segunda-feira, 15 de junho de 2009

Caiu na área...

Sentinela - Henrique Brito*

É incrível, que em pleno século XXI, a imprensa sulista, ainda não percebeu que o mundo globalizou, que vários programas e canais são vistos em todo país. Apresentadores conduzem os seus programas como se fosse feito para o seu bairro, apenas para a sua cidade ou estado. Tratam-nos com tremenda má vontade e por que não dizer discriminação. Quem acha que isto não é verdadeiro, acompanhe um programa esportivo.

Para estes programas, não existe nada do lado de cá, os espaços, na mídia nacional, dados para o futebol dos clubes nordestinos, são mínimos e de forma desrespeitosa. Isto termina refletindo em todo meio esportivo daqui, os atletas sonham em jogar lá fora, no Rio, São Paulo ou exterior, mesmo em equipes falidas, como a exemplo o Flamengo. No entanto clubes como o Vitória (Ba) e Sport (Pe) são conhecidos pelos salários pagos em dia e pela estrutura dos seus CTs.

Os empresários sulistas procuram desestruturar estes clubes e fazem inserções junto aos seus técnicos e jogadores, estes terminam por aceitarem as várias propostas e vão para os grandes times do futebol brasileiro, mas se todos perceberem poucos se dão bem e logo voltam, para as equipes que os promoveu gordos e desconhecidos.

Este privilégio não é exclusivo da imprensa esportiva, nos vários programas da mídia nacional, apenas aparecemos nos exibindo no pelourinho, em grandes tragédias ou no carnaval em camarotes frequentados por artistas decadentes.


*Henrique Brito é Disigner e professor da Faculdade Social - BA
www.designerhenriquebrito.blogspot.com

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Uma biblioteca nos últimos dias


Sentinela - Luís Guilherme*

Há em Salvador uma preciosa biblioteca que está em adiantada deterioração. Possui cerca de 10 mil livros e periódicos do século XIX e da primeira metade do século XX. Ocupa o Salão Ruy Barbosa do amplo sobrado da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia, localizado no centro de Salvador. A secular Associação experimentou grande importância até o meado do século XX. Nela reuniram-se políticos e empresários e a história dos encontros em seus salões reclama urgente pesquisa, antes que também arruínem os antigos documentos e os relatórios como está acontecendo com os livros da sua biblioteca.

Desde 2000, quando me inteirei da situação, tenho manifestado meu desagrado. De modo que encaminhei, naquele ano, correspondência para a Fundação Gregório de Mattos, órgão da Prefeitura Municipal de Salvador que atua na área cultural, apresentando o problema e sugerindo que a biblioteca fosse salva através de permuta por livros mais novos, de modo que o acervo valioso de livros e periódicos datados a partir de 1811 encontrasse destino mais apropriado. Remeti cópia dessa correspondência para entidades e pessoas, com o propósito de obter a solidariedade na luta que inaugurara. Enviei-a para, entre outros, o bibliófilo José Mindlin, o jornalista Jorge Calmon, já falecido, e para a Biblioteca Nacional de Lisboa.

Voltei ao assunto em maio passado durante o II Seminário Nacional Livro e História Editorial – II Lihed –, realizado no Rio de Janeiro e em Niterói, sob coordenação geral do professor doutor Anibal Bragança, da Universidade Federal Fluminense – UFF –, e com a presença de pesquisadores de vários estados brasileiros e conferencistas internacionais, sobretudo franceses, a exemplo do professor Roger Chartier. Denunciei mais uma vez que os livros da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia, que certamente não são mais os 10 mil de nove anos atrás, estão em situação mais lamentável do que quando os vi pela primeira vez.

Fiz a denúncia na mesa-redonda CL 3: Livro e leituras nas províncias I, do Colóquio: 200 anos de livros brasileiros, quando expunha, com a professora Flávia Garcia Rosa, diretora da Editora da Universidade Federal da Bahia – Edufba – o trabalho “Apontamentos para a história do livro na Bahia”. É provável que o tema e a denúncia tenham impressionado aquela platéia qualificada, porém não posso reclamar a ação de nenhum deles, uma vez que as autoridades que deveriam se mover para solucionar o problema nada fazem a respeito.

