quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Faltou Michael na Pop Life

Sentinela - Luis Guilherme Pontes Tavares*

Havia, no início de outubro, anúncios nos jornais londrinos convidando para a exposição Pop Life na Tate Gallery. Fomos conferir. O ingresso custa 12 libras e meia. Mostra trabalhos do artista norte-americano Andy Warhol e daqueles que, como ele, adotam o princípio de que “uma boa arte é um bom negócio”. Abriu no dia 1º de outubro e permanecerá até janeiro do próximo ano. Ocupa metade do 4º andar da Tate. Foi ali que vimos, ela na frente, ele a seguindo, o casal Bruna Lombardi e Carlos Alberto Ricelli. O casal e a Pop Life combinavam bem!

Há três salas em que menores de 18 anos não podem entrar. São até bem comportadas apesar dos closes das partes íntimas da artista pornô italiana Cicciolina. Os quadros de Warhol pintados com pó de diamante e expostos sob luz especial tocaram-me muito mais pelo inusitado que são.

Senti falta de uma sala especial dedicada a Michael Jackson porque ele, apesar de cantor, fez de sua pele e do resto do corpo um objeto de intervenção artística de repercussão surpreendente. Afinal, o que mudou para Michael quando he changes himself de negro para branco?

O British Museum abriu em outubro mais uma mostra temporária, em que exibe, além dos objetos e documentos, a sua extraordinária habilidade museológica, promovendo o equilibrado balanço da estética com o didático. A visita ao monumental museu é livre, porém as mostras temporárias, não. Para ver Moctezuma: astec roler, o museu cobra 12 libras (adulto).

Moctezuma é patrocinada pela ArcelorMittal, empresa petrolífera inglesa que negocia com os mexicanos. Sendo assim, o México enviou para Londres o que possui de mais precioso no seu acervo histórico sobre o imperador asteca, bem como sobre o colonizador espanhol Hernán Cortez, com quem Montezuma (aqui com n, como grafamos em português) tentou negociar, porém saiu derrotado e morto.

A extraordinária exposição ocupa o espaço que outrora era o grande salão de leitura da British Library, instituição que ganhou sede nova há alguns anos. Moctezuma, além de mostrar grandes esculturas pré-colombianas que adornavam a cidade de Tenochititlan, exibe também a iconografia espanhola sobre o período (séculos XV e XVI).

O British Museum trata o tema com elegância e bom gosto, porém é quase certo que a Espanha, por causa da esperteza rude e da violência de Cortez, volte a figurar na história como um dos colonizadores mais cruéis. Quiçá, na falta de outra justificativa, tudo seja culpa do ar salitroso do Mediterrâneo.

Londres, meus amigos, é cultura, entretenimento, muito verde e boa comida.
Venham para cá vocês também!

* Luís Guilherme Pontes Tavares é Jornalista, produtor editorial e professor universitário. Este texto foi escrito em 11 de outubro, no trajeto Londres-Paris feito no Eurostar que partiu da capital inglesa às 9h45. Teria sido publicado aqui desde 23 de outubro, quando o autor o remeteu da cidade do Porto, porém não foi possível abrir o arquivo. Enfim, eis, redigitado, o segundo texto que Luis Guilherme escreveu durante a recente viagem à Europa.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Lenine e a psicanálise freudiana


Letra da música Olho de Peixe é objeto de análise

Estréia: À Flor da Pele por Denise Lima*

Não assumo posição de que a psicanálise possa interpretar tudo, em especial a arte, em qualquer de suas manifestações ou linguagens.


Cabe, portanto, uma advertência: não se trata de recorrer à psicanálise para interpretar objetos que são estudados em outros campos do conhecimento. Trata-se, sim, de trazer à luz, a partir da teoria psicanalítica, novas questões que se propõem em forma de diálogo, que pode resultar em grande proveito para tais campos de conhecimento, numa perspectiva inter ou multidisciplinar - característica do pensamento complexo.


Não se trata, também, de justapor interpretações para melhor compreender um determinado objeto, mas de estabelecer uma relação entre elas, mantendo suas próprias identidades, construídas ao longo da história do campo a que pertencem, respeitando-se as características de irredutibilidade de cada uma, ainda que – diante do objeto complexo[1] – possa haver uma fusão (indefinição) em suas fronteiras. Esta relação - que inclui, também, a contestação, que caracteriza o diálogo – pode levar a novas interpretações e construções do objeto, como também, eventualmente, a transformá-lo.

Dito isto, vamos tentar um diálogo entre a visão psicanalítica freudiana e a letra de Lenine, em sua música Olho de Peixe. (Apenas para não deixar passar esta ocasião para lembrar uma questão, exaustivamente debatida: letra de música pode ser poesia? Dizia Wally Salomão que sim, o que provocou muita polêmica. Deixando à parte, poesia ou não, podemos pensar que qualquer produção humana deve ser levada em consideração).

