segunda-feira, 24 de outubro de 2011

sábado, 22 de outubro de 2011

Globo, Record e o comércio de fluidos e secreções

TELEANÁLISE


Sentinela - Malu Fontes*



Recentemente, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse em público aquilo que muitas autoridades e poderosos vivem dizendo longe das câmeras e microfones. Referindo-se a matérias feitas pela Rede Record sobre acusações contra ele, Teixeira disse à entrevistadora, na revista Piauí, algo do tipo: “só vou ficar preocupado, ‘meu amor’, quando sair no Jornal Nacional”. No início da última semana, a Folha de S. Paulo, referindo-se à forma como a emissora dos irmãos Marinho está se comportando em relação aos jogos Pan-Americanos, fez uma pergunta que tem tudo a ver com a resposta de Teixeira: se uma árvore cai na floresta e a Globo não mostra, será que ela caiu? E se a principal rede de televisão do país dá mais espaço para a Stock Car e o showbol é porque esses "esportes" são mais importantes que o Pan?

O fato de a Rede Record deter os direitos de transmissão dos jogos e o modo como a Globo vem se referindo ao evento diz muito sobre o que leva o jornalismo e o telejornalismo a dar um maior, menor ou nenhum destaque à cobertura de um determinado assunto. Não, não é o interesse público e nem mesmo o interesse ‘do’ público que leva uma emissora a centrar fogo na cobertura de um assunto. É, e sempre será, é bom acostumar-se, o interesse comercial da emissora. Como não tem os direitos de transmissão do Pan, a Globo praticamente o ignora.

PRINCÍPIOS EDITORIAIS - A Controle da Concorrência, que monitora as inserções publicitárias em todas as emissoras, informa que no primeiro dia das competições do Pan a Globo deu ao evento apenas 28 segundos, somando o tempo usado para falar dos jogos em todos os programas jornalísticos da emissora. Em 2007, quando detinha os direitos de transmissão, a Globo dedicou nada menos que uma hora e 38 minutos no primeiro dia, somando o tempo dado em todos os seus noticiários. Os jogos são os mesmos, as medalhas e as derrotas para os atletas brasileiros continuam tendo o mesmo peso de sucesso e fracasso. O que mudou? Mudou apenas o dono do cofre onde caem as moedas advindas da venda das cotas publicitárias de patrocínio da transmissão do Pan. Se é a Record quem lucra com o evento, a Globo praticamente o ignora como fato.

Sim, só episódios assim para mostrar que não passa de mero efeito de merchandising de umbigo todo o barulho feito pela Globo para divulgar os Princípios Editoriais das Organizações homônimas, segundo os quais “jornalismo é o conjunto de atividades que, seguindo certas regras e princípios, produz um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas. Qualquer fato e qualquer pessoa”. O diabo se esconde é no que a linha editorial das organizações deve considerar como sinônimo de ‘certas regras’ e de ‘qualquer fato’. Pelo jeito como a TV Globo se comportou durante a semana, os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara estão abaixo da categoria de ‘qualquer fato’ e muitos dos atletas brasileiros na competição estão abaixo de ‘qualquer pessoa’. A detenção dos direitos pela Record e a indiferença indisfarçada da Globo diante do Pan já levou as duas a trocarem sopapos verbais não apenas nos bastidores do jornalismo, pois não é do feitio da emissora do bispo falar da concorrente pelas costas. Fala e praticamente ameaça de processo diretamente da bancada dos seus telejornais.

PELEJA E PUS - A versão da Record é a de que, assim que comprou os direitos de transmissão do Pan, enviou a todas as concorrentes brasileiras, conforme determinam as regras internacionais de cessão de direitos de uso de imagens, um termo disponibilizando dois minutos diários dos jogos, o mesmo comportamento, diga-se, que a Globo adota nos eventos que são de transmissão exclusiva dela. Ainda segundo a Record, SBT, Rede TV!, Cultura, Gazeta, TV Brasil, Band Sports e Band News assinaram o documento. Sportv, ESPN e Band não responderam e a Globo respondeu que não tinha interesse. Nesse contexto, as imagens que todas as emissoras signatárias do documento veiculassem deveriam, obrigatoriamente, ser creditadas à Record, com a exibição na tela do logo colorido da emissora. Sim, o Jornal Nacional exibiu imagens sem o logo e deu-se a guerra. A Globo argumenta que recebeu as imagens de uma agência internacional da qual é cliente. A Record diz que é mentira e o bate-boca continua. O fato, no entanto, é que, com Pan ou sem Pan, a Globo não perdeu audiência e manteve-se na liderança.

