tragédia humana que os sonâmbulos globais assistem passivamente pelo mundo afora.

Diante desse triste quadro social global, surge a comunidade musical GRAMPO (grupo musical de apoio á mobilização popular), para acordar, com música e poesia consciente, os 80% de sonâmbulos brasileiros, propondo sua união em comunidades sustentáveis e auto-suficientes, como fez o visionário Antonio Conselheiro em Canudos, mostrando aos ambiciosos, aos apáticos, aos egoístas e aos conformados, que justiça, liberdade, igualdade e fraternidade podem não ser utopia.
* Luiz Humbert é colunista do Sentinelas da Liberdade.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Nota do MST


Segue abaixo a nota da secretaria nacional do MST sobre as mobilizações de agosto, as conquistas obtidas, e a reação da direita e da imprensa conservadora.

Informe aos amigos sobre a ofensiva da imprensa burguesa contra o MST

Fizemos uma mobilização em todo o país e um acampamento em Brasília em defesa da Reforma Agrária e obtivemos vitórias importantes, relacionadas à solução dos problemas dos trabalhadores do campo. A jornada de lutas conquistou do governo federal medidas muito importantes, embora estejamos longe da realização da Reforma Agrária e da consolidação de um novo modelo agrícola. Além disso, demonstrou à sociedade e à população em geral, que apenas a organização do povo e a luta social podem garantir conquistas para os trabalhadores e trabalhadoras.

A principal medida do governo, anunciada durante a jornada, é a atualização dos índices de produtividade, que são utilizados como parâmetros legais para a desapropriação de terras para a Reforma Agrária. Os ruralistas, o agronegócio e a classe dominante brasileira fecharam posição contra a revisão dos índices e passaram a utilizar os meios de comunicação para pressionar o governo a voltar atrás.

Essas conquistas deixaram revoltados os ruralistas, o agronegócio e a classe dominante, que defendem apenas seus interesses, patrimônio e lucro, buscando aumentar a exploração dos trabalhadores, da natureza e dos recursos públicos. Nesse contexto, diversos órgãos da imprensa burguesa – os verdadeiros porta-vozes dos interesses dos capitalistas no campo – como Revista Veja, Estadão, Correio Brazilienze, Zero Hora e a TV Bandeirantes, passaram a atacar o Movimento para inviabilizar medidas progressistas conquistadas com a luta.

Não há nenhuma novidade na postura política e ideológica desses veículos, que fazem parte da classe dominante e defendem os interesses do capital financeiro, dos bancos, do agronegócio e do latifúndio, virando de costas para os problemas estruturais da sociedade e para as dificuldades do povo brasileiro. Desesperados, tentam requentar velhas teses de que o movimento vive às custas de dinheiro público. Aliás, esses ataques vêm justamente de empresas que vivem de propaganda e recursos públicos ou que são suspeitas de benefícios em licitações do governo de São Paulo, como a Editora Abril.

Diante disso, gostaríamos de esclarecer a nossos amigos e amigas, que sempre nos apóiam e ajudam, que nunca recebemos nem utilizamos dinheiro público para fazer qualquer ocupação de terra, protesto ou marcha. Todas as nossas manifestações são realizadas com a contribuição das famílias acampadas e assentadas e com a solidariedade de cidadãos e entidades da sociedade civil. Temos também muito orgulho do apoio de entidades internacionais, que nos ajudam em projetos específicos e para as quais prestamos conta dos resultados em detalhes. Aliás, todos os recursos de origem do exterior passam pelo Banco Central. Não temos nada a esconder.

Em relação às entidades que atuam nos assentamentos de Reforma Agrária, que são centenas trabalhando em todo o país, defendemos a legitimidade dos convênios com os governos federal e estaduais e acreditamos na lisura do trabalho realizado. Essas entidades estão devidamente habilitadas nos órgãos públicos, são fiscalizada e, inclusive, sofrem com perseguições políticas do TCU (Tribunal de Contas da União), controlado atualmente por filiados do PSDB e DEM. Desenvolvem projetos de assistência técnica, alfabetização de adultos, capacitação, educação e saúde em assentamentos rurais, que são um direito dos assentados e um dever do Estado, de acordo com a Constituição.

Não esperávamos outro procedimento desses meios de comunicação. Os ataques contra o Movimento são antigos e nunca passaram da mais pura manifestação de ódio dos setores mais reacionários da classe dominante contra trabalhadores rurais que se organizaram e lutam por seus direitos. Vamos continuar com as nossas mobilizações porque apenas a pressão popular pode garantir o avanço da Reforma Agrária e dos direitos dos trabalhadores, independente da vontade da classe dominante e dos seus meios de comunicação.