No que a psicanálise pode contribuir para elucidar sentidos nesta letra de música, a partir das contribuições desta para dar-nos pistas para a compreensão do psiquismo humano?

Redoma de vidro é o que, primeiramente, chama atenção. Redoma dá uma idéia do campo defensivo do sujeito, que nada sabe sobre si mesmo e se protege por meio de uma ficção (ou racionalização), que pouco corresponde à sua própria verdade. Pode representar as defesas – inclusive a repressão (ou recalque) - do Eu, parte consciente, grande parte inconsciente.

Apesar de o Eu ser um lugar da ilusão e da mentira, ainda assim, não podemos perder de vista que é com o esse eu que pensamos, raciocinamos, refletimos, tomamos decisões, construímos e fazemos escolhas éticas. Sem falar no poder que temos, consciente e determinado, de superar nossas próprias dificuldades.

Redoma de vidro é uma expressão bonita e significativa: a defesa, a proteção, podem ser quebradas. É o que acontece com o retorno do reprimido (ou recalcado), em forma de sintomas, sonhos, atos falhos, chistes – que são manifestações do inconsciente.
Pulo para “a mente é como um baú e o homem decide o que nele guardar”.

Não decide. Não há escolha sobre o que guardar ou não, assim como não há escolha da orientação sexual. Lembremos Monod, em Acaso e necessidade, quando diz que o homem tenta, desesperadamente, negar a contingência!

Se o homem decide o que guardar em seu baú, talvez isso se refira às lembranças conscientes que ficam preservadas, as quais fazem parte da ficção que faz sobre si mesmo. Sem esquecer que as lembranças são sempre encobridoras, dizia-nos Freud. Fala Lenine: “ele se permite esquecer de lembrar”. É isso mesmo: por que se permite – inconscientemente – esquecer de lembrar, repete. Repete situações, padrões, amores, para não se lembrar. A possibilidade de ruptura dessa cadeia – tratada em Recordar, repetir e elaborar, texto de Freud de 1914 – inaugura a capacidade de invenção, de novas construções.

Dou um pulo: “na cabeça do homem tem um porão, onde moram o instinto e a repressão”. Porão é a parte de baixo. É o que vem primeiro, e, de certa forma, o que sustenta a construção do edifício. Interessante metáfora usada por Lenine! Pois o que vem primeiro, de certa forma, são as pulsões (instintos) de vida (pulsões do Eu – autoconservação - e sexuais – preservação da espécie) e de morte – destrutividade humana. Lá, no porão, não mora a repressão, mas esta é a condição de possibilidade do porão, onde moram os instintos. Repressão dos instintos (pulsões) para que a civilização seja possível (Freud, Norbert Elias etc.).

A pergunta insistente de Lenine: o que tem no sótão? O sótão é a parte superior do edifício – para usar a metáfora espacial - onde se guardam coisas, muitas vezes esquecidas e sem uso. Se guardadas é porque possuem uma potencialidade (no sentido dado por Nietzsche), ainda que encobridoras. Mas já é uma pista que Sherlock Holmes não desprezaria.

Arrisco dizer que o sótão pode ser uma metáfora para representar o instinto (pulsão) não reprimido, mas sublimado, um dos destinos possíveis das pulsões. Ou seja, a capacidade humana de não se render às pulsões (tanto as sexuais, de vida, quanto às de morte), que torna possível, ainda que tenha que se valer delas, a produção de uma música como esta de Lenine.
Grande idéia esta de provocar convergências entre a psicanálise e a letra desta música! Espero ter demonstrado, neste curto artigo, a possibilidade de diálogo que propus fazer, de modo incipiente.

Perdoem-me as frases que não comentei, talvez mais importantes do que as que selecionei. Outras abordagens farão isso, espero. “O capuz negro que cega o falcão selvagem”, por exemplo. Forte essa frase. Dá-nos o que pensar! O capuz negro, tarja preta. Podemos relacioná-lo tanto à censura quanto ao luto. Também ao anonimato. A censura, o luto e anonimato têm algo em comum: algo que se perde.

Talvez possamos remetê-lo (capuz negro) a um dos conceitos fundamentais da psicanálise: a defesa que usamos, totalmente inconsciente, com o fim de não enxergarmos o falcão selvagem que existe em todos nós. Se o falcão selvagem deve ser “domado” para que exista Cultura, parte deste selvagem, no que se refere à pulsão de morte, pode significar uma boa defesa! Se dirigida à pulsão de vida, esse falcão selvagem deve ser a força criadora, inventiva, persistente, louca, aquela que promove a Arte, a Ciência e a Filosofia.

