sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O rock metal-progressivo da Bahia



Multicultura - Entrevista com o guitarrista Ricardo Primata


Maísa Carvalho Amaral e Antonio Nelson Lopes Pereira

Muitos ficam indignados quando o assunto é Rock baiano, pois o Estado tem como raiz o axé e o pagode. Mas músicos como Ricardo Primata mostram que, apesar de ter um pequeno público, o Rock ferve na veia dos baianos. Com novo CD no mercado, Espelhos da Alma, Primata fala para o Sentinelas sobre a produção, lançamento do disco, rock baiano... dificuldade de divulgação na grande mídia.

Sentinelas da Liberdade – Nas suas apresentações no Sudeste você percebe surpresa por parte do público quando sabe que você é baiano e toca metal/ progressivo? Como você age quando percebe isso?

Ricardo Primata – Às vezes quando acabo de tocar, vem alguém e fala ‘poxa, legal seu som, parabéns’. Você é da onde? Eu falo: da Bahia, de Salvador, e eles dizem: é mentira! As pessoas não acreditam, pois aqui temos a tradição do axé e do pagode, então as pessoas se assustam, pois não deixa de ser uma surpresa.

SL – Você começou a desenvolver seu dom musical com 11 anos. Gostaria que você me falasse como é tocar rock metal/progressivo na "terra do axé"?

R.P – Comecei na verdade com sete anos. Ficava observando meus tios tocando, um tocava guitarra e o outro baixo. Foi ai que tomei gosto pela música. Com 11 anos, comecei a tocar violão. Fiz o curso de violão popular, depois entrei na escola da Ufba e fiz um curso de violão erudito. Sempre estudando. Acabei o segundo grau e cheguei até fazer vestibular para música, mas depois resolvi fazer Administração. Já trabalhava com música, minha renda já era com música. Assim que terminei a faculdade, resolvi cair de cabeça na música. O fato de está aqui em Salvador fazendo show, que tem um público pequeno, talvez seja porque sou muito caseiro, minha família toda está aqui e gosto de Salvador para morar. Mas tem cinco anos que estou indo para São Paulo, fazer workshop, indo também para o interior. Estou saindo mais e sentindo a necessidade de expansão. Estou com planos para ir para Europa.

SL – Espelho da Alma. Porque esse título?

R.P - São músicas que eu compus durante a minha trajetória. Tem algumas que são recentes e outras que são atuais. Em 2005 fiz Visões, com quatro faixas. É o reflexo do que eu sou musicalmente, a minha história musical está no CD. Tem uma fase que estou mais Rock and Roll, outra mais regional. Tem um pouco de tudo. Acho que está super eclético.

SL- Como foi ter a participação de Bule-Bule e Armandinho no CD?

R.P - Foi ótimo. Primeiro que sempre fui fã do trabalho dos dois. Bule-Bule é uma figura ilustre, Armandinho também. Foi perfeito.

SL – Qual a sua avaliação do Rock baiano atual?

R.P – O Rock baiano é um Rock forte, com muita energia, mas infelizmente não tem apoio. Se me perguntarem, existe Rock baiano? Eu vou dizer: Existe, porque têm pessoas que querem e estão alimentando, mas ainda é bem pequeno. Para o Rock baiano conseguir chegar a algum lugar tem que se unir e deixar de ser segmentado.

SL - Foi difícil para você conseguir os parceiros que tem hoje?

R.P - Foi sim. Tudo na vida é um pouco difícil, nada cai do céu. Batalhei muito para chegar até aqui. O pouco que tenho foi com muita luta. Estou super satisfeito. O começo é sempre difícil, mas depois que o negócio andou ficou mais tranquilo. O CD, na verdade, não teve nenhuma parceria.

SL- Porque você fez o lançamento do CD em São Paulo?

R.P – São Paulo é um dos grandes centros urbanos e as pessoas que curtem o show estão lá. Tem um público muito grande. Escolhi pela estrutura.

SL – Quando vamos ter um show de Ricardo Primata em Salvador?

R.P – No final de outubro e começo de novembro devo fazer. Infelizmente as primeiras apresentações não serão com bandas e sim pocket shows. Vamos pegar algumas lojas de CDs que oferecem espaços culturais e fazer apresentações.

SL- Você tem dificuldade de divulgar seu trabalho na grande mídia?