A título de ilustração – ou de provocação aos amantes dos impressos – dou-lhe conta que a biblioteca possui, por exemplo, uma coleção encadernada do periódico A Guerra, publicado em 1915 em Salvador pela C. Tourinho & C.; uma coleção encadernada de O Antonio Maria, periódico publicado em Lisboa e ilustrado por Raphael Bordallo Pinheiro; uma coleção de O Malho, periódico brasileiro do início do século XX, oferecida à Associação pelo jornalista Karlos Weber, que teve expressiva atuação na vida cultural de Salvador. Há ali um exemplar de Lama & sangue, de Cosme de Farias, publicado em 1926 e no qual o autor denuncia o tratamento que o então governador Francisco Marques de Góes Calmon lhe dedicou. Enfim, há na biblioteca livros que foram impressos na Impressão Régia de Lisboa e há livros, ilustrados, publicados na França, na Inglaterra e nos Estados Unidos dos oitocentos.

O acervo valioso e agredido da biblioteca da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia reclama cuidado urgente. Há, certamente, livros raros entre os milhares de exemplares brasileiros, portugueses, franceses, norte-americanos e ingleses. Há livros que foram impressos há quase 200 anos na Impressão Régia de Lisboa... Se o choque que senti em 2000 foi suficiente para que o recorde nove anos depois, constato que a má impressão que disso resultado cresce a cada dia porque nosso grito não ecoa e a cada novo segundo cresce no mundo as desatenções para com o livro, este velho amigo da civilização.

* Jornalista, produtor editorial e professor universitário. lulapt@svn.com.br

quarta-feira, 20 de maio de 2009

A ficção brasileira está ameaçada



Sentinela – Luis Guilherme Pontes Tavares*


Mais claro impossível. Apesar da editora da Nova Fronteira, Cristiane Costa, não ter dito com estas palavras, o fato é que ela informou que os autores de literatura brasileira têm poucas chances de publicar numa das grandes editoras que foram nos últimos anos adquiridas por estrangeiros, sobretudo espanhóis e portugueses. Costa proferia a palestra “Se vende não é bom, se é bom não vende”, no 2º Seminário Nacional Livro e História Editorial, quando revelou que tais editoras estão interessadas nos megasellers, situação que alcançam os títulos que estão vendendo horrores em vários países simultaneamente. É desafio apenas para o brasileiro Paulo Coelho... e olhe lá.

O evento foi realizado em Niterói, nos dias 14 e 15 de maio passados, no bloco 3 do campus Gragoatá da Universidade Federal Fluminense – UFF –, em Niterói. O 2º Seminário foi antecedido por dois outros eventos, realizados no Rio de Janeiro, nos dias 11, 12 e 13 de maio: o “Diálogo Brasil-França: livros e leituras, teorias e práticas”, no auditório da Fundação Biblioteca Nacional; e o “Colóquio internacional: arquivos, memória editorial e história da vida literária”, num dos auditórios da Academia Brasileira de Letras – ABL.

Reuniram pesquisadores do livro e da leitura de muitos estados brasileiros e contou com a ativa participação de experts nesses temas que vieram da França – Diana Cooper-Richet, Andre Vauchez, Jean Yves Mollier, Jean-François Botrel, Michel Melot, Frederic Barbier e Roger Chartier –, da Argentina – Gustavo Sorá – e de Portugal – Manuela Domingos –, muitos dos quais com livros publicados no Brasil. Chartier, por exemplo, é autor publicado por mais de uma editora no Brasil.

Lamentável, todavia, o que aconteceu na tarde de 14 de maio quando os economistas Fábio Sá Earp e Georges Kornis não concluíram a apresentação do trabalho “Em queda livre? Uma década do livro no Brasil”. Apresentariam a tese de que a indústria editorial brasileira, acompanhando tendência internacional, multiplicou o número de títulos publicados, porém diminuiu as tiragens médias, disso resultando prejuízo para o setor. Tentaram, porém houve problema com o computador, houve discussões acaloradas que impediram a exposição e, por fim, o tempo acabou sem que sequer a exposição alcançar o meio do caminho. Ficou para depois. Até porque o vazio foi preenchido por muitas interrogações.