Mais uma coisa a se pensar: a pulsão de vida e a de morte funcionam acopladas...

[1] Objeto complexo diz respeito à Teoria da complexidade (Morin, Prigogine) que está sendo adotada como novo paradigma epistemológico para a delimitação do campo da ciência.

*Denise Maria de Oliveira Lima é Psicanalista, Graduação em Ciências Jurídicas e Sociais e em Psicologia; Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas e Doutora em Ciências Sociais (UFBA). Professora da Faculdade Social da Bahia, onde leciona Psicanálise I e II. E é colunista do Sentinelas da Liberdade.

Notícias do Inferno

Teleanálise
Sentinela - Malu Fontes*
No rastro deixado pela onda de violência extrema que varre a zona norte do Rio de Janeiro, nunca a televisão abordou tanto um tema que hoje é dos mais assustadores da realidade brasileira: o tráfico de drogas. Incluiu-se no agendamento os tentáculos e os fenômenos satélites do tráfico, como o comércio internacional de armas, a contribuição militar nas fronteiras, a corrupção policial em torno do fenômeno e, como não poderia deixar de ser, o ponto nevrálgico do assunto: o consumidor.

Como a imprensa brasileira não é muito dada a abordar sem pudor o consumo social e esporádico de drogas pesadas, como a cocaína, até porque esse universo, muitas vezes, está literalmente embaixo do seu próprio nariz, nada mais apropriado e chocante que trazer à tona o que todo mundo já sabia mas nunca se tinha dito com tamanha clareza: a virulência com que o crack já se alastrou pelas mais diversas classes sociais no país, escapulindo das fronteiras da dependência e tornando-se um dos mais inabordáveis desafios para as famílias, as políticas de assistência à saúde e a segurança pública.

CELA - Para ilustrar à perfeição o tumor intratável em que o consumo do crack se tornou nos últimos 10 anos, um rapaz de 26 anos, sob o efeito da droga, assassinou no final de semana a namorada na zona sul do Rio, pelo simples fato de esta tentar demovê-lo do vício. E haja notícias produzidas diretamente do inferno das cracolândias domésticas país afora. Viu-se nos telejornais uma mãe em Aracaju que entregou os filhos de 10 e 14 anos ao Ministério Público por não mais saber o que fazer com ambos, dependentes. Em Pelotas (RS), uma família construiu dentro de casa uma cela para o filho descontrolado, com o afeto e o humor desmodulados a ponto de representar risco para toda a família e quem mais dele se aproxime.

Já que ninguém além dos traficantes genéricos é diretamente responsabilizado pelo tráfico e o único usuário abordável sem tabus é o dependente químico já no grau máximo (jamais se condena os bacanas que usam de ‘um tudo’), a batata quente teria que ser atirada na mão de algum órgão burocrático ou seu representante. A escolha se deu: em todos os telejornais, em dois tempos, o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, e o coordenador do Ministério da Área de Saúde Mental, Pedro Gabriel Delgado, passaram a semana virando-se nos trinta para explicar porque a pasta não tem estratégias e protocolos específicos para atender à demanda das famílias que têm em casa dependentes de crack que lhes ameaçam e à sociedade.

TÊNIS - Os críticos das políticas públicas de saúde mental passaram a semana acusando na TV o Ministério da Saúde de amaldiçoar a psiquiatria, a medicalização, a internação e de atirar à família a responsabilidade total por todo e qualquer transtorno de comportamento do usuário sistêmico de drogas. O Jornal Nacional abordou com destaque a proibição da internação involuntária dos dependentes químicos. Ou seja, se a internação se der sem o desejo do próprio dependente de crack, por exemplo, tem-se não uma internação, mas um indivíduo submetido a cárcere privado, o que é crime, passível de punição à família.

Santa hipocrisia nacional. A proibição da internação involuntária só atende mesmo à omissão da rede pública, incapaz que é de enfrentar o fato de que a população brasileira está atolada em índices dantescos de dependência de drogas. Somente as famílias privilegiadas e que infringem clandestinamente o voluntarismo do tratamento podem recorrer a sistemas privados de tratamento, sempre muito caros, pela complexidade e multidisciplinaridade do processo. Enquanto isso, os ricos entorpecidos de crack matam seus entes queridos em seus ambientes domésticos e os pobres saem insanos pelas ruas matando por um tênis e um casaco que logo adiante serão roubados por policiais corruptos que não querem nem saber quem pariu Mateus, muito menos quem o matou.