Não deixa de ser interessante para o telespectador mais astuto descobrir que mais importante do que a notícia é o interesse publicitário em jogo por parte das emissoras de TV. Mas por isso não se arregala mais os olhos nem se perde o sono, sobretudo numa semana em que o assunto que mais marcou o telejornalismo nacional, além de mais um escândalo envolvendo um ministro, foi um espasmo literal de nojo, diante do qual a peleja Globo-Record é assunto de luxo de comadres. O que a televisão trouxe de novo durante a semana foi a consciência nacional de que o Brasil, por livre e espontânea vontade, se transformou em mercado para um tipo de comércio deplorável: o país é a praça emergente da compra e venda de fluidos e secreções de lixo hospitalar. Sim, o Brasil Já pode se anunciar como o país que compra sangue, pus, secreções e dejetos. Não demora e aparece algum defensor da tese de que tal prática merece elogios, por representar uma vanguardista estratégia criativa do brasileiro em favor da causa da reciclagem, tão em moda nos discursos dos antenados.


*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Conversa Fiada com Paulo Henrique Amorim

Escute a entrevista exclusiva do jornalista Paulo Henrique Amorim ao Programa Conversa Fiada, apresentado por Gil Dillon na Rádio Sociedade da Bahia. PHA respondeu ao Gil sobre família, Rio de Janeiro, infância, sexo, o primeiro beijo, como nasceu o "Olá, tudo bem"; Rede Globo, o prazer de ser repórter, Tom Jobim, mercado de trabalho, jornalistas de mercado, Daniel Dantas, diploma de jornalista, Wikileaks, revista Veja etc. Confira tudo abaixo na íntegra:




















Conversa Fiada, 24 de dezembro de 2010.

Produção e Foto:
Antonio Nelson.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Redes e ruas

TELEANÁLISE

*Sentinela - Malu Fontes*


As marchas e os protestos estão na ordem do dia em diversos países do mundo, do Oriente Médio aos quintais brasileiros, mesmo que, entre si, guardem diferenças motivacionais e de escala e etmologia abissais. Antes, muito antes, que o telejornalismo internacional corresse com suas câmeras para mostrar ao mundo o povo revolvendo-se nas ruas contra as décadas de ditadura no Egito e na Tunísia, por exemplo, no início deste ano, outra esfera midiática, as redes sociais, como o Twitter e o Facebook, e dispositivos móveis como os smartphones e os tablets, já haviam se tornado os protagonistas da chamada Primavera Árabe.

Protestos de pessoas nas ruas, longe de serem tímidos ou tranquilos, também foram registrados nas redes sociais na Espanha, um dos primeiros países da Europa cuja população esperneou contra a crise econômica e o consequente desemprego. Como aconteceu no mundo Árabe, na Grécia e viria a acontecer depois nos tumultos nas ruas de Londres, os manifestantes espanhóis utilizaram toda a potencialidade das redes sociais para amplificar os ecos das queixas contra o poder instituído ou o estado de coisas que contestavam. As estratégias de repercussão nas redes não se equivalem aos métodos correntes de uso dos meios de comunicação convencionais, como se dá, por exemplo, com os movimentos sociais que lançam mão de assessorias de imprensa e envios de releases para as redações da imprensa tradicional para divulgar suas causas e reivindicações.

O tipo de ampliação que as redes sociais causam nas vozes dos movimentos sociais e acabam por convocar a mídia tradicional é de um tipo ainda difícil de diagnosticar por parte de uma geração que se formou analisando o mundo a partir do que diziam os meios de comunicação. A circulação das informações e imagens se dá de modo anárquico, disperso, não hierarquizado, sem um epicentro publicizador de dados e de modo incontrolável, para desespero por parte dos poderosos a quem o movimento incomoda, sejam eles os ditadores egípcios ou os democráticos componentes do parlamento inglês.

WOODSTOCK - O ano de 2011 tem sido pródigo em eventos desta natureza. O evento bombado da vez, com todos esses contornos, é o "Occupy Wall Street", uma espécie de Woodstock da segunda década dos anos 2000, só que geograficamente fincado no coração financeiro dos Estados Unidos, Wall Street, em Nova York, e publicizado (e potencializado) pelas redes sociais, blogs e todos os dispositivos a serviço da mobilidade e da informação em rede. Já são milhares de pessoas envolvidas, de diferentes nichos ideológicos e de mobilização, tendo em comum apenas (como se fosse pouco) a vontade de cuspir contra o sistema financeiro dos Estados Unidos, a quem é atribuída a responsabilidade pela escala estratosférica da crise que desde 2008 vem ameaçando a estabilidade econômica do país mais poderoso do mundo.