R.P - Na grande mídia sim, tenho dificuldade, porque tem pouco espaço, mas na mídia específica¹ não tenho dificuldade nenhuma, tenho uma divulgação muito boa. Já fiz algumas apresentações em programas locais como Mosaico e Soterópoles.

SL – Quais regiões do Nordeste já conhecem Primata?

R.P – As cidades de Santo Antônio de Jesus, Valente, Jacobina, Miguel Calmon e Camaçari, mas só na Bahia.

SL- A divulgação do trabalho na internet possibilita abrir portas?

R.P - Bastante. Desde o disco Visões, disponibilizo material no site, e pessoas até mesmo do Acre interagem comigo devido a essa divulgação.

SL- Poderia deixar uma mensagem para as pessoas que estão iniciando na área do rock?

R.P – Em qualquer área devemos fazer o que gostamos. Para quem está na área musical, que tenha o contato diário com músicas. Consumir e expressar o sentimento.

¹ veículos que publicam matérias sobre o gênero musical do artista.


Foto: Antonio Nelson



quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Urubus: jornalismo de costas para os fatos

Por Rodrigo Vianna*

Hoje, fui tomar café-da-manhã na padaria (um hábito, um tanto dispendioso, entre muitos paulistanos). Sobre a mesa, outro cliente havia esquecido o "Estadão". O jornal estava aberto bem na página da coluna da Dora Kramer. Vocês já leram essa colunista? Raramente leio. Hoje, estava impagável.

O título: "Uma nação de cócoras". Pensei que tivesse algo a ver com dor de barriga. Ou problemas de coluna. De coluna vertebral.

Não. A Dora Kramer parecia apenas mal-humorada com a popularidade de Lula. E inconformada com a pouca disposição dos tucanos para brigarem com Lula. Na quarta à noite, alguém deve ter mostrado pra ela a foto em que até Aécio tenta tirar uma lasquinha da popularidade do presidente (viram a fotod o Aécio com Lula, lá no São Francisco?).

Pois é. Isso foi demais para a colunista.

Senadores Gerson Camata e Eduardo Azeredo agem contra os internautas


Por Aracele Torres*

Hoje o poder público brasileiro deu mais um passo em direção ao cerceamento da liberdade dos internautas. Foi aprovado no Senado um projeto de lei que obriga as lan houses e os cybercafés a manterem um banco de dados com o cadastro de seus usuários.

Neste cadastro deverá conter o nome do usuário, o número do seu documento de identidade, a identificação do computador e o período em que ele foi usado, com data e horário de início e término da conexão.

Os dados devem ficar guardados por um período mínimo de 3 anos, permanecendo sigilosos, podendo ser divulgados apenas por determinação judicial. Quem descumprir a lei poderá receber multa entre R$ 10 mil e R$ 100 mil ou até ter seu estabelecimento fechado pela Justiça.

A íntegra: http://www.cibermundi.blogspot.com/

Entrevista com cantor e compositor Vander Lee


Maísa Carvalho Amaral, Vanessa Correia e Antonio Nelson*

Sentinelas - Lô Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini, o que eles significam para você?


Vander Lee -
Esse trio de melodistas fabulosos representa uma geração e uma estética vitoriosa na música de Minas. Lô Borges talvez seja o mais fecundo, mais conhecido. Beto Guedes possui uma textura toda própria. Flávio Venturini, romântico e elegante em suas composições.

Como você enxerga a receptividade do público baiano com baladas românticas na "terra do Axé"?


Vander Lee - Acho natural, assim como o fato de Minas atualmente ser um dos Estados que mais possui carnavais fora de época, junto com a Bahia.A música não possui muitas barreiras...



O seu novo trabalho "Faro" possui uma levada mais pop. Isso é devido ao público jovem que cada vez mais está acompanhando suas músicas? Houve o interesse por esse público?


Vander Lee - Nada foi muito premeditado, as canções foram surgindo, com esse ar mais 'Beatle infanto-juvenil', que me levaram a um ambiente entre Roberto Carlos, Cartola, Tim Maia...Acho que esse disco ainda não tem um público definido, sendo apenas pouco mais radiofônico.


Além das músicas do novo Cd, pretende relembrar antigas canções?


Vander Lee - Sim, o show se divide mais ou menos ao meio, entre canções do novo cd e músicas que o público já conhece.