*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA.
maluzes@gmail.com

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

População Negra pede Socorro


Por Jaqueline Barreto *

Na sociedade contemporânea percebe-se de forma inquestionável uma retomada de valores e premissas eugenistas que ratificam a situação de assepsia social e limpeza étnica. Os jovens negros devido ao seu fenótipo e condição social, representam para o Estado e o aparato policial, elementos indesejáveis que devem ser eliminados do convívio social. Jovem, negro, morador da periferia de Salvador, com idade entre 15 e 29 anos é considerado de antemão como um perigoso em potencial. Através da atuação de grupos de extermínio aliada a um sistema policial intrinsecamente racista está ocorrendo um verdadeiro genocídio da juventude negra na capital baiana.

Salvador, com essas execuções sumárias, está imersa em um processo de constitucionalização da pena de morte.

A concepção de Estado Democrático e de Direito está completamente esquecida e em vez disso, a sociedade assiste de braços cruzados uma situação clara de racismo institucional. Desse modo, cláusulas e conceitos defendidos pela Constituição de 1988 não passam de letras mortas. O direito a defesa e a responder processo judicial estão sendo negados e negligenciados. A condenação, promovida pela polícia da caatinga de “pai faz, polícia mata” posta em prática sob o auspício da Secretaria de Segurança Pública do Estado, não permite a esses prováveis “bandidos” ou “marginais” como queiram intitular, o direito nem a ser presos.

De acordo com o Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em 2004, das 706 vítimas de homicídios em Salvador, com idade entre 15 e 29 anos, 699 eram negros e sete brancos. Ou seja, um jovem negro tem 30 vezes mais chances de ser o próximo nome na lista das vítimas que um jovem branco. Infelizmente, esse cenário não se restringe à realidade soteropolitana. Segundo dados da Organização dos Estados ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) no Brasil, a taxa de homicídios de negros é 74% superior a de brancos.

Esse quadro desenhado pela violência policial lembra estudos de cientistas do Séc. XIX que partiram do postulado de que o homem negro devido a algumas características físicas como braços largos, mãos avantajadas e estatura elevada, era um criminoso em potencial. Assim, nesse contexto de “laboratório Racial”, o racismo encontrou força no carimbo da ciência. Os homens negros foram apontados como elementos de alta probabilidade ao crime.

Portanto, espera-se que a Secretaria de Segurança Pública de forma conjunta com o Estado brasileiro revise suas práticas nazi-fascistas e conceba a violência não apenas por um olhar estigmatizado e preconceituoso e sim, como resultante de um processo histórico de exclusão e abandono social. Afinal de contas, esse quadro de extermínio subtrai um dos principais pilares de sustentação da dita cidadania.

*Jaqueline Barreto é colaboradora do Sentinelas da Liberdade e assessora do Núcleo Omidudu. Site www.nucleoomidudu.org.br .

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Salvador envelhecida, o presente do futuro


IBGE projeta que em 2035 já tenhamos uma criança de 0 a 14 anos para um idoso com 65 anos ou mais idade.


Maísa Amaral Carvalho Amaral e Antonio Nelson Lopes Pereira*

Fecundação. Questão altamente discutível, principalmente quando o assunto é inversão da pirâmide etária brasileira. Na Bahia, a transformação social, principalmente com a urbanização, foi um forte elemento para que mulheres e homens começassem a pensar duas, três ou até mais vezes quando o assunto é ter filhos. O coordenador técnico do Censo Demográfico Unidade Estadual do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na Bahia, Joilson Rodrigues de Souza, que já atua há 29 anos no órgão, em entrevista para o Sentinelas da Liberdade, ressaltou questões relevantes sobre a temática como políticas públicas, taxa de fecundação, preocupação dos jovens com o idoso, entre outros.

Confira a entrevista! Português, Inglês, Espanhol, Francês, Alemão...

Sentinelas da Liberdade – Qual a atual realidade da cidade do Salvador em relação ao processo de envelhecimento?

Joilson Souza – Um tanto atenuado. Salvador é uma cidade metropolitana que recebe um fluxo grande de imigrantes e esses vêem para capital por um objetivo muito específico: estudar, trabalhar, enfim, buscar uma oportunidade de atendimento para demandas não atendidas nos seus locais de origem. Isso faz com que a composição média da população de Salvador tenha mais jovens do que a média do estado como um todo e também no Brasil. Essa juventude que acaba interferindo nas médias faz com que Salvador resista um pouco mais ao modelo de envelhecimento, que no caso particular da Bahia, já é mais intenso do que o que acontece no Brasil, ou seja, hoje nós temos uma taxa de fecundidade próxima de 1.86 filhos por mulher, abaixo da taxa de reposição. Quando a fecundidade chega a esse nível, pode-se considerar que o suprimento de reprodução humana é insuficiente para repor as mortes que ocorrerão indubitavelmente por aqueles que vão alcançando a maturidade. Esse processo combinado com menos expectativa de vida faz com que tenhamos uma população proporcionalmente cada vez mais envelhecida, a ponto de já projetarmos agora, que por volta de 2035 já tenhamos uma criança de 0 a 14 anos para um idoso com 65 anos ou mais idade, ou seja, teremos alcançado o que conceitualmente se chama de grau de envelhecimento da população. O que não pode ser entendido a priori como algo ruim ou bom. A discussão talvez seja o equilíbrio entre essas duas condições. Por tanto, envelhecer, ter uma cota social envelhecida, é positivo porque mostra o como as pessoas têm mantido sua vida com qualidade, por outro lado, quando ela resulta da diminuição dramática da reposição humana, devemos nos preocupar, porque essa pirâmide etária sofre um relativo desequilíbrio, fazendo com o que tenhamos no futuro menos pessoas produtivas e um conjunto maior de pessoas dependentes daquelas produtivas, seriam as crianças e os idosos, embora a tendência agora é que tenhamos mais idosos do que crianças.