Os eventos do Rio de Janeiro e de Niterói foram organizados pelo professor doutor Anibal Bragança, da UFF, que, no final, convocou a todos a participarem da próxima versão – o III Seminário Nacional Livro e História Editorial –, prevista para 2011. Para quem pensou que nos cinco dias de pré-seminário e do seminário de 2009 só houve palestras e apresentação de trabalhos, registre-se que também aconteceram as exposições “Francisco Alves, o rei do livro”, na ABL, e “Biblioteca das Moças – França, Portugal e Brasil. A construção da sensibilidade romântica”, na Biblioteca Central da UFF (campus Gragoatá), e os shows “Agnes Moço e grupo”, na ABL, e “Bia Bedran e grupo Palha de Milho”, no campus citado. Enfim, em 2011, quem viver verá o organizador superar-se mais uma vez. Parabéns!


*Luis Guilherme Pontes Tavares - Jornalista, professor e produtor editorial em Salvador.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Que desçam sobre nós as bênção de Gandhi

Sentinela - Luis Guilherme Pontes Tavares*
lulapt@svn.com.br

É preciso aprender a não baixar a cabeça. E,
se forçados a baixá-la, mostrar que apenas se toma
impulso para a investida, como fazem os touros.
Hélio Pólvora, A Tarde, 09.09.2007, p. 2


A pregação da não-violência feita pelo indiano Mahatma Gandhi o elevou a herói de seu país. São constrangedores os registros cinematográficos de soldados britânicos, a cavalo, surrando, com vara de madeira, o povo indiano. Gandhi pregou a corajosa e esperançosa resignação e o povo atravessou os maus dias até a independência da Índia. Gandhi entrou para a história da humanidade porque lutou contra a violência do colonizador sem utilizar a força quando enfrentava o desrespeito e a opressão. Acreditou, e venceu, com a sua proposta de paz. Isso foi no século passado, na década de 1940, e, antes que o século se encerrasse, a lição de Gandhi serviu de inspiração a Nelson Mandela para acabar com o apartheid na África do Sul e chegar à presidência desse país.

A partir deste ponto fica combinado que os indianos são os funcionários do quadro efetivo, e os outros são os ingleses. Vamos prosseguir, quiçá, sob as bençãos de Gandhi. É nosso desejo que a paz se instale. Que não seja necessário acomodar os outros no Paquistão.

É lamentável que em pleno século XXI, às vésperas de tantos problemas reais e insolúveis, o Estado brasileiro prossiga gastando de modo irrefletido o dinheiro extraído do seu povo pobre – inclua-se nele a classe média, cada vez mais empobrecida, porque é quem paga os impostos. A irresponsabilidade é intolerável. É ela que autoriza a superposição de ingleses sobre os indianos, como se fosse aceitável a admissão de inglês para desempenhar a função do indiano. É lamentável que tal ocorra sem que se leve em consideração o investimento que foi feito para preparar o indiano e que, surrupiada a função dele, se a entregue de mão beijada ao inglês.

A austeridade, minha gente, é dever dos brasileiros, não deve ser uma ação de faz-de-conta, mas um comportamento diário de quem se sabe devedor de milhões de não incluídos, estes sim credores de uma esbórnia de solidariedade que está tardando.

O Estado brasileiro continua adquirindo equipamentos e, por isto ou por aquilo, destinando-os à ferrugem. Nos últimos tempos testemunhamos que destino igual tem sido dado a pessoas, que, deixadas à margem e sem as atividades que realizavam com competência e cuidado, também enferrujam.