Somente após as redes sociais já terem se tornado o mural de registro e convocação das manifestações e protestos que, em poucos dias, já saíram de Nova York e chegaram a outras cidades dos Estados Unidos, como San Francisco, Boston e até Washington, é que as emissoras de TV e a imprensa se deram conta do tamanho do imbróglio. Vale dizer que enquanto o tipo de repercussão do "Occupy" nas redes sociais se dá sob toda a sorte de diversidade de registros, nos telejornais do mundo, e nos brasileiros não tem sido diferente, aos manifestantes sempre é colada uma espécie de aura que os enquadra muito mais como web hippies, maconheiros pós-tudo, anarquistas sem bandeiras e porra-loucas maníacos por tecnologia do que como cidadãos contra um modelo econômico que empobreceu milhões de pessoas e saiu ileso, com os bolsos abarrotados de dinheiro. Para entender melhor quem são as pessoas contra quem os manifestantes do "Occupy Wall Street" vomitam, basta ver o documentário Inside Jobs, uma espécie de "tudo o que você queria saber sobre a crise da economia dos Estados Unidos e não tinha a quem perguntar".

TOCA RAUL
- O fato é que, com a potencialidade de amplificação das redes sociais, a imprensa convencional, torcendo o nariz ou com câmeras sorridentes, está, sim, sendo obrigada, como se diz na Bahia, a correr atrás do prejuízo. Um outro aspecto que tem deixado o telejornalismo tonto, mais do que a imprensa escrita, pela escassez maior de possibilidades e estratégias de aprofundamento permitidos pelo modelo de produção do telejornalismo, é a indisfarçável falta de arejamento que a TV tem para abordar, no Século XXI, os significados de ideologia e política. Quando a manifestação é contra um ditador há três décadas, no Egito ou na Líbia, é um movimento político e todo santo âncora de telejornal concorda com isso.

No entanto, se são jovens londrinos barbarizando contra estabelecimentos comerciais para arrancar de lá produtos de consumo nada para matar a fome, pois não têm fome nem estão submetidos a uma ditadura política, aí, então, claro que não há nada a ver com política. Claro, todos concordam que se trata de vandalismo puro e simples, o que leva o telespectador do mundo jamais contestar o desejo manifesto do Primeiro Ministro inglês: controlar o acesso às redes sociais para impedir a organização de manifestações dos garotos-problema. Milhares de manifestantes com tablets e smarthphones nas mãos acampados em Wall Street? Ora, não passam de hippies anarquistas moderninhos que confundem militância política com cliques na web. Está na hora de a velha TV repensar seus conceitos sobre o significado das práticas e ações políticas do lado de cá da tela. Está aí uma geração que parece ter aprendido a transitar entre as redes e as ruas sem passar pelo canal informativo representado por uma televisão que sempre tem uma velha opinião formada sobre tudo. Sim, "Toca Raul" pode ser uma ação política. Por que não? Depende de contra quem se grita.


*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com

domingo, 16 de outubro de 2011

Uma Resposta de André Lemos a Rodrigo Savazoni

Desculpem, sou amigo do Rodrigo e entendo a sua verve, mas o texto é muito tendencioso (diria mesmo, pseudo crítico, e mesmo "militante"),com imprecisões e ausência de uma melhor explicação da relação da Apple com o Unix e Linux (isso nem é tocado). Ele ressalta, com razão, a importância da abertura e da colaboração na internet, no software livre e na cultura digital em geral (no que estamos todos de acordo), mas é historicamente injusto com o que fez Jobs e a Apple. Essa cultura existiria sem a microinformática, sem ipods, iphones e hoje ipads? Difícil imaginar. Nem o Windows existiria, o que poderiamos até pensar em ser uma benção. :-))

Certamente a Apple hoje é uma empresa que amarra o usuário em microcompras de aplicativos e conteúdos, que aprisiona o usuário em compras de cabos e adaptadores a cada novo dispositivo criado, mas o que se está homenageando é a história da Apple, a inventividade e audácia de Steve Jobs. Na minha opinião, uma coisa nao pode desmerecer, ou pior, esquecer a outra.