SL- Quanto às políticas públicas, nos últimos dez anos houve uma evolução para atender essas demandas?

J.S – O que tenho visto até aqui é um aumento na busca de conhecimento dessas tendências. Alguns fóruns já vêm sendo criados para discutirem o envelhecimento da população e certamente esses fóruns terão em alguma medida ambientes de cobrança, de percepção, políticas públicas específicas para o atendimento ao idoso. Não apenas no ponto de vista previdenciário, os valores da previdência para esse contingente, mas na ação preventiva, da acessibilidade e do atendimento de um contingente que teria um crescimento e uma taxa muito superior do que a taxa de crescimento médio da população. Na verdade é que esses com idade acima de 80 anos vêm crescendo até mais rapidamente do que aqueles com 65 anos ou mais. O que fala claramente do aumento da expectativa de vida. A idéia é de que comecemos já a refletir e tomar decisões de natureza sociológica, ambiental, de infra-estrutura para atender essa população importante e não obstante, de uma atenção maior, seja no campo da Saúde, seja na atenção, na afetividade e proteção familiar e de um reconhecimento social também para a importância que o idoso tem para qualquer meio.

SL- Houve uma diminuição na taxa de fecundidade nos últimos dez anos?

J.S – Dramática. De 70 prá cá, a fecundidade na Bahia caiu de 7.2 filhos por mulher para próximo de dois, 1.8 filhos por mulher. Uma queda dessa natureza, certamente não por motivos baseados estreitamente no controle da natalidade, através de usos de contraceptivos orais, por exemplo, mas pela esterilização ou laqueadura. Significa dizer que temos mais de 27% das mulheres em idade fértil já estéreis, ou seja, sem condição de retomar a fecundidade caso desejassem. Quando encontramos um quadro como esse é o mesmo que dizer que as tendências da reposição da fecundidade são de fato baixas, primeiro porque não há o encorajamento como reconhecimento social, da importância de ter mais filhos, no sentido de compor a base social, e da pirâmide etária, mas também porque em alguma medida as mulheres já estão internamente convencidas da importância de ter filhos, ainda que isso se confronte muito com seus projetos pessoais, na área profissional, acadêmica, o que faz com que o Brasil esteja reproduzindo nesses últimos 30 anos algo que a Europa precisou 300 anos para poder viver, ou seja, uma transição demográfica, baseada em uma redução dramática da fecundidade e no crescimento do envelhecimento também em taxas muito superiores.

SL – Quais as maiores dificuldades enfrentadas no país e as possíveis soluções?

J.S – No caso particular do envelhecimento, consideremos que país que têm uma rede de proteção social mais estruturada, que anteviram o envelhecimento da população, tem conseguido enfrentar de uma forma razoável o envelhecimento e todas as demandas que a população idosa tem. Em um país como o nosso que até muito pouco tempo era tido como país jovem, não viu, não percebeu, que isso também se configurava como uma tendência para o Brasil. Existe um grande desafio. Primeiro, para refletirmos o que isso representa para a economia, para sociedade, e segundo, tratar de criar as condições necessárias para que esse grupo seja estendido, respeitar as nossas demandas, recepcionadas nessa condição, até porque não estamos falando de idosos que virão, estou falando de mim, que logo estarei nessa condição. É preciso imaginar que a sociedade da qual faço parte hoje precisa criar as condições necessárias para que me abrigue quando a minha condição etária demandar uma atenção especial.


SL- Embora não seja sua especialidade, você percebe uma preocupação dos jovens com o idoso?