O Brasil, a Bahia, a Cidade do Salvador, tudo, enfim, nos pertence. É da nossa responsabilidade cuidar bem daquilo que será herdado mais adiante por outros brasileiros, por outros baianos, por outros soteropolitanos. A noção que cultivamos de um futuro melhor se assenta na certeza de que é no presente que o construímos. E de mãos dadas, inclusive, com os ingleses.

Paz! E vamos para frente.

*Luis Guilherme Pontes Tavares, jornalista.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Niemeyer na Gameleira

Sentinela - Luis Guilherme*
Da varredura que se fez em 2007 em busca da arquitetura de Oscar Niemeyer na Bahia chegou-se apenas à lápide que o arquiteto centenário criou em dezembro de 2004 para o túmulo de Carlos Marighella no Cemitério da Quinta dos Lázaros. Desde então o nome do arquiteto foi vinculado a uma série de pretensas obras em Salvador: um novo estádio no lugar da Fonte Nova, um oceanário no terreno que foi do Clube Português e um novo teatro na Gameleira. Sobre as pretensões, Niemeyer apenas se pronunciou a respeito do estádio e defendeu a preservação do projeto original de Diógenes Rebouças.

Do oceanário, não se ouviu mais falar. Resta na mídia a notícia de que Oscar Niemeyer está criando o projeto arquitetônico do Teatro do Povo a pedido do presidente da Fundação Gregório de Matos, jornalista Antônio Lins, conforme a afirmação desta autoridade municipal da Cidade do Salvador no artigo “Sonhar é preciso” que A Tarde publicou na quinta-feira (16.04.2009) na página de opinião (p. 3). O Teatro do Povo, segundo uma ou outra nota de coluna, será construído na área hoje ocupada pelo estacionamento da Gameleira, no alto da Ladeira da Montanha.

A área em apreço é a mesma que sediaria a unidade baiana do Museu Guggenheim que a instituição norte-americana pretendeu edificar em parceria com a Prefeitura Municipal de Salvador. O prefeito era Antônio Imbassahy, que, por certo, pesou e mediu as consequências, inclusive a disputa visual que o novo equipamento estabeleceria com o Elevador Lacerda, um dos mais importantes ícones turísticos da cidade. O assunto seduziu o interesse da mídia na época e, assim como surgiu de repente, desapareceu na mesma velocidade.

O político e empresário Mário Kertész, âncora do programa “Jornal da Bahia” da Rádio Metrópole, afirma veementemente que o presidente da Fundação Gregório de Matos está construindo um factóide para chamar a atenção e que o escritório de Oscar Niemeyer não endossa a versão de que o arquiteto esteja projetando o Teatro do Povo de Salvador. Tampouco o radialista crê, conforme o mesmo Antônio Lins afiançou, que o regime do coronel Muammar Kadafi, presidente da Líbia, entraria numa parceria com a Prefeitura de Salvador e financiaria o projeto.

Temo que a Bahia ainda acabe pagando caro – quiçá na barra de um tribunal – pelo uso descarado do nome de Oscar Niemeyer, um homem de bem com a vida e cujo compromisso é nos legar sua obra e o bom nome que continua elevando neste século XXI de meu Deus.

Há um detalhe no artigo do presidente da Gregório de Matos que me intrigou, porque é leviano. Dizer que a capital baiana não tem palcos é desconhecer os muitos equipamentos quase ociosos que reclamam melhor aproveitamento urgentemente. Lembro por exemplo o Teatro do Iceia, os auditórios dos prédios do Centro Administrativo da Bahia, os velhos cinemas Pax e Jandaia e assim por diante. Considero injusto, ademais, afirmar que falta programação voltada para a gente pobre da cidade, quando há espetáculos dominicais a Cr$ 1,00 no Teatro Castro Alves. Virou moda atacar a área cultural do Governo do Estado... Isso deve doer, todavia o secretário e seus pares parecem cada vez mais equilibrados em suas funções.

Melhor seria se a nossa imprensa adotasse com mais frequência o gênero interpretativo e assim apurar mais os assuntos e explicá-los de modo claro e preciso. Nesse sentido, o melhor a fazer é entrevistar Oscar Niemeyer e Muammar Kadafi. A pauta está lançada.

