No hotel onde estou hospedado o elevador exige o uso da chave do quarto para se locomover. Dentro do elevador, um monitor com
news
me faz olhar exatamente para onde está a câmera de vigilância. Essa
hiper segurança me diz que estou em um lugar muito perigoso que
justifique essas medidas? Ou tornou-se um comportamento padrão, exigido
por seguradoras? De uma forma ou de outra, mais instrumentos de
segurança aumentam a minha sensação de insegurança, seja pelos dados e
imagens que são retirados de mim, seja pelo perigo real de atentado à
minha integridade física.
E no monitor dentro do elevador leio a notícia: “Redes sociais são
mais tentadoras do que álcool e cigarro”. Pesquisa da Universidade de
Chicago, se não me engano. Ora, algo que é mais tentador do que duas das
drogas que mais matam, incluindo as drogas ilícitas, só pode ser ruim e
ser controlado.
Estou vindo de Salvador onde uma greve da polícia militar faz imperar
o terror. Salvador é insegura, mesmo com todo o aparato policial. Mas
agora as pessoas estão ainda mais assustadas. Blindados e homens armados
trazendo mais segurança e sensação de mais insegurança. A segurança em
Salvador, comparado com países europeus, Canadá, EUA, é inexistente. Mas
vivemos nessa insegurança e nos acostumamos à ela. Vivi na Europa e no
Canadá e os europeus e canadenses sentem também insegurança.
A noção de segurança é cultural e está diretamente vinculada à
sensação de medo e insegurança. Mas ela é também temporal. O que é
seguro hoje, pode não ser amanhã. Por exemplo, nunca usei protetor
solar. Essa segurança não se colocava. Hoje é obrigatório. Não usava
cinto de segurança no carro! Hoje é lei. Devemos assim pensar sempre em
níveis de segurança. A segurança é sempre relativa e deve ser vista
dentro de contextos culturais, sociais e temporais. Dispositivos de
segurança devem ser vistos como phármacos, ao mesmo tempo veneno e
remédio.
Vejamos a Internet. Se formos pensar em uma internet segura, ela
seria também totalitária, controlada, sem liberdades individuais e de
informação. Nesse sentido a internet chinesa deve ser super segura, mas
não é um modelo a ser copiado por países livres e democráticos.
Podemos dizer que as formas de sociabilidade em rede, ou as redes
sociais são: Formas de sociabilidade onde há sempre exposição de si,
confiança, imitação, construção identitária, gerenciamento de
impressões, negociação de níveis de privacidade e de anonimato. No tempo
podemos usar três ideais-tipo dessas “redes sociais” que não são
necessariamente excludentes.
Século XVIII/XIX – bares, cafés, praças. Espaços público e
semi-público, exposição de si no corpo a corpo, gerenciamento de
impressões em classes bem demarcadas; onde o que se faz não é armazenado
como dados ou perfis. Começa uma biopolítica que passa a recrutar dados
pessoais para controle, monitoramento e vigilância.
Século XX – shows, shoppings, praças, praias. Exposição de si no
corpo a corpo, gerenciamento de impressão multicultural, fluida e
pret-à-porter; onde o que se faz começa a ser armazenado como dados ou
perfis. Expansão de registros imagéticos, sonoros, e de dados pessoais
para controle, monitoramento e vigilância.
Século XXI – Internet. Exposição de si na construção de perfis em
comunidades de interesse e de amigos. Fim do século XX as comunidades
virtuais temáticas, anônimas e despersonalizadas. Hoje, início do século
XXI, sites de redes sociais, em serviços como Google, Orkut, Facebook,
Twitter. O que se faz é armazenado como dados gerando perfis como fonte
de riqueza para controle, monitoramento e vigilância de empresas,
governos, polícias, marketing e publicidade.
Mineração de dados é atentado à privacidade e ao anonimato. Sujeito
gerador de perfis pró-ativos. Segurança é controle, monitoramento e
vigilância. Insegurança é controle, monitoramento e vigilância. Muita
segurança é um veneno que aniquila a vida, inibe relações, gera
desconfiança, criando pânico e mais insegurança. Sempre que falamos de
segurança pressupomos um sujeito inseguro, no passado, no presente e no
futuro (exemplos: câmeras de vigilância, protetor solar, cinto de
segurança ou proibição do acesso de jovens à internet). Por outro lado, a
não existência de dispositivos de segurança pode gerar barbárie,
vandalismo, criminalidade, desrespeito aos direitos humanos e a
dignidade da pessoa.
A internet é uma rede de controle de protocolos e de vitalismo
social. A segurança dos protocolos é o que garante o funcionamento da
rede. A vitalidade social é o que dá sentido a esses protocolos e a
expansão da rede.
Conectar gerações e descobrir o mundo juntos não pode ser apenas uma
expressão que sirva para que as gerações que detém o controle e os
protocolos exerçam um poder totalitário sobre as gerações mais jovens,
impondo visões de mundo e formas comportamentais. Esses últimos criaram a
rede e a mantêm como associação, ou seja, como o que podemos chamar de
“rede social”.
Forma de contestar segurança são formas de impulsionar inovações,
garantir liberdades, reforçar laços de colaboração e participação.
Exemplos:
Hacking (Anonymous e Megaupload),
Redes P2P,
Discussão sobre copyright,
Ciberativismo por redes sociais contra regimes políticos (exemplos: primavera árabe, porta do sol na Espanha, movimento occupy),
Movimento contra acordos como o SOPA, PIPA, ACTA ou lei Azeredo.
Nesses casos, empresas e governos falam em nome da segurança. Mas de
que segurança estamos falando? Essa relação não é a de conectar gerações
e descobrir um mundo juntos, mas de imposição de uma estrutura que
freia a inovação, as redes de sociabilidade, a liberdade e a cooperação
em nome da “segurança” de um modelo em vias de transformação e falido.
O mesmo podemos dizer da relação dos pais (felizmente, alguns deles)
com seus filhos onde os primeiros, em nome da segurança dos últimos,
impõem visões de mundo, desconhecem a revolução digital e inibem a
expansão da “inteligência” compartilhada e colaborativa, produtora de
conteúdo que está em marcha (escrever, ler, fotos, vídeos, músicas),
instituindo a repressão pelo controle e vigilância do suposto sujeito
inseguro que não merece confiança. Deve-se estabelecer uma relação de
confiança, de diálogo e de abertura e pensar numa educação para os meios
e não apenas para a internet.
Deve-se reconhecer a questão da internet segura como um phármaco. A
dose é a chave para, por um lado, garantir a criatividade, a
colaboração, sociabilidade, a inovação e, por outro, inibir a violação
do direito das minorias ou dos mais vulneráveis. Conectar gerações e
construir juntos pode ser interessante se não for apenas uma frase de
efeito, ideológica, totalitária que obrigue os mais jovens a obedecer a
força dos mais velhos (geração, indústria, governos) que estão no
comando.