Muitos músicos têm uma certa dificuldade quanto à divulgação. Foi difícil para você inicialmente?


Vander Lee - Acho que foi e sempre será dificil, mas os meios de comunicacão se multiplicam e a segmentação ainda não se concretizou como se imaginava. A demanda de música é muito grande hoje em dia. As pessoas estão se adaptando aos novos tempos e aprendendo a fazer escolhas melhores, eu acredito.


Qual a sua avaliação quanto à indústria cultural?


Vander Lee - Não possuo muito conhecimento sobre o assunto, mas sinto no momento que o Estado está assumindo a maior parte das ações, em contrapartida ao momento de readequação de mercado (novas tecnologias, questão dos direitos autorais, etc).

Acredita que atualmente muitos utilizam a música apenas como entretenimento?

Vander Lee - Sim, embora pense que mesmo quando estamos apenas nos divertindo, também estamos fazendo política cultural com nossas escolhas. Não há como separar uma da outra.

*Entrevista realizada por e-mail.


Foto: Ludimila Loureiro.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Imprensa negra na Bahia

Sentinela - Luís Guilherme Pontes Tavares*
Um dos méritos do livro As associações dos homens de cor e a imprensa negra paulista. Movimentos negros, cultura e política no Brasil republicano (1915 a 1945), do professor doutor Antônio Liberac Cardoso Simões Pires, é a fidelidade aos fatos. Trata-se de uma publicação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros do Tocantins – Neab – da Fundação Universidade Federal do Tocantis lançada em 2006. O professor Liberac, como ele é mais conhecido, informa, por exemplo, que os movimentos negros no Brasil continuam sem a relevância pretendida porque falta união entre os militantes.

O autor, agora professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia – UFRB – em Cachoeira, encerra o livro com estas recomendações: “Necessitamos entender melhor as relações nacionais e internacionais entre grupos de negros; desenvolver pesquisas comparativas entre os países da diáspora negra nas Américas; procurar de descobrir as relações entre os movimentos negros brasileiros e os norte-americanos na primeira metade do século XX para entender as possíveis influências das experiências das associações de homens de cor nas lutas pelos direitos civis dos negros norte-americanos na segunda metade do século XX”.

O professor Liberac conclui, após as considerações acima, com a seguinte reflexão: “Talvez possamos responder também o porquê de não conseguirmos unificar os movimentos negros na diáspora, em defesa dos negros cubanos que vivem os efeitos sociais das lutas políticas. Enfim, acredito que o entendimento de como se deram os processos históricos envolvendo indivíduos pertencentes a um conjunto de comunidades negras da diáspora africana vai nos ajudar a organizar uma agenda comum contra a descriminação racial nas Américas”.

O livro do professor Liberac foi sugerido pela historiadora Wlamyra Alburquerque, autora de O jogo da dissimulação (São Paulo: Cia. Das Letras, 2009) devido o interesse que demonstramos a respeito da imprensa negra, em especial da imprensa negra na Bahia. Esse interesse tem relação com o nosso compromisso com o estudo da história da imprensa baiana, que vejo aumentar desde 1988. O livro do professor Liberac examina alguns títulos de periódicos da imprensa negra paulista da primeira metade do século XX.

Sobre a imprensa negra baiana, por sua vez, desconhece-se qualquer trabalho a respeito. Sequer há um trabalho famoso sobre a imprensa abolicionista baiana. De modo que enxergo a profunda pobreza bibliográfica sobre o tema, e, porque a diminui, louve-se o esforço do Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia – Nehib –, sobretudo pela Coleção Cipriano Barata, iniciada em 2005, de natureza interinstitucional e dedicada a estudos sobre a imprensa baiana, cuja logomarca já figura em seis volumes.1

A propósito da imprensa negra na Bahia há, em gestação, a montagem de evento que será realizado em 2010, como parte da programação dos 80 anos da Associação Bahiana de Imprensa – ABI –. Além do professor Liberac, serão convidados o professor Sílvio Roberto Oliveira, da Uneb, cujos estudos sobre o poeta e jornalista Luiz Gama (1830-1882) tornam mais claras as contribuições desse baiano às letras nacionais; o empresário André Nascimento e os jornalistas Ana Alakija e Luis Augusto Santos (L.A.), que estiveram juntos na condução e realização do jornal Afro-Brasil, que circulou na década de 1980 em Salvador; a professora Ana Célia Silva, da Uneb, que estudou e continua estudando o preconceito entranhado nos livros didáticos brasileiros; o professor Jayme Sodré, colaborador de A Tarde e dedicado às pesquisas sobre a cultura afro-brasileira, dentre outros. Será sentida a ausência de Jonathas Nascimento, morto recentemente, cujo depoimento sobre o Boletim do MNU (Movimento Negro Unificado) seria valioso e, portanto, indispensável.