Secretaria Nacional do MST

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Da tela à vida

TELEANÁLISE

Sentinela – Malu Fontes*

As telenovelas brasileiras têm associadas a si a característica de, mesmo de modo caricato ou superficial, representar boa parte das temáticas do repertório social do país. Alguns pesquisadores do campo da teledramaturgia afirmam, inclusive, que a telenovela é, frequentemente, muito mais liberal e vanguardista, quando da abordagem de uma série de temas difíceis e tabus, do que o telejornalismo e a própria sociedade brasileira. Quando mal se sabia o que era fertilização in vitro, por exemplo, uma novela das seis, horário considerado dos açucarados, já abordava a polêmica em torno das mães de aluguel, em Barriga de Aluguel, 1990, de Glória Perez. Do mesmo modo, quando os sem terra eram vistos com muito mais preconceitos que hoje, uma novela global das oito já agendava o tema, em O Rei do Gado, 1996, de Benedito Ruy Barbosa.

Nos últimos anos, os autores das telenovelas vem inserindo em suas tramas toda a sorte de temas tabus, como a dependência química nas classes altas, o preconceito racial, a violência contra a mulher e o homoerotismo entre casais tanto do sexo masculino quanto do feminino. Um dos poucos temas polêmicos e objeto de tabu que sequer passa perto das tramas novelísticas é a prática do aborto. Embora trate-se de uma prática ilegal, sabe-se que este é um recurso usado por milhares de mulheres no Brasil diante de uma gravidez indesejada. Entretanto, nunca se vê uma personagem de novela optando por essa possibilidade, independentemente da pobreza, do não planejamento, do abandono familiar ou de quaisquer agruras pelas quais passe.

SEXUALIDADE - Afora o aborto, as telenovelas brasileiras são comumente um espaço onde praticamente todo e qualquer assunto difícil pode ser abordado e, automaticamente, transformado em objeto de debate nacional. A transformação dos temas das novelas em discussão nacional é tão garantida que os militantes de uma série de causas sociais dariam o inimaginável para terem suas temáticas inseridas em uma telenovela, a título de merchandising social. Nesse cenário, há algo que chama atenção na relação entre a telenovela e a reação do público: a tolerância e a simpatia populares diante do exercício da sexualidade feminina nas telenovelas e a condenação moral que comportamentos sexuais semelhantes despertam na vida real.

Que o homem brasileiro, de um modo geral, ainda se caracteriza por fortíssimos traços machistas, preconceituosos e misóginos, não há dúvidas. Um exemplo disso são os índices de violência registrados contra a mulher no país. A própria televisão é locus sistemático da publicização de cenas dantescas quando relata, tanto nos telejornais ditos sérios quanto naqueles considerados sensacionalistas, episódios diários de mulheres agredidas, violentadas, mutiladas e assassinadas. No entanto, paradoxalmente, personagens femininas de sexualidade livre são comumente catapultadas da trama de alguma telenovela para a condição de queridinha nacional justamente por seu comportamento sexual. Passando da tela à vida, as atitudes que, na sociedade brasileira, fariam com que uma mulher comum fosse moralmente condenada no grau máximo são, curiosamente, motivos de adoração do público quando adotadas por personagens de novelas.

ADULTÉRIO - O símbolo atual da preferência sustentada pelo comportamento sexual é a personagem de Dira Paes, a Dona Norminha, a traidora contumaz do marido em Caminho das Índias. Exclusivamente por conta do adultério cometido sistematicamente por Norminha, tanto a personagem quanto a atriz se tornaram objetos de culto, de capas de revistas, referenciais de moda (virou hit o sutiã saltando sob os decotes generosos) e sinônimo de símbolo sexual, com convites à Dira para estrelar capas de revistas de nu. No Brasil, aliás, o convite para posar nua e ser capa de revistas masculinas é o indicador incontestável do sucesso feminino. Do mesmo modo que Norminha, por seus rebolados e puladas contumazes de cerca, tornou-se a ‘namoradinha’ da vez do Brasil, o mesmo já aconteceu com a garota de programa Capitu, interpretada por Giovanna Antonelli em Laços de Família e a prostituta Bebel, interpretada por Camila Pitanga em Paraíso Tropical, entre outras tantas de perfil sexual semelhante. Até mesmo a vilã Nazaré Tedesco (Renata Sorrah, em Senhora do Destino), seqüestradora, assassina e ninfomaníaca, experimentou altos índices de simpatia perante o público.

Em todos os casos em que personagens femininas de comportamento sexual liberal, prostitutas, garotas de programa ou ninfomaníacas conquistam a simpatia do público, o fato é que a aceitação manifestada pelo público destoa completamente da reação popular quando se trata de mulheres de verdade que personificam tais atitudes em suas vidas. Enquanto na teledramaturgia mulheres como Norminha transformam-se em queridinhas do público com níveis de aceitação tão altos que levam à confusão carismática entre personagens e atrizes, na vida de verdade as mulheres de carne e osso que tenham comportamento semelhante ganharão indiscutivelmente, no mínimo, a pecha de vagabundas.

*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.
Os artigos assinados não representam necessáriamente a opinião do Sentinelas da Liberdade. São da inteira responsabilidade dos signatários. Sentinelas da Liberdade é uma tribuna livre, acessível a todos os interessados.