*Luis Guilherme Pontes Tavares - Jornalista e produtor editorial.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

O estilo gonzo no Brasil


Sentinela - Luis Guilherme Pontes Tavares*


Os novos sinais de fissura no frágil corpo da liberdade humana devem explicar a crescente, porém tardia, repercussão da vida e da obra do jornalista e escritor norte-americano Hunter S. Thompson, criador do gonzo journalism. Thompson desafiou a legislação do seu país no quanto pode com os seus textos e no uso desenfreado de drogas, bebidas, velocidade e armas. Marcado com o selo de bad boy, apesar disso o jornalista era tratado pelo seu editor da Rolling Stone, Jann Wenner, com o distinto qualificativo de Dr. Hunter Thompson.

O gonzo journalism é, segundo o jornalista André Felipe Pontes Czarnobai (TCC. Porto Alegre: UFRS, 2003) , “o filho bastardo do new journalim”, que, por sua vez, é o estilo que aproxima os recursos da literatura do jornalismo. No gonzo o jornalista é o personagem principal da reportagem e incorpora ao texto aspectos do cenário e da ação que o jornalista de modo geral não daria a menor importância. Thompson transformou sua obra jornalística em algo tão pessoal que esse estilo torto e bizarro ganhou a denominação de gonzo. E tanto mais gonzo se tornava quanto mais Hunter Thompson o temperava com drogas e bebidas alcóolicas.

A edição mais recuada de um livro de Hunter Thompson no Brasil deve-se à editora carioca Anima, que, em 1984, publicou Las Vegas na cabeça. Estampou na quarta capa a setença atribuída ao The New York Book Review, de que a obra era “o melhor livro da década das drogas”. Esse livro ganhou nova edição da Conrad, editora de São Paulo que tem publicado nos últimos anos a obra de Thompson, e seu título agora é Medo e delírio em Las Vegas, o mesmo que foi adotado pelo cineasta Terry Giliam para o filme de 1998, inspirado no livro, em que Johnny Depp contracena com Benicio del Toro.

Em 2007, a editora paulista Companhia das Letras publicou, na sua coleção Jornalismo Literário, a coletânea Reino do Medo – segredos abomináveis de um filho desventurado nos dias finais do século americano, que reúne textos de Hunter Thompson que contêm informações sobre si, de modo que a obra funciona como uma autobiografia. Acrescente-se a esse livro o recente filme, ainda sem legenda em português, Gonzo: the life and work of Dr. Hunter S. Thompson, cuja cópia está sendo vendida numa grande cadeia brasileira de livrarias pela bagatela de R$ 150,00.

Thompson nasceu em 1937, no estado do Kentucky, às vésperas, portanto, da II Guerra Mundial. Quando jovem, serviu à força aérea norte-americana, onde iniciou o jornalismo. De redação em redação, passou a condição de freelancer e colaborador regular da Rolling Stone. Seu modo invulgar de tratar os temas tornou a trajetória de Hunter Thompson extraordinária. Foi o caso, por exemplo, da pauta que recebeu para cobrir uma convenção dos Hell’s Angels, o polêmico grupo de motoqueiros dos Estados Unidos. Ele excedeu o previsto e só retornou à redação seis meses depois com material suficiente para publicar o livro Hell’s Angels – medo e delírio sobre duas rodas (São Paulo: Conrad, 2004).

O autor de Medo e delírio em Las Vegas viveu intensamente os seus dias e suas contradições. Amante das armas, era a favor da paz. Consumidor de drogas e bebidas alcoólicas, optou pela vida no campo, nas montanhas de Aspen. Desordeiro, pretendeu ser o delegado de Aspen, para o que fez campanha e quase chegou lá. Hunter S. Thompson, após cuidar da construção de um imenso monumento a si e ao gonzo journalism – uma grande torre no formato de uma adaga com a empunhadura em forma de figa com um polegar de cada lado –, ele, no início de 2005, se matou com um tiro de rifle na cozinha da própria casa. Estaria doente e, mais uma vez insubmisso, não se deixou levar pela morte anunciada. Em agosto do mesmo ano, suas cinzas foram espargidas por um canhão colocado no alto do monumento que ele ajudara a construir num vale de Aspen.