Há outros gigantes nesse domínio: Turing, Von Newman, Sutherland, Licklider, V. Bush, Cerf, Berners-Lee...Falar da genialidade de Jobs não significa canoniza-lo ou dizer que se está esquecendo os outros. Aliás, ele era uma figura muito difícil, autoritário, arrogante, vaidoso...Mas quem pode atirar a primeira pedra?

Vejam o prossseguimento do debate depois do post do Rodrigo aqui:
http://www.trezentos.blog.br/?p=6403

Para quem não sabe o que a Apple inventou, inovou ou foi a primeira a colocar nas mãos de todos, sendo fonte de cópia para todos, Windows e inclusive o Ubuntu (o desktop é muito similar ao OsX), vejam a lista abaixo...não exaustiva:


Uma interface gráfica, ícones, um desktop, etc.


O uso do mouse


O clique duplo (double click) e o drag-and-drop (clicar-e-arrastar) para realizar ações com o mouse.


WYSIWYG em edição de texto e gráficos ("what you see is what you get" - “O que você vê é o que você obtém”)


Nomes de arquivo longos, com espaços e sem extensão (até 31 caracteres antes do Mac OS X, aumentado para 255 caracteres com o Mac OS X)


O leitor de disquetes 3.5" de série


Áudio de série, incluindo um alto-falante de qualidade


A impressora laser PostScript


Publicação pessoal (Desktop publishing)


Programação pelo usuário através do HyperCard e AppleScript


A interface SCSI (Mac Plus, 1986)


Entrada de Áudio de série (Mac IIsi & Mac LC, 1990)


Leitor de CD-ROM de série (Quadra 900, 1991)


Um ambiente de trabalho único distribuído em diversos monitores


Suporte Ethernet de série (Quadra 700 & 900, 1991)


Universal Serial Bus, a popular entrada USB que substituiu diversas outras, se tornando um padrão mundial e atualmente usada em Pen Drives e MP3 Players.


FireWire, também conhecido como IEEE 1394, um standard desenvolvido pela Apple e promovido também pela Sony sob o nome iLink (G3 Azul e Branco, 1998)


Rede sem fio IEEE 802.11b e IEEE 802.11g (wireless networking), denominados comercialmente AirPort, AirPort Extreme, e AirPort Express pela Apple (iBook original, 1999)


O abandono do leitor de disquetes (iMac original, 1998)


O primeiro computador disponível comercialmente a se basear principalmente no USB para a conexão de periféricos. (iMac original, 1998)


Arquitetura RISC na forma do processador PowerPC, desenvolvido conjuntamente pela Apple, IBM e Motorola (Power Macintosh 6100, 1994)


O primeiro leitor DVD-R a preço popular ("SuperDrive", Power Mac G4, 2000)


Monitores planos de série (iMac G4, 2002)


Primeiros notebooks com mouse de série e teclados externos (série PowerBook 100, 1991)


Primeiro notebook com replicador de portas, para uso como desktop (PowerBook Duo, 1992)


Primeiro notebook com monitor de tela larga (PowerBook G4, 2000)


Primeiro computador pessoal a arquitetura 64-bit (PowerMac G5, 2003)


....


IPOD


ITUNES

MACBOOK AIR

IPHONE


IPAD


....


É pouco?



Saudações,


André Lemos
Associate Professor
Faculty of Communication
Federal University of Bahia
http://andrelemos.info
Twitter: @andrelemos


Texto enviado por Marcos Palacios

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

TV e monopólio da morbidez

TELEANÁLISE


Sentinela - Malu Fontes*


Começo de tarde em Salvador. Na tela da TV, ágil como um urubu eletrônico programado, um helicóptero da TV Record ronda, aproxima-se, sobrevoa, plaina, durante minutos que parecem eternos, sobre um corpo masculino morto, esfacelado sob o sol no asfalto de uma rodovia, após um acidente de trânsito recém-ocorrido. No estúdio, o apresentador Zé Eduardo, o Bocão, narra a tragédia ao mesmo tempo em que faz as vezes de diretor de imagem, pedindo para a câmera ir para lá, para cá, pedindo para granular a imagem aqui ou acolá. Estendido no solo, visto de cima, sob a perspectiva do olhar de gavião eletronicamente potencializado das câmeras de TV atrepadas no helicóptero, um motociclista morto, mutilado, num nível tal de desconfiguração corporal, decorrente do porte do acidente, que equivalia a cenas de filmes B de terror. Manchas vermelhas e brancas espalhadas em raios que o apresentador dizia equivaler a 30 metros. Não era ketchup.