J.S – Posso estar sendo injusto, mas a minha resposta, baseada na minha percepção é não. O jovem não tem esse conhecimento, não tem essa visão ou mesmo essa sensibilidade voltada para relação com o idoso, como algo importantíssimo para o aprendizado e para o crescimento pessoal. Isso decorre também como resultado de um modelo econômico. O capitalismo tem um pouco essa visão de que aquele que é pouco produtivo acaba tendo uma menor importância para a sociedade. Então o idoso, como indivíduo que representa um conjunto importante de demandas e carências e pelo mesmo lado não é também tão produtivo como são os jovens, acaba tendo menor importância. Não é obstante saber e considerar que o idoso guarda consigo muita experiência, sabedoria extremamente necessária para a sociedade que também é oral. Embora a nossa sociedade tenha várias formas de conhecimentos, há também um conhecimento que está guardado através da experiência do idoso e precisa ser resgatado e qualificado, seja no âmbito da sociedade geral, mas também familiar.

SL - Existe orientação do governo para que mulheres e homens tomem conhecimento de outros métodos contraceptivos, evitando a esterilização?

J.S – Acredito sim. Na verdade, o Brasil vive também o que podemos chamar de uma crise neomalthusiana, ou seja, a tese que lá no século XVII e XVIII divulgava que o mundo sofria uma difusão demográfica, portanto a capacidade de produção de alimentos seria inferior ao crescimento da população. Essa tese que naquela época serviu para orientar inclusive sugerir que as mulheres não tivessem filhos, ou que quando casadas evitassem a relação sexual, como uma forma de evitar o nascimento de filhos, em alguma medida foi reeditada, muito recentemente, porque a tese da urbanização também criou certa insegurança, interpretada a princípio como se também fosse uma explosão demográfica, o que na verdade é uma tolice. O mundo todo não caminha para uma explosão demográfica, muito pelo contrário, caminha para o envelhecimento, pois com a redução de seu contingente, espera-se que até 2050, aproximadamente, a população mundial comece a diminuir. No caso particular do Brasil, a partir de 2040 já comece a diminuir. Chegaremos à população máxima por volta de 219 milhões no ano de 2040, mas já em 2050 teremos 214 milhões de habitantes, o que mostra que a teoria de Malthus não se confirmará. Não obstante, quando falamos sobre a fecundidade das mulheres, estamos discutindo, na verdade, muito fielmente, essa tese, refletindo pouco sobre o impacto sociológico que isso tem. Não estou discutindo particularmente o fato de uma mulher ter menos filhos, ou até de não tê-los. Mas quando isso se torna um pensamento social, coletivo, dizemos que a sociedade com um todo vai viver os efeitos de uma cultura não reprodutiva, de não reprodução humana. Isso tem um impacto muito grande sobre a sociedade. Imaginamos que lamentavelmente quando falamos da queda de fecundidade na Bahia e no Brasil, isso não decorre necessariamente de um conhecimento, de uma formação das mulheres para planejar melhor sua prole, mas de uma interferência e uma oferta do próprio estado para métodos contraceptivos castrantes. A exemplo da laqueadura, ligadura de trompas, enfim, isso ocorreu sobretudo entre as mulheres mais pobres, no meio rural, e não necessariamente aquelas que são mais escolarizadas. Porque essas, desde o início do século passado já tinham tido menos filhos. Por terem informação puderam escolher outros métodos contraceptivos. Então, o que estamos discutindo é que parte importante da população, sobretudo a mais carente e menos informada, tem contribuído para a fecundidade, de uma forma menos qualificada, por que responde a uma demanda um pouco exógena, fora do seu próprio sentimento. É uma demanda mais coletiva, mais social, e em alguma medida influenciou.

S.L – Alguns acreditam que a redução da natalidade trouxe uma melhora na qualidade de vida. Você concorda?

J.S – Indiscutivelmente. O que acontece é que quando éramos uma economia rural, ter muitos filhos fazia parte de uma estratégia econômica, já que eles participavam de uma forma mais intensiva da produção. No momento em que a população passou a se tornar urbana, 2/3 da população da Bahia vivia no meio rural. Então, a urbanização traz consigo algumas demandas e talvez também interfira na formação da família. É verdade que as discussões sobre a qualidade de vida não respondem isoladamente por essa escolha. Admitamos, por exemplo, de que as funções gerais de estrutura, meios, acesso a médicos e logística de modo geral, como transporte, escola e muito mais é muito superior agora. Assim podemos dizer que as condições de ambiente ficaram um pouco pior, mas sabemos também que a fecundidade responde muito mais sobre uma estratégia da família do que necessariamente da sociedade. Há um temor maior em ter filhos, porque também há um temor em cuidar, pois pai e mãe não conseguem está tão presente quanto no passado. As famílias diminuíram de tamanho.

S.L – E o que representa a ampliação do Censo Demográfico para a Bahia?