O estilo gonzo de Hunter Thompson, adotado no Brasil, por exemplo, em alguns textos da revista Trip, está espalhado além das fronteiras do jornalismo. Há qualquer coisa de gonzo no documentário baiano Dom Pepê, de Sérgio Siqueira, assim como há a moda gonzo, que ocupou oito páginas da revista Homem Vogue da primavera de 2008. Se duvidar, o estilo gonzo pode ser encontrado até mesmo no Palácio do Planalto.


* Jornalista e produtor editorial. Ele é meio-gonzo

segunda-feira, 30 de março de 2009

40 anos da morte de Marighella



Sentinela - Luís Guilherme*

No terceiro mês deste ano em que se completam os 40 anos do assassinato do político Carlos Marighella e os 30 anos do translado dos seus restos mortais de São Paulo para o Cemitério da Quinta dos Lázaros, em Salvador, dois episódios afins ocorridos no período devem ser enaltecidos: a apresentação, na primeira quinzena de março, da peça O amargo Santo da Purificação. Uma visão alegórica e barroca da vida, paixão e morte do revolucionário Carlos Marighella pelo grupo gaúcho “Oi Nóis Aqui Traveiz” na Praça Municipal; e a entrevista da pesquisadora Clara Charf, viúva de Marighela, à revista Muito que acompanhou a edição dominical de A Tarde no último dia 29 de março.

O baiano Carlos Marighela, mestiço como todos nós, é filho de afrodescendente com italiano, e completaria 100 anos em 05 de dezembro de 2011 se a saúde assim o permitisse e se agentes do Dops, sob o comando do delegado Sérgio Fleury, não o varassem de balas numa emboscada na Alameda Casa Branca, em São Paulo, no dia 04 de novembro de 1969. Dez anos depois, em dezembro de 1979, os parentes e amigos transladaram os restos mortais e os depositaram numa modestíssima sepultura do Cemitério da Quinta dos Lázaros, sepultura que permanece modesta apesar da lápide criada pelo arquiteto Oscar Niemeyer (completará 102 anos em dezembro deste ano) em que figura a epígrafe do morto: “Não tive tempo para ter medo”.

Perdeu quem não foi assistir O amargo Santo da Purificação porque foi uma oportunidade quase lúdica de conhecer Marighela. Os seus descendentes que residem em Salvador estavam lá na estréia do dia 13 de março, numa praça que não lotou e num ambiente tão respeitoso que até os bêbados transitavam imperturbáveis em cena dada a sorridente condescendência dos atores. Tomara que a Tribo de Atuadores Oi Nóis Aqui Traveiz volte em breve.

A entrevista de Clara Charf, 84 anos, enfeitou seis páginas (10-15) do número 52 da revista dominical Muito de A Tarde. A fotógrafa Rejane Carneiro colheu imagens da alegria que sempre me impressionou nesta militante que passou a viver com Marighella quando ela tinha 20 anos de idade. Ei-la sorridente, vestida de rosa, com a mesma vitalidade que exibiu no documentário Vlado, 30 anos, lançado em 2005 pelo cineasta João Batista de Andrade. A repórter Tatiana Mendonça deixou Clara à vontade para demonstrar mais uma vez a doce coragem que percorre suas veias.

Esta é a segunda vez que escrevo artigo em que figura Carlos Marighella. Em 08 de agosto de 2007, A Tarde publicou na sua página 3 o artigo anterior, “Niemeyer nas Quintas”, sobre a presença da arquitetura dele na Bahia. No mesmo dia recebi e-mail de m.odonto contrariado com o tratamento que dediquei a Marighella quando disse que ele é “um dos heróis da resistência nacional ao arbítrio”. A democracia autoriza tal reação. Por outro lado, o tratamento que dei a Mariga agradou muito o filho dele.


* Jornalista e produtor editorial. lulapt@svn.com.br

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