LONA - O fato: um motociclista desequilibrara-se, caíra do veículo e, em seguida, fora atropelado, segundo a emissora, por um, dois ou mais caminhões, que seguiram viagem sem parar, sem prestar socorro. A vítima, a imprensa identificaria depois como sendo um jovem de apenas 19 anos que, no instante do acidente, dirigia-se no sentido Simões Filho-Salvador para encontrar a mulher, que lhe telefonara convidando-o para uma surpresa: acabara de descobrir que estava grávida. Enfim, uma história com todos os contornos de um drama capaz de mobilizar os telejornais populares à exaustão. No entanto, embora em meio a esse cenário macabro, dois elementos chamavam atenção para além do corpo: a insistência com que o repórter e apresentador reclamavam da presença de curiosos e o fato de praticamente todos esses ‘curiosos’ não se contentarem em ver a cena a olho nu, pois empunhavam também um telefone celular gravando a cena.

Imediatamente após o acidente, formou-se um engarrafamento monstruoso na BR-324, nos dois sentidos, pois enquanto o tráfego ficara interrompido na pista do sentido do acidente, do outro, os veículos reduziam a velocidade praticamente a zero para fazer o óbvio em contextos desta natureza: para que motoristas e passageiros de automóveis pequenos e de ônibus cheios de passageiros olhassem corpo, o que prolongaria ainda mais o cenário mórbido no local. O serviço de remoção de corpos do Instituto Médico Legal, como não dispõe da precisão alada dos helicóptero da TV, levaria horas para chegar no local. Somente cerca de uma hora depois, a primeira providência era dada para diminuir o impacto da imagem: uma lona de plástico preto fora colocada sobre o corpo pela equipe de socorro médico da rodovia.

MORTE AO VIVO - Na noite anterior, uma segunda-feira, a TV Cultura reprisara uma entrevista histórica com Ayrton Senna, realizada pelo programa Roda Viva há mais de 20 anos, em 1986, quando o piloto havia vencido a sua primeira corrida de Fórmula 1. Em um dos trechos da entrevista, o então sóbrio repórter de TV, Marcelo Rezende, pergunta a Senna sobre como ele se sente diante do resultado de uma pesquisa da época que dizia que o público de Fórmula 1 via como um dos principais atrativos mobilizadores de uma corrida a possibilidade de ver de perto um acidente grave, inclusive com desfecho fatal.

A fala de Senna caíria como uma luva para explicar o comportamento público que incomodava, no episódio narrado, as reclamações do apresentador Zé Eduardo sobre a insistente e incômoda curiosidade do público diante do corpo morto na rodovia. Claro que o mesmo interesse que o caso despertava para o gavião eletrônico televisivo que lhe sobrevoava era compartilhado pela população ao redor da cena. E com a popularização dos celulares com câmeras, cada indivíduo que parava para filmar a vítima do acidente mimetizava um pouco o que vê os telejornais fazendo dia a dia: ao seu modo, estão capturando imagens trágicas para saírem por aí narrando à sua maneira o que viram e registraram. E suprema ironia trágica: a morte espetacular de Senna se deu ao vivo, diante das câmaras, com transmissão planetária e está capturada para sempre em imagens em movimento, inapagáveis.

COFRINHO - Ou seja, a natureza mórbida dos curiosos que, para os profissionais de TV atrapalham o serviço de socorro, da Polícia ou de remoção tem exatamente a mesma explicação e a mesma origem das razões que levam o helicóptero da emissora a sobrevoar como gavião o alvo no solo. A própria TV, inclusive, só investe a esse ponto na captura desse tipo de imagem porque sabe da existência dessa atração e curiosidade mórbida do público. O programa que reclama da curiosidade popular diante de um crime ou cadáver em via pública, acaso teria a audiência que tem não fosse esse fascínio popular que move as pessoas e irrita a TV por atrapalhar a captura das imagens por helicóptero?

O desejo de consumir o mórbido que justifica motoristas pararem seus carros para ver um morto é exatamente do mesmo tipo daquele sentido pelo telespectador que vai garantir a audiência dos programas que exploram as tragédias. Como disse Ayrton Senna, é típico da natureza do homem e seu desejo ambíguo de chocar-se e fascinar-se com a dor e o sangue alheios. Não, a curiosidade mórbida pela vida extinta ou extinguindo-se não é monopólio da TV. Ao contrário, a TV alimenta-se da existência prévia dela para encher seu cofrinho. O helicóptero vai ter que lidar com esse detalhe incômodo da aglomeração popular nos cenários das tragédias.


*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. maluzes@gmail.com
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