J.S –
É a principal pesquisa brasileira sócio-demográfica. Importante dizer que o Censo desde que ele foi criado tem um núcleo que está voltado para as variáveis (população, sexo, raça, entre outras). Mas pela relação que temos com tantos outros ambientes técnicos que têm demandas muito claras, foram criados sistemas mais recentes. A admissão no próprio questionário de declarações de casais homossexuais, por exemplo. Também vamos está investigando profundamente os povos indígenas não apenas sobre o seu povo, mas qual é a língua falada, escrita, como uma forma de identificarmos a identidade étnica e independência e até a preservação dos valores e culturas indígenas. Também investigaremos a emigração do país. O censo como um todo é uma pesquisa que permite um retrato mais amplo e social do país.

S.L – Os meios de comunicação de massa informam os dados e estudos estatísticos do IGBE de forma contextualizada?

J.S – Tem melhorado. Na verdade consideramos que uma boa produção jornalística ela se realiza quanto mais profundamente esse profissional busca informações. É preciso que os assuntos sejam entendidos na sua profundidade, e que as matérias sejam mais informativas. O IBGE disponibiliza antecipadamente o conteúdo técnico que dará base ao jornalista para a pesquisa.

S.L – Considerações finais?

J.S - Apenas quero dizer que para a iniciativa do blog estarei sempre à disposição. Reconheço que essa é uma iniciativa importante, que fala de uma imprensa nova. Busca uma relação mais íntima com a fonte e que a qualifica à medida que escolhe para livremente expressar seu pensamento, sua visão.





*Maísa Carvalho Amaral:




“A arte de desenvolver um jornalismo ético”. Essa é a minha busca constante. É editora-chefe do Sentinelas da Liberdade. Natural de Salvador-BA. Jornalista formada pelo Centro Universitário Jorge Amado, atuou na redação do Diário Oficial do Estado da Bahia e na Assessoria de Comunicação da Agerba. Ainda em Assessoria, foi responsável pela comunicação interna e externa da Faculdade Unirb.




Na área de concurso público e Educação, desenvolveu o papel de repórter na Sucursal Nordeste do jornal Folha Dirigida, e posteriormente foi coordenadora de Jornalismo. É assessora da SECOPA – Secretaria para Assuntos Extraordinários da Copa do Mundo FIFA 2014 – Bahia.

Antonio Nelson Lopes Pereira:




“Jornalismo, Esporte, Política e Economia, Multicultura e Ciberespaço, Fotojornalismo e Cinegrafista”. É editor-chefe, autor e idealizador do site Sentinelas da Liberdade.




Natural do Recife-PE. Na década de 90, assistiu e viveu o surgimento e ascensão da mistura do maracatu com o rock, hip hop e música eletrônica através do movimento Manguebeat, liderado por Chico Science e Nação Zumbi; Fred 04, vocalista do Mundo Livre S/A.




Desde 05 de março de 2001, reside na cidade do Salvador/BA. Cursa Jornalismo na Faculdade Social da Bahia (FSBA) com intuito de desenvolver um jornalismo ético e de interesse público... Jornalismo 24 h.




Maísa Carvalho Amaral e Antonio Nelson Lopes Pereira - Fotos.







O Sentinelas da Liberdade atendeu a solicitação dos visitantes e reproduziu entrevista realizada em 28 de outubro de 2009. Reflita. Antonio Nelson









Datas
7, 8, 14 e 15 de Novembro de 2009
Dois finais de semana (sábado e domingo)

Local
Espaço CRISANTEMPO
Rua Fidalga, 521 Vila Madalena - São Paulo - 11 3819 2287

Carga horária
16 horas

Vagas
100

Valor da inscrição
200 reais

Data limite para inscrição: 05/11/2009
Contato
Telefone: 11 2594 0376

Para fazer sua inscrição
clique aqui





segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Guerra Olímpica

Teleanálise
Sentinela - Malu Fontes*
Há pouco mais de 20 dias, no dia 02 de outubro e nos dias próximos, imagens aéreas e deslumbrantes da cidade do Rio de Janeiro correram as emissoras de TV de todo o mundo, quando o Comitê Olímpico Internacional escolheu a capital fluminense para sediar os Jogos Olímpicos de 2016. As imagens, encomendadas pelo Comitê Olímpico Brasileiro ao cineasta Fernando Meirelles, encantaram o mundo, deram um empurrão e tanto para a decisão do COI e fizeram a comitiva brasileira ir às lágrimas quando da sua exibição na Dinamarca. Meirelles, louvado aqui e alhures pela belezura das cenas que mostravam o Rio como a cidade maravilhosa e irretocável que é, cantada e decantada no cancioneiro popular, reagia com modéstia aos elogios. Dizia que não fez nada demais, que não fez ficção, não criou efeito especial algum, apenas mostrou uma cidade linda, como de fato o Rio é e continuará sendo.