No primeiro semestre deste ano, no Centro Universitário da Bahia-FIB/Estácio, a imprensa negra da Bahia foi o tema da disciplina Tópicos Especiais em Jornalismo e a oportunidade se constituiu em ensaio do que poderá ser o evento do próximo ano na ABI. A iniciativa teve o duplo propósito de introduzir na turma a discussão sobre a imprensa negra e animá-la – e aos demais alunos concluintes – a eleger o tema como objeto do Trabalho de Conclusão de Curso – TCC.
O desafio está lançado.

* Luís Guilherme é Jornalista, produtor editorial e professor universitário. lulapt@svn.com.br


1 Apontamentos para a história da imprensa na Bahia (Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2005); A primeira gazeta da Bahia: Idade d'Ouro do Brazil, de Maria Beatriz Nizza da Silva (2. ed. Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembléia Legislativa do Estado da Bahia; Editora da Universidade Federal da Bahia, 2005); ARTHUR AREZIO DA FONSECA, de LUIS GUILHERME PONTES (Salvador: Egba, 2005); Anais da imprensa da Bahia, de João Nepomuceno Torres e Alfredo de Carvalho (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2006); Apontamentos para a história da imprensa da Bahia (2. ed. Salvador: Egba, 2007) e Memória da imprensa contemporânea da Bahia, organizado por Sérgio Mattos (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 2008).

Parlamentares colecionam processos

Deputados

Fernando de Fabinho (DEM-BA)

Inquérito 2656 - crimes eleitorais (transporte em dia de eleição)

Inquérito2684 - crime de responsabilidade

Geraldo Simões (PT-BA)

Ação Penal 471- captação ilícita de votos ou corrupção eleitoral

Inquérito 2707 - emprego irregular de verbas públicas.

Inquérito 2759 - crime de responsabilidade.

Inquérito 2719 - responde por crimes de responsabilidade.

João Carlos Bacelar (PR-BA)

Inquérito 2793 – crime de desacato

Joseph Bandeira (PT-BA)

Ação penal 486 - peculato

Maurício Trindade (PR-BA)

Ação Penal 510 - tráfico de influência

Paulo Magalhães (DEM-BA)

Inquérito 2311 - lesões corporais (com parecer da PGR pelo arquivamento)

Roberto Britto (PP-BA)

Ação Penal 512 – Captação ilícita de votos ou corrupção eleitoral

Tonha Magalhães (PR-BA)

Inquérito 2677 - crimes da Lei de LicitaçõesInquérito 2805 – crimes de responsabilidade – autuada em 23/03/2009

Uldurico Pinto (PMN-BA)

Inquérito 2706 - formação de quadrilha e crimes praticados por funcionários públicos contra a administração em geral. O procedimento corre em segredo de Justiça.

Fonte: www.congressoemfoco.com.br

Sob os lhos e pés do prefeito



Sentinela - Antonio Nelson*

O título refere-se à Ladeira da Montanha, localizada embaixo da prefeitura da cidade do Salvador/BA, de onde o prefeito reeleito, João Henrique (PMDB), e seu secretariado administram a cidade. O fotógrafo Leo Carvalho, estudante de jornalismo da Faculdade Social (FSBA), realizou um ensaio fotográfico sobre os contrastes sociais na capital baiana. Durante a semana, publicaremos o ensaio, feito exclusivamente para o Sentinelas da Liberdade.

Para refletir, segue abaixo o poema do poeta pernambucano Manoel Bandeira (1886-1968):


O Bicho

Vi ontem um bicho
Na imundice do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa;
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

Rio, 27 de dezembro de 1947
Os artigos assinados não representam necessáriamente a opinião do Sentinelas da Liberdade. São da inteira responsabilidade dos signatários. Sentinelas da Liberdade é uma tribuna livre, acessível a todos os interessados.