O país, quase inteiro, mimetizou a reação de explosão de euforia encabeçada pelo choro do presidente Lula, pelos pulos, lágrimas e berros do governador Sérgio Cabral, do prefeito Eduardo Paes, de Pelé, que de tão tonto e embevecido confundiu Michael Jordan com Michael Jackson, Hortência, Paulo Coelho e trocentos papagaios de pirata. Quem não euforizou junto foi imediatamente guindado à condição de urubu, corvo ou qualquer coisa agourenta. Onde já se viu contrargumentar falta de dinheiro para tanto, problemas estruturais urgentes do país, risco em potencial de empreiteiros devorarem metade dos recursos das obras? Tudo coisa de gente pessimista, sabe-se.

TOCHA – Desde então ficou impossível ligar a televisão e não ouvir qualquer referência a quantos milhões o Brasil e, principalmente, os governantes do Rio de Janeiro, haviam economizado em propaganda gratuita, diante do volume imensurável de mídia espontânea, em todo o mundo, exibindo as imagens irretocáveis da cidade captadas pela equipe de Meirelles. O turismo iria faturar bilhões já, imediatamente, graças à tal mídia espontânea em escala literalmente Global. A Rede Globo, até hoje com um palito atravessado na garganta por ter perdido para a Record o direito de transmissão das Olimpíadas em 2012, em Londres, passou as últimas semanas comemorando a conquista, pois já tem assegurada a transmissão de 2016.

Duas semanas depois, no entanto, novas imagens aéreas do Rio de Janeiro voltaram a correr o mundo, de novo ocupando telejornais do mundo inteiro e sendo manchete dos principais jornais impressos e digitais de todo o mundo. As imagens eram igualmente espetaculares, de uma tocha aérea, um objeto incandescente em movimento sobre uma cidade não mais tão maravilhosa assim. Brasileiro é um povo criativo, mas não, não era uma tocha olímpica chegando adiantada, mas um avião da polícia militar carioca pegando fogo no ar após ser abatido por uma saraivada de tiros disparados por traficantes de armamentos bélicos anti-aéreos no melhor estilo Bagdá.

VIOLENTO É O MUNDO - E haja mídia espontânea de novo, embora invertida, do tipo que afasta turistas e gera milhões de prejuízos na imagem positiva comemorada nos dias anteriores. TVs do mundo anunciavam 22 mortos no último fim de semana. O avião em chamas conseguiu pousar antes de ser totalmente devorado pelo fogo, por perícia miraculosa do piloto, mas três dos policiais que estavam nele morreram por queimaduras. Como tem se tornado praxe no Brasil diante de ações criminosas dessa natureza, as autoridades fizeram o que sabem fazer de melhor: confundir a opinião pública com jogos de palavras visando transformar merda em ouro, fracasso em mérito. Apressaram-se em dizer duas coisas. A morte de mais de 20 pessoas e um avião policial abatido no ar não era sinal de ousadia de bandido nenhum, mas uma prova da eficiência da Polícia do Rio. Graças a essa tal competência, os traficantes estariam perdendo território, estariam desesperados por saber que estão derrotados, etc. E bandido derrotado, sabe como é. Mas se o desespero é dos traficantes, que nome dar à condição emocional da população dos bairros atingidos, que na noite de terça-feira abandonavam, às centenas, suas casas para passar a noite distante, na rua, com medo de novos confrontos?

O outro argumento, mais importante: isso não atinge de modo algum a imagem de cidade olímpica do Rio. Nessas horas, a melhor coisa do mundo é esquecer o próprio rabo e apontar para o dos outros. Foram longo argumentando que, se o caso é violência, pior é Londres, que sediará jogos de 2012. Em julho de 2005, um dia após o COI anunciar a cidade como sede dos jogos olímpicos, terroristas tocaram o terror na cidade: 52 mortos e 700 feridos. Ou seja, para as autoridades brasileiras, violento não é o Brasil nem o Rio, mas o mundo.

PÓ - Os cariocas moradores do lado glamouroso da cidade, como o escritor Ruy Castro, por exemplo, no dia seguinte vociferavam o quanto é a imprensa que cria um clima exagerado de violência associado ao Rio. Numa rádio, ele afirmava que, enquanto a imprensa falava de guerra no Rio, ele próprio não viu nada desse terror generalizado. Passeou pelas ruas vazias de Ipanema, Leblon, Copacabana e "não havia nenhum clima de pânico, a cidade estava tranquila". Faz sentido, pois quem disse que o Morro dos Macacos faz parte da cidade? E quem disse que haverá modalidade olímpica no morro ou em Vila Izabel? Lá, o que há são outras paradas, como arremesso de cadáver em carrinho de supermercado, como se viu na TV. Na cidade tranqüila, o único vestígio do morro são as fileiras do pó que financia as armas anti-aéreas que transformam avião em tochas.

*Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura e professora da Facom-UFBA. Texto publicado em 25 de Outubro de 2009. maluzes@gmail.com
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